sábado, 13 de maio de 2017

panorama

Minha vida está fora de controle. E o meu quarto, um espelho da minha confusão interna, está decadente: garrafas vazias de vodka tombadas no chão, livros abertos fora da estante, sapatos sem par espalhados aqui e ali, lixo fora da lixeira — que transbordou três semanas atrás —, cheiro de cigarro velho e suor acumulado e sangue coagulado e comida podre em pratos quase intocados; roupa suja no meio da roupa limpa, emboladas em cima da minha cama.
Quando eu vou dormir coloco o bolo de roupas na cadeira. Quando acordo eu jogo tudo na cama de novo  (e quando foi a última vez que troquei esse lençol?!). As que caem no chão, ficam. Isso quando não estou bêbada demais e durmo, desconfortável, sobre as roupas já amarrotadas.
Tem uma lâmina na minha janela. Eu ia jogá-la pela janela, mas não queria que o cachorro se cortasse nela. Não o suporto, é bem verdade, mas evito ao máximo confusões. A invisibilidade me cai bem.
Minha estante, ah!, minha estante, a menina dos meus olhos... Meus livros estão empoeirados e com teias de aranhas. Eu olho para ela todos os dias, quando acordo ainda bêbada e enjoada, crescentemente angustiada, e digo: Cíntia, dá um jeito nisso! Cíntia, faz alguma coisa! Cíntia, que vergonha!
É uma vergonha.
Quando eu piso no meu chão descalça, sinto a sujeira grudar na sola dos meus pés. E eu não gosto de chinelos. Meus cabelos caem loucamente e ficam espalhados por todos os móveis, sobre todos os livros, sobre todas as roupas, e voam pela janela. Ele cai aos tufos. Quando eu passo a mão no fruto da minha vaidade lembro que estou ficando careca. É o estresse, é a vergonha. É a genética.
Faz alguma coisa, Cíntia! — meus amigos dizem também.
Você é tão inteligente, Cíntia. Inteligente demais para se restringir ao universo do seu quarto, Cíntia! Se você começar a tatuar eu te dou as tintas, Cíntia! o Sillas oferta. Se você se inscrever no ENEM eu pago sua inscrição, Cíntia! a Giuliane exige. Se você quiser eu limpo o seu quarto, Cíntia! minha mãe propõe. Só você pode se ajudar, Cíntia! todos dizem em coro, repetidamente, por horas e horas a fio, sem pausa nem para retomar o fôlego. Eu desisto, Cíntia, faça o que você quiser. É a sua vida, Cíntia. Deus deu uma para cada um cuidar da sua, Cíntia. Você fica nessa porque quer, Cíntia! Cíntia!!!!! Acorda, Cíntia!
Meus amigos querem vir me visitar, estão preocupados. Mas eu não deixo. Meu quarto está uma bagunça. Tenho vergonha. É a bagunça de dentro que transbordou — quantas semanas atrás?...




quinta-feira, 4 de maio de 2017

Apático

Para você eu dei tudo. 
Tudo que eu sabia ser, 
Tudo que eu aprendi a ser, 
Tudo que eu sempre quis ser 
E pensei que nunca seria. 
Entreguei meu corpo 
E minha mente nas suas mãos: 
E nós só transamos uma vez.
Agora eu fico com as 
Promessas vazias,
Velhos hábitos,
Novas marcas,
Inventivos métodos de auto-tortura 
... E um silêncio sem fim que 
Martela na minha cabeça;
Que faz descompassar o meu coração...
Eu fico com o gosto do cigarro na boca. 
Com o cheiro do vômito
Após uma bebedeira para 
Calar o meu corpo que inquieta 
Ao pensar em você. 
Fico com a mancha do sangue, 
Do meu sangue, que verte sem cessar 
Pela ferida aberta 
Porque você é o único. 
Fico com lembranças
— Que serão borradas pelo tempo.

Eu não fiz nada para merecer tanta apatia!

terça-feira, 18 de abril de 2017

estou bem

Psiquiatra: Você está com uma cara ótima.
Eu (por dentro): só se for a cara mesmo! Aprendi a disfarçar.
Psiquiatra: você está bem?
Eu: não. Esses dias foram difíceis.
Psiquiatra: Por que?
Eu: Muita ansiedade, muita angústia. Tenho bebido.
Psiquiatra: você não estava bebendo antes, né?
Eu: não.
Psiquiatra: tem se cortado?
Eu: sim.
Psiquiatra: onde?
Eu: Coxas e barriga.
Psiquiatra: e o que é isso nos seus braços?
Eu: queimaduras de cigarro. Comecei a fumar.
Psiquiatra (rindo): Nossa, sério? Por que?
Eu: Porque ando muito ansiosa, angustiada.
Psiquiatra: Mas tudo bem, fumar não é tão ruim assim...
Eu: eu tenho asma!
Psiquiatra: Eita, Cíntia!
Eu: tenho pensado muito em suicídio.
Psiquiatra: É? Todos os dias?
Eu: Sim
Psiquiatra: e como é isso?
Eu: eu fico pensando em formas 100% garantidas de morrer, procurando métodos.
Psiquiatra: Por exemplo?
Eu: São coisas meio hardcore... enfiar uma faca no coração! Li sobre pessoas que fizeram isso... (...)
Psiquiatra: Onde você consegue leitura sobre esse tipo de coisa?
Eu: No google. Pesquiso em inglês. Li sobre um cara que deu 5 facadas no próprio peito.
Psiquiatra: Imagina que terrível...
Eu: imagina o desespero que isso requer... Meu único medo é falhar e ficar pior do que agora.
Psiquiatra: É o que geralmente acontece. Mas você não vai se matar, não é?
Eu: talvez não com facadas no peito, mas no final sim!
Psiquiatra: Por que?
Eu: Porque não existe futuro pra mim!
Psiquiatra: Por que diz isso?
Eu: se eu não morrer vou acabar uma moradora de rua!
Psiquiatra: Não vai. Você tem família, apoio da equipe do posto. O que está ruim?
Eu: TUDO.
Psiquiatra: essa resposta é muito fácil.
Eu: É tudo. minha vida profissional, amorosa e com família e amigos, é tudo uma bosta!
Psiquiatra: e você pensa em matar alguém?
Eu: sim... muita gente.
Psiquiatra (rindo): quem você mataria?
Eu: é sério... não é engraçado.
Psiquiatra: eu sei, por isso...
Eu: ... Queria matar todos que me ofendem.
Psiquiatra: e isso acontece sempre?
Eu: Sim.
Psiquiatra: como te ofendem?
Eu: não valorizando meus sentimentos! Mataria meu ex-psiquiatra, e depois me mataria! (...)
Psiquiatra: bom, Cíntia, é ótimo te ver tão bem! Até a próxima consulta!