"Boyzinho",
Eu prometi para mim mesma que não te escreveria ou escreveria sobre você novamente, e isso aniquilou minha escrita, mas vinha conseguindo. Hoje, porém, faz 7 anos desde que começamos a conversar. Mas foi antes disso, não lembro quando, que eu te vi pela primeira vez, no Instagram. Você apareceu no meu feed, eu entrei no seu perfil e enquanto rolava sua página, senti a coisa mais peculiar. Eu te olhei e um pensamento me invadiu: "eu vou namorar esse cara". Me senti tão absurda. Anos depois, quando te contei isso, você disse que quando me viu pela primeira vez, pensou: "eu vou comer essa mina". É aí que começa o dilema.
Demorou um tempo até que conversássemos de verdade pela primeira vez, em 18 de agosto de 2019. Ficamos conversando madrugada adentro, e era mais um jogo de sedução, mas eu achei que éramos compatíveis. Foi com tristeza que eu descobri que você namorava, e foi com esperança que eu soube que você tinha um relacionamento aberto e poderia se relacionar com outras pessoas.
Até a página 2...
"Boyzinho" é como eu te chamava publicamente, e hoje me provoca tanta vergonha pensar nisso. É patético. Sinto vergonha ao pensar em todas as declarações que eu te fiz publicamente, sem poder sequer dizer seu nome. Sem poder postar uma foto, por mais inocente que ela fosse. Eu nunca pude conhecer sua mãe ou ser apresentada aos seus amigos.
...
GABRIEL,
Eu lembro da primeira vez que nos vimos pessoalmente. Eu estava apaixonada. Me apaixonei por você muito fácil, antes mesmo de te ver ao vivo. Eu chorei por você antes do nosso primeiro beijo. Mas no dia que marcamos de nos ver, eu pensei: "e se eu o achar feio pessoalmente?". Nunca te contei isso. Eu sempre fico com medo de achar as pessoas feias no primeiro encontro e ter que beijá-las mesmo assim. Mas quando eu te vi, te achei mais lindo ainda do que nas fotos. Eu estava perdida...
Era setembro, feriado, e você me levou a uma cafeteria bonitinha; eu pedi um lanche natural, mas não conseguia comer de tão nervosa. Nos sentamos frente a frente e eu te olhava enquanto você falava, seu braço perto do meu, mas ainda sem me tocar. Quando você pegou minha mão, meus dedos estavam sujos de farelo de pão, e eu afastei minha mão para limpá-la e devolvê-la para você, mas agora o momento tinha passado. Eu fiquei com o braço repousado sobre a mesa, esperando que você me tocasse novamente. Olhava pra sua mão, pro meu braço, e dizia por dentro: "me toque". Esbarrei o meu braço no seu. Eu só queria que você pegasse na minha mão.
... Depois, enquanto andávamos pela rua, conversando, eu mal ouvia o que você dizia, esperava apenas que você pegasse na minha mão, como havia dito que faria. E você nada.
Foi na esquina do Theatro Municipal o nosso primeiro beijo. O sinal fechou na hora que eu já me preparava para atravessar, e você me puxou pela mão, de encontro ao seu corpo, e se inclinou para me beijar. Eu nunca contei isso para ninguém, e não sei se você se lembra, mas você veio para me dar um selinho e eu fui para te beijar de língua, então o nosso primeiro beijo foi estranho por um segundo, até sua língua entrar em ação e a gente sincronizar. Fazia um dia lindo, o céu estava azul, com nuvens muito brancas, e o sol assistia nosso beijo, mas não foi ele quem fez arder minha pele.
Quando o beijo terminou e nos afastamos, nos pusemos a andar, e eu peguei na sua mão, e assim fomos caminhando.
Você me levou ao Pop Plus e quando chegamos, diante de um espelho, eu vi nossa imagem refletida - nós de mãos dadas -, e me senti uma rainha do baile de formatura. Nós ficávamos tão bem juntos, nossos corpos gordos eram imponentes. Eu estava com uma saia de princesa azul.
Depois fomos para a Avenida Paulista e caminhamos por horas, parando para descansar às vezes. Estávamos tomando um sorvete quando eu pus um pouco dele na minha boca e te beijei, fazendo o sorvete derreter da minha boca para a sua.
