domingo, 9 de agosto de 2026

antes nada do que pouco

O pouco nunca me satisfez. Eu até tento engolir migalhas, aceito o que me dão por um tempo, mas logo meu ser começa a protestar de indignação. É a minha personalidade que não aceita metade de nada. Prefiro não ter nada, a ter pouco.
Eu não sirvo nem para ser cachorro, porque cachorro se contenta de forma servil com o que é oferecido, mesmo que seja pouco, mesmo que seja insuficiente e indigno.
Todo mundo sabe: eu me odeio tanto, que não dá para colocar em palavras. É quando eu  não consigo expressar o meu ódio, que eu agrido minha pele. Me odeio tanto, com uma paixão cega e histérica, mas ainda assim acho que mereço algo além do que insistem em me oferecer. E exijo isso, primeiro suavemente, e depois gritando, aos prantos, arrancando meus cabelos e ficando vermelha, a face cheia de lágrimas salgadas: meu choro ecoando pela casa e sendo ouvido pelos vizinhos...
Era de se esperar que eu sentisse vergonha, mas eu não sinto.
Minha única vergonha é a minha falta de vergonha.
Não quero mais conversar. Te disse uma, duas vezes. Eu digo isso, mas você sabe e eu sei que eu quero, meu deus, como eu quero! Me controlo para não despejar uma torrente de lágrimas e palavras sobre você, porque é tudo inútil. Não tem como convencer ninguém a me querer e muito menos me valorizar.
As pessoas dizem que eu devo me amar para poder ser amada, mas como eu vou me amar se ninguém me ama? Se nunca ninguém teve amor pra mim?
E por falar em amor, não, eu não te amo. Seria leviano dizer que te amo. Mas eu me acostumei a ter você todos os dias. A confidenciar desejos, a confessar segredos, a construir intimidade. A te ouvir, a dormir com a sua voz de sono me falando absurdos. Como vou dormir agora, sem ouvir sua voz suave? Como vou sair da cama sabendo que não vou receber seu bom dia e suas provocações logo cedo? E o que eu faço com todos os cenários que inventamos para o futuro? Outra pessoa nunca vai ser capaz de fazer aquelas coisas comigo.
A luz que você jogou sobre a minha vida se apagou repentinamente. Ficou tudo escuro de novo. O sorriso que se estampava permanentemente no meu rosto virou uma careta de angústia. É pela repetição das coisas.
Nós provavelmente nunca mais vamos nos falar. Nunca mais você vai me beijar com os seus lábios canibais. Não vamos cumprir nosso pacto de sangue. Você nunca mais vai lamber meu umbigo e me chamar de "minha gordinha". Nunca mais vou ser sua. Você não quis que eu fosse.
E eu...
... Por não conceber o pouco, nunca fiquei satisfeita na minha vida. Nunca mataram minha vontade de ser amada e nunca saciaram o desejo que por vezes me despertam. Eu deito e levanto de camas estranhas sem atingir o gozo, sem saciar as promessas, sem experimentar as mil e uma formas de amar alguém. De conhecer alguém.  De ser íntimo de alguém. É tudo um desperdício de querer, um desperdício do desejo que consome meu corpo e me leva ao limite da exasperação.
Poderíamos ter coisas incríveis. Mas no fim, você é só mais um que me faz escolher entre o pouco e o nada. Mais um que corta o meu barato, que goza na minha alma, mata meu tesão e parte, me deixando com um gosto amargo na boca. O amargo do vazio.

sábado, 30 de maio de 2026

cara pessoa magra,

 você já parou pra pensar no quão desrespeitoso é andar muito rápido e sempre bem a frente de seus amigos gordos *que não conseguem* acompanhar o seu ritmo? Se você anda rápido e a pessoa CONTIGO anda devagar, é sua obrigação desacelerar e se adequar ao ritmo DELA.

Toda pessoa gorda anda devagar? NÃO. Mas as que andam devem ser respeitadas!

... Eu vejo muitas pessoas gordas com medo de ser/fazer coisas que a sociedade associa ao corpo gordo de maneira condenatória. Pessoas gordas tentando se provar para a sociedade e negligenciando as necessidades e características do próprio corpo - se desgastando física e emocionalmente no processo.

Cara pessoa gorda,

você não precisa viver para validar estereótipos, mas também não precisa provar nada para ninguém!
Você não precisa provar que consegue andar rápido, muito, ou que consegue correr!
Você não precisa provar que consegue subir escadas sem pausas para descansar!
Não desrespeite os limites do seu corpo para provar algo para uma sociedade covarde e hipócrita.

