Em tempos de egocentrismo e vazio existencial em massa, as pessoas confundem solidão e solitude. As palavras podem soar sinônimas, mas não poderiam despertar sentimentos mais distintos. Se, por um lado, solitude é gostar da própria companhia em momentos pontuais, a solidão é não poder ESCOLHER estar acompanhada. Solitude é paz, solidão é não pertencimento. Curtir nossa própria companhia é bom, é saudável, é gostoso, mas todo ser humano precisa da companhia de outros seres humanos para não enlouquecer.
Enquanto pessoa gorda pansexual, eu vivi minha vida em solidão. Por muito tempo recorri à internet para ter o mínimo acesso à companhia; e hoje, mesmo nas redes sociais, me vejo invisível ou vulnerável demais. Não sou vista como possibilidade de afeto, mas, ao mesmo tempo, sou objetificada por fetichistas e ridicularizada por pessoas que me dão match em aplicativos de relacionamento só para me xingar e zombar da minha cara. Eu sou uma gorda "fora do padrão gordo", tenho muita barriga, pouco peito, pouca bunda, tenho papada. Não tenho a passabilidade dos corpos curvilíneos e gordos menores. Falo do lugar de uma pessoa gorda maior, que é patologizada e rotulada, não como gorda, e sim como "obesa"; como se EU fosse uma doença. Com o avanço da idade, as pessoas me veem ainda menos atraente e eu fico cada dia mais desesperada por um afeto que nunca chega. Muitas vezes me deixei ser sexualmente usada só para sentir um toque, um pouco de calor humano, ter com quem conversar por alguns momentos.
Se para homens fetichistas ainda sou vista como possibilidade de sexo (se eu quiser me expor em troca de migalhas), para mulheres, de forma geral, eu não sou nem isso. Mulheres são mais gordofóbicas do que homens, pois foram cobradas a vida inteira para não ser gordas. O maior medo de muitas mulheres é ser gorda ou se tornarem gordas maiores, e isso se reflete nas relações entre mulheres. O corpo gordo não é visto como atrativo, pelo contrário, mulheres foram ensinadas que ele é repulsivo, sujo.
Enquanto pessoa gorda pansexual, eu vivi minha vida em solidão. Por muito tempo recorri à internet para ter o mínimo acesso à companhia; e hoje, mesmo nas redes sociais, me vejo invisível ou vulnerável demais. Não sou vista como possibilidade de afeto, mas, ao mesmo tempo, sou objetificada por fetichistas e ridicularizada por pessoas que me dão match em aplicativos de relacionamento só para me xingar e zombar da minha cara. Eu sou uma gorda "fora do padrão gordo", tenho muita barriga, pouco peito, pouca bunda, tenho papada. Não tenho a passabilidade dos corpos curvilíneos e gordos menores. Falo do lugar de uma pessoa gorda maior, que é patologizada e rotulada, não como gorda, e sim como "obesa"; como se EU fosse uma doença. Com o avanço da idade, as pessoas me veem ainda menos atraente e eu fico cada dia mais desesperada por um afeto que nunca chega. Muitas vezes me deixei ser sexualmente usada só para sentir um toque, um pouco de calor humano, ter com quem conversar por alguns momentos.
Se para homens fetichistas ainda sou vista como possibilidade de sexo (se eu quiser me expor em troca de migalhas), para mulheres, de forma geral, eu não sou nem isso. Mulheres são mais gordofóbicas do que homens, pois foram cobradas a vida inteira para não ser gordas. O maior medo de muitas mulheres é ser gorda ou se tornarem gordas maiores, e isso se reflete nas relações entre mulheres. O corpo gordo não é visto como atrativo, pelo contrário, mulheres foram ensinadas que ele é repulsivo, sujo.
Como elas sentiriam, então, desejo por corpos gordos? Como teriam vontade de abraçar, beijar, chupar e apalpar um corpo gordo? Das poucas relações que tive com mulheres magras, era esperado que eu fosse o sujeito provocando prazer, não quem poderia, também, receber prazer. Para mulheres magras que se relacionam com mulheres gordas, somos vistas como vibradores ambulantes. Raramente consigo matches com mulheres. Nem mulheres gordas me curtem nos aplicativos. Isso faz parte de uma gordofobia internalizada, naquela máxima do "de gorda já basta eu". Mal sabem elas que não há nada mais sublime e libertador do que corpos gordos amando-se entre si.
A falta de reciprocidade com mulheres é um padrão na minha vida. Me assumi bissexual aos 14 anos, mas por falta de oportunidade, só fui ficar com uma mulher aos 27. Nem em baladas LGBT mulheres olhavam para mim com interesse ou desejo. O meio LGBT é gordofóbico ao extremo, tanto por parte de mulheres lésbicas e bissexuais, quanto por parte de homens bissexuais e gays. Nas festinhas de amigos, as meninas magras e gordas menores socializavam e se pegavam, enquanto eu ficava num canto bebendo sozinha, sem saber o que fazer com o sentimento de rejeição multiplicada.
