sábado, 11 de novembro de 2017

justiça


   Mesmo com todo o meu pessimismo, eu sempre procurei acreditar que as coisas têm uma ordem. Que a vida é feita de ação e reação, e isso me fez relevar, de certa forma, todas as maldades que me impuseram. A esperança de que um dia o mal voltaria para essas pessoas me servia de consolo. A expectativa de que um dia eles receberiam um pouco do próprio veneno me fez aceitar a forma como a minha vida transcorreu. Isso me torna uma pessoa ruim? Querer que as pessoas que me fizeram mal também sofram? Ou me faz conformada, por esperar que a vida se encarregue de me dar "vingança", ao invés de eu mesma buscá-la?
   Um dia, muito tempo atrás, um cara, cansado de me ver sofrer e definhar, me propôs: "você quer que eu mate o seu tio? Se você quiser eu mato. Dou um tiro nele". E eu sei que ele o faria, ele era esse tipo de pessoa. O amei por isso, mas não pude aceitar. Eu tinha 16 anos, cheia de ideais, e matar alguém, ou ordenar a morte de alguém, ainda me era uma coisa incabível. A minha consciência não me deixaria em paz. Eu preferi continuar definhando e esperando que a vida agisse.
   Não se trata de vingança, se trata de justiça. Sim. Eu, logo eu, fui tola o bastante para acreditar, por 27 anos, que pode haver alguma justiça nesse mundo fodido! Mesmo o mundo me mostrando consistentemente nas manchetes de jornais, nos relatos de amigos e na minha própria vida que a justiça é uma utopia. Eu acreditei. Aposto que por essa vocês não esperavam!
   Mas hoje a verdade me atingiu no meio da fuça. Surgiu feito um raio, quando eu menos esperava: não existe justiça. Não há divindades, não há karma, não há energia, não há um sistema cósmico para honrar quem quer que seja...
   Eu luto todos os dias. Luto para continuar viva e para manter minha sanidade. Luto mais do que qualquer pessoa poderá imaginar, mais do que todos pensam. Luto contra mim e por mim, enquanto as pessoas que deram vida e alimento aos meus demônios seguem suas vidas tranquilamente, sempre adiante, sempre prosperando, dormindo feito bebês; enquanto eu não consigo pregar os olhos, com medo das lembranças e indignada enquanto minha vida se esvai.
   Não existe justiça.
   Eles estão sempre felizes, e eu sinto essa angústia que dilacera minha alma.
   Não existe justiça.
   Eles conhecem o amor de uma forma que nunca me será permitido.
   Não existe justiça.
   Eles não se sentem sozinhos ou abandonados nunca.
   Não existe justiça.
   Eu tento ser boa.
   Não existe justiça. E o que eu faço com isso?
   Se não existe justiça, como eu posso continuar lutando, com que forças?
   Não existe justiça. A vida e uma questão de azar ou sorte, tudo da forma mais aleatória possível. Talvez eu devesse arrumar uma arma, no fim das contas, e resolver a questão eu mesma. Porque não existe justiça, e nada mais importa.

"Nem todas as flores têm a mesma sorte,
umas enfeitam a vida e outras enfeitam a morte"   

