quinta-feira, 18 de junho de 2015

Cintiazinha

        
      Às vezes penso em todas as oportunidades que deixei escapar... mas a realidade é que nada me escapou, porque eu nunca tive nada. Se para as pessoas comuns a vida não passa de uma grande e fétida ilusão, para mim é ainda mais alarmante que isso. Sempre amei todas as pessoas erradas. Sempre busquei todas as coisas impossíveis. Não é de se admirar que aos 25 anos eu não tenha nada; tudo que sonhei estava fora do meu alcance. E busquei essas coisas justamente porque eram inalcançáveis. Nunca consegui amar com a mesma intensidade as coisas que estavam ao meu redor quanto às que estavam muito, muito longe de mim, seja moralmente, seja fisicamente.
      Repito muito que a melhor fase da minha vida foi aquela na qual perdi tudo, que mergulhei na dor buscando um anestésico para a vida, tomando cartelas de calmantes, garrafas inteiras de vodka, derramando meu próprio sangue etc. A verdade, porém, é que não havia perdido nada naquela época, pois já não tinha nada além de fracas expectativas, o que no fim equivale a nada. Perdi, se muito, um pedaço de mim. Mas todos perdem pedaços de si mesmos a cada segundo que transcorre.
      Não. A melhor fase da minha vida ficou em um passado agora muito distante. Tão distante, que às vezes penso que nem existiu, que foi um sonho, uma história que li, a vida de outra pessoa. Eu tinha 13 anos, e somadas à todas as dores do crescimento, havia feridas profundas esperando uma desculpa que fosse para vir à tona. E veio. 
      Eu tinha 13 anos, adolescente gordinha que causava repulsa aos garotos; uma ligeira atração por garotas, a qual tentava soterrar o mais fundo possível, tanto pela religião quanto pelo medo da rejeição familiar. Sim, já regi muito minha vida pela fé cristã cega e a vontade de aprovação das pessoas. 
      Foi uma meia-sensibilidade e total desespero que me moveu para os caminhos do que chamava, então, de arte. Borrões a guache num pedaço de papel, palavras sem nexo escritas, e isso despertou a atenção dos professores. Se não tinha afeto em casa, logo o recebi na escola. Aquele lugar se tornou minha casa, e minha casa se tornou o inferno ao qual tinha que retornar todas as tardes. De aluna nota 10 a presidente do Grêmio, ali era sempre "Cintiazinha isso", "Cintiazinha aquilo", entre exposições, que pareciam tão grandes, e hoje se mostram tão ínfimas, eventos e concursos, me tornei, em pouco tempo, popular. Aos 13 anos o mundo é um lugar enorme e brilhante, cheio de possibilidades. Mesmo quando a vida é um saco.
      Eu sei, é claro que sei, que nem todos professores são mestres. Nem todo professor incentiva, nem todo professor mostra sentimentos. E mesmo hoje, com essa noção, avalio meu passado como uma mentira, pois meus professores eram pagos; hoje vejo a afeição que me dispensaram com o mesmo asco de uma pessoa que acaba de pagar uma puta por sexo. 
      Lembro como se fosse outras eras, uma tarde em um jardim; eu, voluntaria, e a coordenadora pedagógica da escola... Estávamos plantando alfaces, acho. Qualquer oportunidade que me fizesse ficar o máximo possível entre aquelas paredes me era bem-vinda. E bem ali, entre cavar a terra e colher verduras, ela anunciou que em breve iria embora. Para Minas. Falava do quanto gostaria de me adotar, de me levar com ela, pois lhe era inacreditável e revoltante, ela afirmava, que meus pais não conseguissem ver a pessoa brilhante que eu era. Por muitos anos acreditei naquilo, e como me sinto tola agora! Como me sinto idiota por ter acreditado que tais palavras eram verdadeiras, que ela tinha mesmo cogitado me adotar! Ela foi embora, e eu fiquei, imaginando então, que o que me prendia fosse uma lealdade sem sentido por minha família. E nunca mais a vi. 
      Exatamente como nessa ocasião, ouvi muitas promessas e elogios nos próximos dois anos. E depois, quando fui cedendo novamente à depressão, ao ponto de me tornar inútil, a Cintiazinha foi dando lugar a outra coisa. 