Outras coisas que você não precisa provar:

- que come pouco
- que come coisas "saudáveis"
- que se exercita
Apenas viva sua vida de acordo com o que acredita e te satisfaz, e foda-se a percepção das pessoas sobre os seus hábitos!

Ser uma pessoa gorda não significa ser doente, assim como ser uma pessoa magra não significa ser saudável... Isso é fato! Mas se você *é* uma pessoa gorda doente, seja qual for a doença/condição, isso não anula o seu valor!

Você não precisa ser saudável para ser digno de respeito
você não precisa ser saudável para ser digno de amor
você não precisa ser saudável para ter seu valor reconhecido
você não precisa ser saudável para ter sua humanidade legitimada!

O seu *valor* não está atrelado ao seu estado de saúde. Pessoas *doentes* merecem respeito e tratamento social digno tanto quanto pessoas "saudáveis" (condição rara na nossa sociedade consumida pelas pressões capitalistas!)

Se você tem condições de manter hábitos "saudáveis", ótimo para você! Mas isso não te torna melhor ou mais humano do que ninguém!

Quando você, pessoa gorda, especialmente gorda menor, reforça a ideia de que é gorda "mas saudável" por se adequar às exigências sociais, você está dando munição para um sistema brutal que patologiza e marginaliza corpos considerados inúteis para a máquina capitalista. Dessa necessidade de pertencer, de se provar "útil" para uma sociedade exploradora, surge o discurso  "você não é gorda, é obesa", que leva a demonização do corpo gordo MAIOR - que se torna socialmente dispensável por não acompanhar o ritmo esperado pela sociedade. O ritmo que você ajuda a sustentar!