sábado, 4 de novembro de 2017

só por uma noite

   Conversava com um rapaz cheio de pintas no rosto, primeiro sentados lado a lado, e depois ele se levantou e ficou diante de mim. Um cara que a princípio se mostrou bastante tímido, e por isso atraiu minha atenção. Tentei engatar uma conversa sobre Terrorismo Poético, mas ele não entendeu o tipo de terrorismo que eu estava propondo. Perguntei se ele é artista, ele me disse que gostaria de ser artista de palco, e eu estava a ponto de encorajá-lo, quando um de seus amigos se aproximou de nós e perguntou: "O que significa essa tatuagem no seu pescoço?". "Aberração", informei.
   O cara tímido, que por sinal atende pelo apelido Beto, começou a questionar o porquê de eu tê-la feito, ainda mais num lugar tão exposto. "Não é uma coisa negativa", afirmei. "É uma auto-afirmação. Eu sou uma aberração... de corpo e alma" - disse, omitindo que essa frase é de uma música do Silverchair.
   Ele ficou indignado: "você não é uma aberração, você é linda". E eu repeti: "não se trata disso. Diante da sociedade eu sou uma aberração, sou diferente deles em todos os aspectos, e isso não é ruim. Foda-se a sociedade". "Você está certa, foda-se a sociedade, o padrão. Mas você não é uma aberração", e insistiu: "você é uma mulher linda!".  "Obrigada", respondi "mas realmente não é algo negativo. Você sabia que existem borboletas sem asas?" (e levantei, porque não gosto de conversar com pessoas quando elas estão acima de mim). "Sim" ele disse, embora eu saiba que é mentira. "Pois bem, elas são lindas, mas são consideradas aberrações da natureza, porque são diferentes das demais". 
   O amigo dele voltou a ficar em foco. Não sei se ele permanecera ali ou se tinha acabado de voltar, pois eu estava um pouco alterada e concentrada no rapaz tímido. O amigo dele perguntou: "Quem é esse no seu peito?". "Augusto dos Anjos", eu disse. Um deles questionou "é um poeta, né?", eu assenti. Eles se colocaram à minha frente e leram juntos (o Beto passando o dedo pelas linhas traçadas no meu peito: "O coração do poeta é um hospital onde morreram todos os doentes". Eles ficaram impressionados. "Eu acho que o conheço", alguém me disse. "O poema mais conhecido dele é..." comecei, mas minha mente ficou subitamente vazia; a bebida e a maconha que estava sendo passada de boca em boca surtindo seu efeito... Versos Íntimos, caralho! - "Qual o livro mais famoso dele?", o Beto perguntou, me salvando. "Eu e Outras Poesias", disse. Pelo menos isso! 
   Ele estava muito próximo de mim, nossos corpos roçando. Seu amigo se afastou, ou eu parei de prestar atenção de novo. O Beto continuava inconformado: "queria entender porque você tatuou isso nesse lugar... você queria chocar?" perguntou e passou os dedos sobre a tatuagem. Eu reafirmei os pensamentos anteriores, e ele continuou na tecla: "Tudo bem, mas você não é uma aberração - é uma mulher linda e gostosa". "Eu sei", respondi. Ele beijou meu rosto. "Você é muito gostosa", repetiu, e o meu amigo chegou no meio dessa declaração. Me abraçou pela cintura e disse: "Ai, é mesmo! Minha amiga é maravilhosa, né?", e o Beto disse: "Sim, ela é linda", e ambos beijaram o meu rosto, não sei quem primeiro. O meu amigo saiu de cena e o Beto, cujo corpo continuava esbarrando no meu, passou as mãos pelos meus cabelos e beijou minha testa: "Você é maravilhosa".  "E você tem um monte de pintas", observei. "Tenho pelo corpo todo. Até no pau", e antes que eu pudesse responder esse comentário, que senti que escapou sem intenção pois sua voz morreu no final, ele levantou a camiseta e me disse que tinha uma pinta na altura das costelas. Mas não tinha nenhuma pinta. "Ah, então é do outro lado", e mandou eu levantar sua camiseta, o que eu fiz, e vi a pinta. Um formato bastante peculiar. Ele me contou que aquela era a pinta preferida de sua mãe, que faleceu seis meses atrás. Não soube o que dizer. Passei o dedo na pinta e desci com as unhas por sua pele negra e macia, pensando em como seria bom poder beijar a pinta, lambê-la, descer minha língua por aquela pele lisa, mas afastei meu dedo antes de chegar na altura de seu ventre. Abaixei a camiseta e engoli o excesso de saliva. Ele me mandou levantar de novo e eu repeti o ato. A camiseta abaixada, lhe beijei o rosto. Ele beijou o meu uma, duas, três vezes, me deu um selinho segurando meu rosto, eu retribui, e num instante nossas línguas estavam enlaçadas, nossas bocas traçando beijos ardentes. Ele me abraçou e desceu os braços, pousando suas mãos um pouco abaixo do meu quadril, me puxando para si. Passei meus braços em torno do seu corpo e deslizei a mão para dentro de sua camiseta por um momento, tocando-lhe a pele, mas me contive e subi a mão, tocando seu braço, subindo pro pescoço, parando em seu rosto.
   "Cíntia!", ouvi minha amiga gritar, e interrompemos o beijo. "Sim?". "Você está bem?" ela me perguntou, se aproximando, e eu assenti. O Beto ficou contrariado. "Você está realmente bem?", ela perguntou "ou está muito bêbada?", "estou bem", repeti. "Se você está fazendo isso porque quer tudo bem, mas se não souber o que está fazendo...", o Beto demonstrou sua insatisfação em voz alta, como se tal suposição o ofendesse. "Não estou entendendo, nós somos todos adultos de mente aberta", ele disse, talvez não nessas palavras. "Ela só está preocupada comigo", eu disse. "Se vocês dois querem então tudo bem, continuem", ela disse, nos aproximando, mas eu não sabia como retomar as coisas, e ele não engoliu tão fácil. Ela saiu de cena. "Qual é a dela?", ele me perguntou. "Ela é minha amiga há muito tempo, só está preocupada". O clima não estava morto, mas precisava ser recarregado. E eu queria mais. Ele me mandou anotar seu telefone. "Não estou usando whatsapp no momento", disse. "Pode ser facebook?" perguntei. Peguei meu celular e tentei digitar seu nome na busca do Facebook, mas estava difícil. Pedi para ele digitar, e ele também se enrolou. "Pode ser por e-mail?", questionei. Ele me mandou anotar, e eu estava fazendo isso quando ele me abraçou por trás e um de seus amigos disse: "Olha onde o Beto já está!".
   Eu guardei o celular prometendo que lhe escreveria, mas duvidando que ele se lembraria de mim ou que responderia. Ele pegou na minha mão, entrelaçamos nossos dedos, e fui pega de surpresa quando ele me girou como numa dança, sob o seu braço, me puxou e me beijou. Eu apoiei meu pé no murinho mais próximo porque estava ficando tonta, não sei se pela leve embriaguez ou se pelos beijos. Beijei suas pintas e desci os lábios para o seu pescoço, lambendo e chupando a pele quente e com um gosto salgado de suor; gosto de gente.
   Voltei para os seus lábios e disse com a boca abafada pela dele: "você é lindo", e sem parar de me beijar ele me disse "VOCÊ é linda" beijo "e gostosa" beijo beijo "você é muito..." pausa e beijo "muito." beijo.
   Muito muito. Às vezes as pessoas se referem a mim dessa forma, como se eu fosse tanto, que não existisse um adjetivo que me descrevesse com exatidão. Eu ainda não sei se isso é um elogio ou uma ofensa, mas quando me dizem isso eu me sinto dentro de um roteiro elaboradamente pensado.
    "Você ainda não viu nada", respondi, ficando nas pontas dos pés e o abraçando ao redor dos ombros. Ele me cedeu equilíbrio. Os lábios dele se encaixavam perfeitamente nos meus, entre os meus, nossas línguas em sintonia, as mãos dele me puxando. "Você é... intensa...", ele disse. "É, eu sou intensa... e louca", assenti. "Tem quem não me queira por isso", confidenciei. "Eu te quero por isso", ele disparou, e me atingiu em cheio, em todos os espaços do meu ser. Corpo, mente, o que mais existir...
   Às vezes a vida nos dá exatamente o que queremos. Nem que seja só por uma noite.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