Ficamos ali nos beijando, e às vezes você me pegava pelo queixo, afastava meu rosto como se estivesse analisando uma pintura, e dizia: "vadia!".
Entre as minhas pernas o fogo queimava.
Você sentado, eu fiquei na sua frente e te beijei com urgência, apertando meu corpo no seu, espalhando o gliter do meu peito para o seu rosto. Gostava de olhar pra baixo e ver seu olhar inocente me mirando.
Depois você me levou para a estação da Sé, e em um canto continuamos a nos beijar, a esfregar nossos corpos um contra o outro, e num ímpeto eu te mostrei o meu seio. Você colocou as mãos no rosto, exasperado de tesão. Eu queria que você me possuísse ali mesmo. Mas nesse dia o tesão ferveu sem que pudéssemos fazer alguma coisa a respeito.
Eu lembro do momento em que pensei pela primeira vez: "eu te amo". Estávamos entrando em uma loja e um homem perguntou se você poderia comprar um pacote de bolacha para a filha dele, e você respondeu, de forma imediata e bem-humorada: "sim!", e naquele momento eu soube que te amava. Mas não confidenciei isso a você.
No dia 5 de outubro de 2019, finalmente teríamos nossa primeira noite juntos. Eu atravassei a cidade usando uma saia vermelha, sem calcinha por baixo, e quando falei isso no seu ouvido, você não se impressionou e disse que gostava mais de lingerie. Já você, chegou sem a barba que eu tanto amava e isso me fez desanimar por um momento. Era a primeira das muitas vezes que você desfazia algo que eu gostava em você, quase como se fosse para me colocar no meu lugar.
Antes de ficarmos juntos, eu tinha uma cena de BDSM no Dominatrix. Passamos horas nos beijando no meio dos sádicos e dos masoquistas, e você disse, baixinho no meu ouvido: "um dia eu vou te fazer chorar". Sádico!
Você me assistiu apanhar por meia hora e mais tarde, no motel, para cada chicotada que eu levei, você me deu um beijo nas costas. Encheu meu corpo de beijos, arrepiando minha pele, e eu pensei que não existia nada melhor do que aquilo. Como eu havia vivido 29 anos sem seus lábios na minha pele? Quando a sua boca encontrou a minha, eu senti o sabor da caipirinha na sua língua quente. Eu semi-cerrava os meus olhos e via seu rosto cheio de desejo.
Fomos tomar banho, e quando estávamos os dois debaixo do box, a água veio súbita e muito fria, me fazendo dar gritinhos e soltar uma gargalhada, enquanto prensava seu corpo contra a parede. Uma vez que equilibramos a temperatura da água, nos beijamos molhado, e você deslizava suas mãos pelo meu corpo todo. Me prendia num abraço.
Eu ainda lembro de quando você me colocou deitada na cama, barriga pra cima, e se enfiou entre as minhas pernas. Você não me penetrou de uma vez, antes roçou a cabeça do seu pau no meu grelo molhadinho de tanto tesão. Eu implorava para você me penetrar, estava ficando louca com o vai e vem no meu clitóris, e quando eu consegui me mexer a ponto do seu pau ficar na entrada da minha vagina, você disse, tirando: "tsc! tsc! tsc! você está sendo uma menina muito má. É só uma pincelada". E quando você enfim decidiu que era hora, enfiou seu pau em mim e meu gemido preencheu o silêncio do quarto.
Quando você gozou, se sentou numa poltrona ao lado da cama e ficou navegando pela internet, enquanto eu permaneci deitada, encarando o espelho de teto e me sentindo ressentida e sozinha por você ter se afastado. Olhava minha próprias curvas, meu corpo, e tirava fotos, quando você perguntou "você não está online?" e eu disse que não. Não queria ficar online. Mesmo assim, ativei a internet e veio a notificação com o seu nome. Você dizia: "Te amo!". Eu olhei para você e sorri e pedi para voce voltar para a cama. Era a primeira vez que a palavra com A era dita entre nós. Quando você deitou, eu puxei seu rosto, te fiz olhar pra mim e disse: "você me ama mesmo? Diz olhando nos meus olhos", e automaticamente eu fechei meus olhos. Você disse "então abre os olhos" e rimos. "É verdade isso que você disse?", perguntei. "Que eu te amo? Te amo é pouco".