      Lembra de mim? Lembro... você foi estudante aqui, né? Mas desculpe, não lembro seu nome.
       Vejo meu fracasso existencial nos filmes de comédia americano dos anos 90. Sabe, aqueles personagens que viveram o auge da vida no high school, geralmente líderes de torcida e esportistas? E depois se tornam caminheiros barrigudos e mulheres feias com 10 filhos nas costas, em casamentos decadentes? Só que nesses filmes os nerds sempre se dão bem. Na minha realidade, vejo gente que não tinha a menor aptidão para coisa alguma, que nunca foram notados por nenhum professor, que nem ao menos sabem escrever direito, com carreira, com família, ou seja, numa situação um pouco melhor de acordo com o que exige a sociedade? E mesmo aos meus padrões, eu, que tento rejeitar o que a sociedade prega, sei que minha vida é risível.
       Aquela foi a melhor fase da minha vida. É com aquela época que sonho. Com aquelas pessoas que nem sabem meu nome, que nem lembram da minha existência! De um modo bastante metafórico, tenho sonhado mais com o Benedito Calixto nesses últimos meses... e em todos os sonhos tudo está desmoronando. A escola com que sonho está sempre caindo aos pedaços, inundando ou ruindo, e as pessoas morrendo. A escola de verdade, que ficou lá onde sempre esteve, nunca foi tão bonita e limpa.
       Entendo do que você fala quando diz que uma coisa é saber a verdade, e outra diferente é colocar em prática. O que eu mais queria nesse momento era abandonar tudo o que me prende, coisas que não me importam de verdade, e que eu continuo nutrindo por alguma razão. Já abandonei toda a vontade de fazer faculdade, justamente por ter percebido como é idiota todo esse sistema. As pessoas mais burras que já conheci, foi dentro de uma universidade! Entre professores universitários e os alunos, pouca gente se salva. Por tantos anos sonhei com isso, e foi tão importante para mim conseguir um diploma para validar minha inteligência (?), para dizer que eu era especialista em alguma coisa, que ao não conseguir isso, acabei jogando minha vida fora — exatamente como um rascunho escrito num pedaço de papel, assim, embolado e atirado no cesto de lixo. Só que com a vida não posso começar tudo de novo. Será que coloquei isso de forma compreensível? De tanto exigir de mim mesma esse atestado de "sabedoria", e por não ter como consegui-lo, eu fiquei inerte. Me abandonei.
       Tenho fome de aprender todas as coisas que me despertam interesse, de provar de tudo um pouco, mas a obrigatoriedade ainda me engole com tanta ânsia que fico inerte. Essa é a maior contradição da minha existência. Por querer tantas coisas, acabo não fazendo nada. 
     Hoje, em tudo que quero, espero total autonomia. Eu quero ser minha própria professora, quero decidir até onde vou com cada coisa que experimentar, e não quero que ninguém me diga que estou errada, que não tenho foco para me especializar em nada. Existem tantas coisas nesse mundo que não entendo, tantas coisas que quero vivenciar... e daí se eu não for especialista em nenhuma delas? De que me serviria esse título no caixão, sem nenhuma experiência verdadeira?
       Imagino que muita gente ao ler esse post, apontaria logo o comodismo e conformismo com que levei minha vida. E talvez estivessem certas. Porém, o que estou dizendo é que nunca perdi nenhuma oportunidade, porque tudo aquilo que vi como tal, se mostrou apenas alarme falso. Todas as coisas que pensei que eram minhas, que me esperavam, e todas as pessoas que pensei que me amavam, era tudo uma ilusão. Ao abrir mão dessas coisas, não abri mão de nada que fosse de fato acontecer. A coisa mais importante que perdi ao perceber isso, foi a esperança. E acho, que essa era a última coisa que eu tinha disponível.
       Hoje construí um ideal de liberdade. Está bem aqui na minha cabeça o que preciso fazer, o que quero fazer, o que me falta para alcançar a paz que busco... E não preciso de absolutamente ninguém para chegar lá, só de mim mesma. Agora me resta construir a coragem para colocar o ideal em prática.