eu não sou de nada

   Não sei porque, mas o meu vestido encolheu. Um ano atrás, quando eu o comprei, ele ficava um pouquinho acima dos meus joelhos. Agora ele mal cobre minha bunda. Se eu ergo os braços, ela fica a um triz de aparecer.
   Gosto dele, apesar de ter sido um erro. Quando eu fui comprar o vestido nessa loja online, pedi um vestido ciganinha preto com glitter e sem estampa, e quando recebi era um vestido-camiseta verde com um tigre feito de lantejoula preta, branca e amarela. Eu não gosto de verde, exceto o verda da parede do vizinho lá de cima, e não morro de amores por tigres. Detesto roupa de adulto com estampa, especialmente feitas de lantejoula. E briguei muito com a vendedora. Eu gritei com ela, ela gritou comigo, mas por fim fiquei com o vestido, porque queria usar em uma festa, nem lembro de quem era, e não dava tempo de comprar em outro lugar. Foi um sucesso. Todo mundo tão contente por ver a Cíntia arrumadinha e felizinha. Parentes distantes e essas coisas.
brincadeira, eu subi um pouquinho nessa foto...
   No fim das contas, tirando o tigre, e tirando o verde, eu gostei bastante de usá-lo. Ele dá um contorno ao meu corpo que é quase sem contorno e me faz sentir sexy quando o vento bate de leve. 
   Só que agora ele encolheu, e minhas coxas ficam permanentemente expostas. Ontem eu o coloquei e fui ao centro de Itaim Paulista pagar uma das últimas parcelas dos meus óculos. A pior parte de usar vestido, ainda mais um tão curto, é subir no ônibus. Eu sei que a minha bunda ficou a mostra e eu tentei fazer com que o cara que estava no ponto de ônibus comigo subisse antes de mim, mas ele, muito cavalheiro, insistiu que eu fosse na frente. E quando eu desci, o último degrau sendo muito longe do chão, e eu tendo que dar um pulo, o vestido subiu mais um pouco, e o ponto de ônibus estava razoavelmente cheio. 
   Estava ventando muito e o vestido ficava subindo, e eu puxando pra baixo e ele insistindo em subir e eu tentando segurá-lo, e ele subindo, e o vento batendo e minhas coxas expostas e alguns homens olhando e eu disfarçando o meu desconforto, mais pela desobediência do vestido do que pelos olhares.
   Um cara chegou a parar, me olhou dos pés à cabeça enquanto eu caminhava em sua direção, e voltou seus olhos para os meus olhos, com um sorrisinho muito trambiqueiro; uma cara de quem diz: safada! Mas tirando esse olhar, ele não disse nada. Desviei dele, segui em frente.
   Depois de pagar os óculos eu fui à costumeira lanchonete comer um pedaço de torta, que estava em falta, então sentei para comer um pedaço de pizza, colocando a barra do vestido entre as minhas pernas, minhas coxas aparecendo. Um homem passou com sua namorada e olhou e eu olhei pra ele, e a namorada dele olhou pra mim e eu olhei pra ela, e pensei: "se ela brigar comigo eu digo que estava olhando pra ela e não pra ele", mas ela não disse nada e eles foram embora.