terça-feira, 26 de maio de 2026

a vida afetiva da pessoa gorda

Em tempos de egocentrismo e vazio existencial em massa, as pessoas confundem solidão e solitude. As palavras podem soar sinônimas, mas não poderiam despertar sentimentos mais distintos. Se, por um lado, solitude é gostar da própria companhia em momentos pontuais, a solidão é não poder ESCOLHER estar acompanhada. Solitude é paz, solidão é não pertencimento. Curtir nossa própria companhia é bom, é saudável, é gostoso, mas todo ser humano precisa da companhia de outros seres humanos para não enlouquecer.
Enquanto pessoa gorda pansexual, eu vivi minha vida em solidão. Por muito tempo recorri à internet para ter o mínimo acesso à companhia; e hoje, mesmo nas redes sociais, me vejo invisível ou vulnerável demais. Não sou vista como possibilidade de afeto, mas, ao mesmo tempo, sou objetificada por fetichistas e ridicularizada por pessoas que me dão match em aplicativos de relacionamento só para me xingar e zombar da minha cara. Eu sou uma gorda "fora do padrão gordo", tenho muita barriga, pouco peito, pouca bunda, tenho papada. Não tenho a passabilidade dos corpos curvilíneos e gordos menores. Falo do lugar de uma pessoa gorda maior, que é patologizada e rotulada, não como gorda, e sim como "obesa"; como se EU fosse uma doença. Com o avanço da idade, as pessoas me veem ainda menos atraente e eu fico cada dia mais desesperada por um afeto que nunca chega. Muitas vezes me deixei ser sexualmente usada só para sentir um toque, um pouco de calor humano, ter com quem conversar por alguns momentos.
Se para homens fetichistas ainda sou vista como possibilidade de sexo (se eu quiser me expor em troca de migalhas), para mulheres, de forma geral, eu não sou nem isso. Mulheres são mais gordofóbicas do que homens, pois foram cobradas a vida inteira para não ser gordas. O maior medo de muitas mulheres é ser gorda ou se tornarem gordas maiores, e isso se reflete nas relações entre mulheres. O corpo gordo não é visto como atrativo, pelo contrário, mulheres foram ensinadas que ele é repulsivo, sujo. 
Como elas sentiriam, então, desejo por corpos gordos? Como teriam vontade de abraçar, beijar, chupar e apalpar um corpo gordo? Das poucas relações que tive com mulheres magras, era esperado que eu fosse o sujeito provocando prazer, não quem poderia, também, receber prazer. Para mulheres magras que se relacionam com mulheres gordas, somos vistas como vibradores ambulantes. Raramente consigo matches com mulheres. Nem mulheres gordas me curtem nos aplicativos. Isso faz parte de uma gordofobia internalizada, naquela máxima do "de gorda já basta eu". Mal sabem elas que não há nada mais sublime e libertador do que corpos gordos amando-se entre si.
A falta de reciprocidade com mulheres é um padrão na minha vida. Me assumi bissexual aos 14 anos, mas por falta de oportunidade, só fui ficar com uma mulher aos 27. Nem em baladas LGBT mulheres olhavam para mim com interesse ou desejo. O meio LGBT é gordofóbico ao extremo, tanto por parte de mulheres lésbicas e bissexuais, quanto por parte de homens bissexuais e gays. Nas festinhas de amigos, as meninas magras e gordas menores socializavam e se pegavam, enquanto eu ficava num canto bebendo sozinha, sem saber o que fazer com o sentimento de rejeição multiplicada.
Não estou falando necessariamente sobre sexo. Sexo é fácil de conseguir, se eu estiver disposta a me rebaixar, a ser animalizada, objetificada e comida em sigilo. Estou falando sobre falta de acesso a AFETO e troca social. Mulheres padrão podem até passar por experiências ruins, mas as vivências delas diferem por completo das que estão fora dele. Cedo ou tarde, mulheres padrão encontram quem lhes ofereça afeto, dignidade e companheirismo. A perspectiva de mulheres gordas é a solidão.
Vida afetiva é mais do que sexo e companhia momentânea, é possibilidade de construção de algo maior. Mulheres gordas são privadas não só de afeto palpável (beijo, toque, intimidade, companheirismo), mas também de possibilidade de futuro: de construir uma família, ter alguém para compartilhar a vida e envelhecer junto.
Quando eu era adolescente, enquanto as meninas magras da minha idade viviam seus primeiros beijos, eram levadas para encontros, trocavam cartinhas de amor e presentinhos, eu era abordada por meninos E MENINAS que fingiam ter interesse em mim, para depois me ridicularizar por eu ter acreditado. Eu me convencia de que um dia chegaria a minha vez, mas os anos foram passando… Eu vi as meninas magras ao meu redor se apaixonando, se desapaixonando, se apaixonando novamente, se descobrindo, vivendo suas relações, viajando com seus pares, fazendo planos, casando, tendo filhos. Tudo isso, enquanto nem meu primeiro beijo eu tinha dado ainda. Vejo mulheres da minha idade celebrando suas relações de dez, quinze anos, enquanto continuo esperando quem pegue na minha mão e me assuma. E nada disso é vivência individual. Eu trabalho falando sobre gordofobia desde 2017, e já troquei vivências com inúmeras pessoas gordas cujas vivências são muito semelhantes às minhas. Mulheres acima dos 30 anos que nunca transaram, nunca beijaram na boca, que são assumidamente lésbicas ou bissexuais, mas nunca tiveram a oportunidade de ficar com mulheres, muito menos ser amadas por elas.
Eu tenho plena convicção de que apenas uma parcela muito pequena da comunidade gorda teve acesso a afeto, e, dentro disso, menos ainda são gordas maiores, gordas negras e/ou gordas com deficiência. Além disso, muitas pessoas gordas que tiveram vida afetiva desde novas, viveram relações extremamente abusivas, pelo medo de ficarem sozinhas, porque ouviam que isso aconteceria. Quando estamos com fome, aceitamos qualquer migalha.
Muitas pessoas gordas se resignam e emagrecem para ter acesso ao afeto, não só romântico, mas também de amizade. Amizades verdadeiras são raras na vida de uma pessoa gorda. Um cachorro recebe melhor tratamento social do que nós, pessoas gordas.
Eu abro as redes sociais e sou bombardeada por postagens de pessoas dizendo que "nunca se relacionariam com uma mulher gorda", vídeos de gente ridicularizando mulheres gordas que "ousaram" dar em cima delas, vídeos dissecando relações em que a mulher é gorda, especulando que casaram com ela pelo "green card", porque é famosa, pra manter as aparências de heterossexualidade. Para a sociedade, soa anormal e bizarro amar e assumir uma mulher gorda. É impensável para muitas pessoas nos amar. É normalizada a ideia de que pessoas gordas não merecem afeto, porque não “se esforçaram” para caber no padrão. Falam natural e abertamente sobre a aversão que sentem pelo corpo gordo. Falam o que não falariam publicamente sobre outras minorias. Na mesma medida, soltam comentários inúteis e superficiais dizendo "você precisa se amar", "aprenda a ser feliz sozinha". Eu consigo perfeitamente apreciar minha companhia. É isso que tenho feito. Consigo e sei rir sozinha, sair sozinha, fazer uma refeição sozinha, assistir a um filme sozinha, gozar sozinha, ter meus planos individuais... Mas e quando é SÓ isso? 24 horas disso, entrando semana e saindo semana, entrando mês e saindo mês, entrando ano e saindo ano?
Só fala em "aproveitar a SOLIDÃO" quem nunca foi realmente sozinha na vida. Meu amor não me basta, eu quero ser amada por alguém também. Esse discurso crescente de "autossuficiência" emocional-afetiva é opressor, pois no fim das contas, a SOLIDÃO como estado crônico é imposta apenas a determinados corpos. É muito fácil falar sobre a "necessidade" de saber encarar a SOLIDÃO (e não a solitude) como algo inerente ao ser, quando a dita solidão de quem propaga esse discurso, é temporária. Quando a pessoa está transitando entre relações — de qualquer tipo. Mas e quem passou a vida inteira em solidão? E quem morre em solidão, por ter vivido em um corpo marginalizado? A solidão não é bonita, nem poética. Muito menos inerente ao ser humano. Solidão em estado bruto é enlouquecedora. Eu nunca vou me conformar com a SOLIDÃO.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