Eu estava em êxtase quando nos despedimos naquela manhã. Jamais esperaria o que veio depois: você me bloquear no whatsapp. Eu entendi logo que você tinha feito aquilo para que eu não mandasse mensagem quando você estivesse na casa da sua namorada, mas você tentou mentir dizendo que seu celular tinha dado problema. O Thiago, entretanto, tinha me dito que você estava online no período em que você disse que estava sem celular. Você tinha ficado online nos dias que me deixou bloqueada. Você não sabia nem mentir direito. Aí veio a verdade: você e sua namorada tinham o poder de "vetar" um ao outro de ficar com alguém. Quando eu te perdoei, foi quando eu virei o seu segredo.
Um dia te perguntei "e se você morrer enquanto está comigo?" e você, muito cínico, disse: "vocês duas que se resolvam, não vai ser mais problema meu".
Para cada bom momento que você me dava, eu derramava milhares de lágrimas por ser a outra, por todas as coisas que eu queria e você não iria me dar. Eu tinha que amar em segredo, usar códigos para falar com você, tinha que fingir que não te conhecia tanto quanto eu te conhecia... tinha que abrir mão das minhas necessidades e conviccções para estar contigo. E quando joguei na sua cara que você havia me dito, no começo, que "podia se relacionar com outras pessoas", você me disse, sem vergonha alguma, que poder é diferente de estar disposto.
Mas tudo valia a pena quando estávamos juntos e você tocava nos meus cabelos, me abraçava e dizia: "eu te amo".
Lembro uma vez em que estávamos nos estranhando e você perguntou se eu queria ir à Galeria Olido e eu te disse: "com você eu vou até o inferno". Fomos, nos sentamos nos assentos apertados demais para os nossos corpos, e eu não via espetáculo nenhum, porque tudo que me importava era seu braço em torno de mim, seus dedos acariciando meus cabelos volumosos. O tempo desacelerava naqueles momentos, mas eu nunca tive tempo para ter você da forma que eu queria.
Tantas vezes nós brigamos e depois voltamos, que eu pensei que nunca iríamos ficar longe de verdade. Sempre achei que teríamos novas chances, apesar do meu instinto me dizer, da última vez, que aquela era nossa última chance. Eu te disse isso também.
Era verdade o que eu te disse. Por você eu iria até o inferno. E de fato eu fui lançada nele no dia que você me disse que por mais que eu te espere, você nunca vai chegar para mim. As coisas já estiveram muito piores. Nos dois primeiros anos eu chorei mais do que pensei que um ser humano seria capaz de chorar. Eu ia dormir chorando e acordava chorando. Me privei de estar com outras pessoas por 3 anos. Me fechei mais no meu mundo. Hoje não choro tanto, os remédios me anestesiaram, e já me permito conhecer novas pessoas, mas ainda assim, todos os dias sem você são um inferno. Faz 4 anos e meio que nós não nos vemos. O meu amor não diminuiu. Eu ainda penso em você, sonho com você, te vejo em outros corpos, busco por você em outras pessoas, e lembro de todos os momentos bons, mesmo tentando não focar neles. Eu ainda queria ser sua. Eu ainda queria que você fosse o pai do meu filho. Eu sempre vou lembrar que seu amor por mim não era tão grande quanto o seu amor por ela. Que era ela que você chamava de "minha menina".
Mas mesmo seu amor sendo insuficiente e tóxico, mesmo que seu amor não tenha me dado nada de concreto, mesmo todo mundo dizendo que você nunca me amou de verdade, ninguém nunca me amou como você, e isso é um fato. Ninguém nunca falou comigo como você, ninguém nunca me tocou como você. O meu amor por você é tudo que dizem que o amor não deve ser. Ele é desesperado, ele deseja o mal, ele quer possuir, eu renuncio aos meus desejos por amor. Eu te dei os melhores anos da minha vida, e agora não tem mais nada possível para mim. Eu te detesto por isso. E eu te amo por não ser capaz de deixar de amá-lo. Pode passar 7, 14 ou 21 anos, é você. Do momento que eu te conheci até o momento da minha morte, vai ser você. Com todo o meu ressentimento, eu te amo.
Eu te amo.