   Na volta foi ainda mais constrangedor subir no ônibus, porque o ponto estava realmente lotado. Mas eu fiz que não liguei e subi sentindo a brisa na minha bunda.
   Quando eu cheguei em casa continuei de vestido, e depois o meu irmão veio nos visitar, porque havia esquecido as chaves da casa dele no escritório. Eu estava descendo as escadas para fazer sala, e percebi que ele olhou meu vestido, então indaguei: "meu vestido encolheu, né?!" e minha vó entrou no papo (ela é absolutamente contra eu usar vestidos, porque acha que eu fico mais gorda): "você cortou seu vestido? ele está muito curto". E eu disse: "não, acho que encolheu nas lavagens", e ela, desconfiada: "mas mesmo que encolhesse na lavagem, está muito curto...", e eu contei ao meu irmão sobre o cara que me chamou de safada com os olhos, e minha vó fez um "oh!", escandalizada, e meu irmão disse, colocando lenha na fogueira: "a culpa é da senhora que deixa ela sair só de camiseta por aí". E minha vó fez aquela cara de "com coisa que alguém deixa ou desdeixa a Cíntia fazer o que ela quer".
   Depois, no meu quarto, no meio de uma conversa quase quente, eu voltei a me sentir sexy com o vestido. Ainda mais porque tirei o sutiã, e quando esbarrava nos meus próprios seios sentia meus piercings. Eu pensei: "da próxima vez eu poderia sair só de vestido, sem calcinha e sem sutiã", e fiquei entretendo a ideia. A conversa não esquentou o suficiente, mas eu fervi sozinha.
   E hoje, quando fui ao mercado, eu não estava de vestido. Usava um short jeans e uma blusinha comum, e descia a minha rua quando passa um nego muito lindo, indo na direção oposta. Nos olhamos, e ele perguntou: "tudo bem?" e eu respondi: "oi", e ele lambeu os lábios e respondeu: "oi". Desviei o olhar, fiquei olhando pro alto, pras árvores, pro céu, mexi nos meus cabelos e tentei me esconder atrás de mim mesma, sentindo o olhar dele em mim. Mas eu não olhei pra trás, continuei indo. Meu rosto ficou muito quente. Por fim olhei, mas ele já estava terminando de virar a esquina. Fiquei repetindo na minha cabeça oi oi oi oi oi oi e me odiando, sabendo que o meu oi tinha sido o mais seco possível e que eu provavelmente o encarei com uma cara muito brava — faço isso nessas situações. Me remoí por dentro, porque toda vez que um homem fala comigo eu perco a compostura.
   Depois fiquei pensando nele e em todas as coisas que poderíamos fazer. No meu vestido, na língua dele lambendo os próprios lábios antes de me responder: oi.
   Caros leitores. Eu gosto de provocar e gosto de ser provocada, tudo bonitinho... na teoria. Mas na prática, se um homem não me agarrar e...
   Quem me vê falando de meter foder gemer lamber gozar chupar e todas essas palavras que eu uso como bombas de efeito moral, não imagina que quando uma oportunidade surge eu tenho vontade de me esconder debaixo da terra. Ser puta até vai! Agora, ser puta tímida, é de lascar!