5 minutos

 Hoje me juraram de morte. Foi assim: uma bruxa-vidente viu a minha morte em seus sonhos, e veio me pedir que eu faça exames e cuide da minha saúde, pois quando ela sonha, acontece. Que belo alimento para a ansiedade de uma hipocondríaca! Uma hipocondríaca que se diz ateia, mas tem contestado isso intimamente um pouquinho a cada dia. Uma hipocondríaca que está sempre às voltas com a vida e a morte, querendo viver em um instante, e buscando a mais cruel das mortes em outro.

Mas ontem, ah, ontem foi um bom dia. Que dia bonito, sem pensar em morte ou deuses ou doenças. Um dia doce, traçando beijos em uma constelação de pintas, em veias de braços, e num rosto que visto bem de pertinho é ainda mais bonito. Sentindo um abraço tão bem encaixado que parecia ter sido feito sob medida (calma aí com a emoção, Cíntia!).
E depois, o uber em 5 minutos.
Quantos beijos cabem em 5 minutos? - eu perguntei. Ele riu e nos beijamos.
Mas não era uma pergunta retórica.
Cheguei em casa sentindo a vibração de lábios nos meus lábios e dormi o sono dos justos, não sem antes perguntar, repetidamente, para mim mesma: "quantos beijos cabem em 5 minutos?". Eu precisava usar isso numa poesia, aqui está. Mas, bem, dormi, e foi o sono de quem teve o que desejava há muito tempo.
E aí acordei com a sentença e a minha mente já começou a maquinar: quanto tempo eu tenho? Será que eu tenho tempo suficiente? Será que eu vou conseguir chegar onde eu quero, para justamente nesse momento, morrer? Morrer e cair no esquecimento, como a Thamires, que morreu e ninguém ligou, e eu mesma só descobri 1 ano e meio depois.
Para controlar a minha ansiedade, peguei um livro. Ele não consegue me prender, não consegue me tirar dos meus próprios pensamentos. A história está meio confusa, meio maçante, meio blasé. E eu não tenho apego pelo blasé.
Enquanto tento me concentrar no livro, atormentada pelos meus pensamentos, chega até mim o perfume de ontem, ele vem da minha camiseta da Janis Joplin que repousa ao meu lado. Perdendo as palavras da narrativa, sinto o cheiro que prova que aconteceu, e que eu quero sempre mais, mais e mais. Talvez eu não consiga lavar essa camiseta por algum tempo, vou deixá-la com o aroma de ontem, a mistura de kaiak, pele, desejo e sexo. Talvez minha seguidora-bruxa-vidente esteja certa e eu morra antes de ter tempo de lavá-la, ou antes de repetir o ontem.
Estava perdida em pensamentos, quando ouvi o tique-taque. Pousei o livro aberto para baixo. Fazia muito tempo que eu não ouvia o som tormentoso de um relógio. Há muito me desfiz de tais objetos que só servem para me afrontar. Mas agora ouvia, bem nítido, tique-taque, tique-taque, bem baixinho, tique-taque, mas perto. Quanto tempo eu tenho? Vai dar tempo? Meu deus! (pera lá, é só uma expressão, não uma anulação do ateísmo).
Avistei o relógio azul que ganhei dos meus irmãos. Ali estava, com seus ponteiros impiedosos, ligeiros, , fazendo meu coração perder o compasso, angustiando a minha alma. Findando as coisas.
Quantos beijos cabem em 5 minutos? Um longo beijo até ficar sem ar? 5 beijos de um minuto cada, cronometrado? Muitos e muitos beijinhos pelos lábios e pelo rosto todo? Um no ombro pra fechar?
... Em 5 minutos não cabe o suficiente de nada que valha alguma coisa. Vou de Cazuza: "você tem exatamente três mil horas pra parar de me beijar". Depois dobramos a meta.

Que a vidente esteja errada, que a vida tenha renovado meu contrato no dia 3, que ele me beije de novo e de novo e de novo.
Amém (uso fluido)