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

sonho

   Os risos do lado de fora pararam. Surpresa, eu engoli o choro.
   A escuridão ainda se fazia presente, e por algum tempo tudo foi silêncio; até que o ranger da porta se abrindo falou mais alto, e seguido a isso veio o som  do canto dos pássaros ao longe, e o murmúrio do vento circulando com suavidade, como ele faz após uma tempestade; então fui tomada por uma luz forte, de ferir os olhos, que preencheu todos os espaços, iluminou todos os recantos do porão. Por instinto, cobri meu rosto molhado com dedos vacilantes e infantis, e entre eles eu pude ver uma mão saindo do meio de toda aquela claridade. Primeiro eu pensei que a mão estava ali para me ferir, mas ela se aproximou lentamente e parou à minha frente, suspensa, a palma para cima; convidativa.
   Hesitei por alguns segundos, mas aceitei o toque daquela mão quente e firme, que apertou meus dedos entre os seus de forma reconfortante. A mão me puxou para a frente, mas eu não queria sair ainda, não sabia o que me esperava lá fora. Meu corpo estancou abruptamente. Os dedos dele acariciaram o meu pulso, como que para dizer que estava tudo bem, eu já podia sair.
   Caminhei passos muito lentos, curtos, em direção a luz, e envelheci 21 anos no momento que coloquei meus pés para fora. 
   O porão sumiu atrás de mim e meus olhos se acostumaram a claridade. Eu estava em um campo aberto que se estendia por muitas milhas, e a despeito de todo aquele espaço me fazendo sentir pequena, eu não tive medo; não estava sozinha. Era um campo de trigo; eles subiam, serpenteando por nossas pernas, fazendo cócegas, batiam mesmo em nossas cinturas. Apesar da claridade, o sol não era ardente, e a brisa secou meu rosto com o cheiro de coisas vivas. Cheiro de maçã, de gengibre, de laranja, de coentro e dama-da-noite, cheiro de amor. A mão dele não soltava a minha, que já não era vacilante ou infantil.
   Caminhamos em silêncio, em direção a uma colina muito verde, a qual subimos. No topo, uma árvore que não era frutífera e tinha galhos raros, deixando a luz do sol emitir seus raios entre um e outro. Sem soltar minha mão nós nos deitamos sob a árvore, raios inconstantes sobre nossos corpos e a brisa contínua, trazendo, a cada rajada, novos cheiros que pairavam sobre nós — eu com o corpo virado para cima e ele ao meu lado, me olhando atentamente enquanto eu inspirava e expirava lenta e calculadamente, querendo absorver tudo aquilo que por tanto tempo esteve fora do meu alcance. Eu via o céu e todas as nuvens que formavam coisas lindas.
   Milimetro por milimetro nossos corpos se aproximaram, sem nunca desatarmos nossas mãos, que suavam uma contra a outra. E pousei minha cabeça sobre seu peito, ouvindo seu coração bater ritmado, sem exageros e sem espantos. Eu não queria queria dormir, tinha medo que tudo estivesse acabado quando eu acordasse, que eu seria levada de volta para o porão. Mas, cansada pelo choro de tantos anos, e embalada pelo vento, pelos cheiros, pelo sol e pelo compasso daquele coração, minhas pálpebras pesaram e cederam. Eu dormi e sonhei. Eu sonhei. 


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

caixas


   Pedi um tempo do trampo. Todas as cobranças, a ingratidão e a incerteza do que vai acontecer entre um mês e o outro estava me atordoando. Eu não sei viver sob pressão. Simplesmente não consigo, algo dentro de mim fica inquieto e não me deixa em paz. Não durmo, não consigo me concentrar, fico desgastada e como demais ou deixo de comer por completo. Eu consigo sentir o peso da atmosfera, dessa coisa abstrata e incorpórea me esmagando fisicamente, me fazendo ficar com as costas e os ombros curvados. Então eu pedi um tempo. Não sei quando volto. Pode ser amanhã ou pode ser daqui uns meses. Talvez nunca mais.
   Tudo que eu fiz por enquanto foi dormir e tentar ler um livro. Mas estou presa na página 35 e não consigo seguir adiante. O autor é muito prolixo (logo se vê, pois o livro tem 576 páginas). Em alguns momentos prende minha atenção e eu penso: "agora vai", e em outros ele me perde completamente, descrevendo coisas irrelevantes para a história que está tentando contar, ou repetindo pensamentos que já foram estabelecidos. Os autores não entendem que primeiro você tem que fazer o leitor se importar com os personagens, seja através do carisma, da repulsa, ou da admiração, mas algo tem que ser o bastante para alimentar a curiosidade, para fazer com que o leitor tenha disposição para virar a página. E depois, APENAS depois, eles podem se demorar por páginas e páginas descrevendo-os fazendo coisas insignificantes (mas deveriam evitar isso, deixar algumas coisas para a imaginação). Enfim, as coisas têm uma ordem. Não me interessa ler sobre personagens que eu não conheço, e por enquanto os personagens em si mal apareceram, são páginas e páginas de divagações de um protagonista invisível.
   E eu sou uma protagonista invisível, sempre divagando, por isso ninguém me lê.
   Essa tortura literária talvez me caiba perfeitamente, porque apesar de tudo, estou me sentindo culpada por ter cedido e pedido um tempo. Não pelos meus irmãos, que não tiveram consideração comigo, mas por mim mesma. Tenho medo de me tornar mais irrelevante, de não me deixarem voltar, visto que a intenção deles já era me demitir.
   Não posso me divertir muito. Tenho evitado ouvir música. Esse tempo que eu tirei não é para que eu me divirta, é para que eu fique na minha, para que eu pense no que tenho que fazer a seguir. Se eu me mato ou se prossigo nessa existência burocrática, sem sentido, sem carinho, sempre trancafiada entre 4 paredes, em uma casa ou outra.
   O Junior veio aqui no sábado, e sabendo que eu me cortei, me disse: "uma criança fazer isso tudo bem, mas você já é adulta! Já devia ter estabilidade emocional para lidar com os problemas da vida". E o que eu posso responder? O que ele espera que eu faça com isso? Ele acha que vai me curar com tais palavras, que subitamente eu vou ter o que é necessário para viver nesse mundo que me mastiga e me engole, pedaço por pedaço, dia após dia? E que direito ele tem?! Ele, que não sabe mais nada a meu respeito, que mal me viu esse ano! Que não está dentro da minha pele para saber como tudo isso está me matando da forma mais cruel e dolorosa possível!
   Quanta tortura emocional uma pessoa consegue aguentar calada, contando apenas consigo mesma...?
   Estou tomando os meus remédios e tenho permanecido em silêncio absoluto, pensando, pensando, pensando. Penso no Emanuel e nos caras que vierem depois dele. Nos padrões que eu caio. Penso no meu passado e em todas as coisas que eu quero. Penso em tudo que é inatingível, e às vezes me dá muita raiva. Penso em espaços fechados.
   Penso que todo mundo gosta de espaços pequenos, mesmo quem se acha tão selvagem e acima dos engravatados. O mundo é tão grande, mas as pessoas criam limites e barreiras e constroem caixas para viver, para se locomover, para os seus momentos de lazer. As pessoas trabalham dentro de caixas, comem dentro de caixas, fodem dentro de caixas, e usam caixas menores para distrair suas mentes, que também são como caixas muito, muito pequenas. Elas não são tão diferentes de mim. Eu apenas permaneço dentro de uma só caixa por longos períodos de tempo, enquanto elas transitam entre uma caixa e outra. E mesmo quem compra mansões, provavelmente vive a maior parte do tempo em um dos cômodos, o quarto ou a sala ou a biblioteca, atrás de portas fechadas.
   E eu sei porque nós gostamos de espaços pequenos. Nós viemos de um espaço pequeno, o útero. E quando fomos jogados nesse mundo tão imenso, fedorento, barulhento e cruel, perdemos aquela sensação de conforto. Os recém-nascidos precisam de um cobertor que lhes deixe bem apertadinhos para que se sintam confortáveis. E nós, adultos,  precisamos de nossas caixas de concreto ou de metal. E quando morremos, somos enfiados em uma caixa de madeira.
   E eu... eu gosto de espaços pequenos porque sair do útero foi um grande choque, e porque passei boa parte da minha vida em um cômodo pouco maior do que o banheiro de muita gente, com meus dois irmãos e minha mãe e os meus tios me tocando e inserindo suas partes em mim e muitas caixas de brinquedos que nunca tivemos permissão para abrir. E quando a dona do útero para o qual eu sempre penso em voltar não estava lá, eu era colocada dentro de um espaço ainda menor, escuro e úmido, com ratos e baratas e choro do lado de dentro e risos do lado de fora.
   E desde então eu não soube me sentir nem mesmo minimamente confortável em espaços abertos.
  É por isso que eu fico no meu quarto, sentindo o mesmo desconforto e desespero de quando me trancavam naquele porão que eu não consigo esquecer, e com o qual sempre sonho.
   Eu sempre vou ser aquela garota de 6 anos trancada dentro de um porão escuro. E eu fico contente que você, Junior, não seja mais aquele garoto de 5 anos trancado em um porão escuro, e que o Felipe não seja mais aquele garoto de 3 anos trancado dentro de um porão escuro. Mas não me venha falar sobre estabilidade emocional, porque você também tem suas caixas!