Não estou falando necessariamente sobre sexo. Sexo é fácil de conseguir, se eu estiver disposta a me rebaixar, a ser animalizada, objetificada e comida em sigilo. Estou falando sobre falta de acesso a AFETO e troca social. Mulheres padrão podem até passar por experiências ruins, mas as vivências delas diferem por completo das que estão fora dele. Cedo ou tarde, mulheres padrão encontram quem lhes ofereça afeto, dignidade e companheirismo. A perspectiva de mulheres gordas é a solidão.
Vida afetiva é mais do que sexo e companhia momentânea, é possibilidade de construção de algo maior. Mulheres gordas são privadas não só de afeto palpável (beijo, toque, intimidade, companheirismo), mas também de possibilidade de futuro: de construir uma família, ter alguém para compartilhar a vida e envelhecer junto.
Não estou falando necessariamente sobre sexo. Sexo é fácil de conseguir, se eu estiver disposta a me rebaixar, a ser animalizada, objetificada e comida em sigilo. Estou falando sobre falta de acesso a AFETO e troca social. Mulheres padrão podem até passar por experiências ruins, mas as vivências delas diferem por completo das que estão fora dele. Cedo ou tarde, mulheres padrão encontram quem lhes ofereça afeto, dignidade e companheirismo. A perspectiva de mulheres gordas é a solidão.
Vida afetiva é mais do que sexo e companhia momentânea, é possibilidade de construção de algo maior. Mulheres gordas são privadas não só de afeto palpável (beijo, toque, intimidade, companheirismo), mas também de possibilidade de futuro: de construir uma família, ter alguém para compartilhar a vida e envelhecer junto.
Quando eu era adolescente, enquanto as meninas magras da minha idade viviam seus primeiros beijos, eram levadas para encontros, trocavam cartinhas de amor e presentinhos, eu era abordada por meninos E MENINAS que fingiam ter interesse em mim, para depois me ridicularizar por eu ter acreditado. Eu me convencia de que um dia chegaria a minha vez, mas os anos foram passando… Eu vi as meninas magras ao meu redor se apaixonando, se desapaixonando, se apaixonando novamente, se descobrindo, vivendo suas relações, viajando com seus pares, fazendo planos, casando, tendo filhos. Tudo isso, enquanto nem meu primeiro beijo eu tinha dado ainda. Vejo mulheres da minha idade celebrando suas relações de dez, quinze anos, enquanto continuo esperando quem pegue na minha mão e me assuma. E nada disso é vivência individual. Eu trabalho falando sobre gordofobia desde 2017, e já troquei vivências com inúmeras pessoas gordas cujas vivências são muito semelhantes às minhas. Mulheres acima dos 30 anos que nunca transaram, nunca beijaram na boca, que são assumidamente lésbicas ou bissexuais, mas nunca tiveram a oportunidade de ficar com mulheres, muito menos ser amadas por elas.
Eu tenho plena convicção de que apenas uma parcela muito pequena da comunidade gorda teve acesso a afeto, e, dentro disso, menos ainda são gordas maiores, gordas negras e/ou gordas com deficiência. Além disso, muitas pessoas gordas que tiveram vida afetiva desde novas, viveram relações extremamente abusivas, pelo medo de ficarem sozinhas, porque ouviam que isso aconteceria. Quando estamos com fome, aceitamos qualquer migalha.
Muitas pessoas gordas se resignam e emagrecem para ter acesso ao afeto, não só romântico, mas também de amizade. Amizades verdadeiras são raras na vida de uma pessoa gorda. Um cachorro recebe melhor tratamento social do que nós, pessoas gordas.
Muitas pessoas gordas se resignam e emagrecem para ter acesso ao afeto, não só romântico, mas também de amizade. Amizades verdadeiras são raras na vida de uma pessoa gorda. Um cachorro recebe melhor tratamento social do que nós, pessoas gordas.
Eu abro as redes sociais e sou bombardeada por postagens de pessoas dizendo que "nunca se relacionariam com uma mulher gorda", vídeos de gente ridicularizando mulheres gordas que "ousaram" dar em cima delas, vídeos dissecando relações em que a mulher é gorda, especulando que casaram com ela pelo "green card", porque é famosa, pra manter as aparências de heterossexualidade. Para a sociedade, soa anormal e bizarro amar e assumir uma mulher gorda. É impensável para muitas pessoas nos amar. É normalizada a ideia de que pessoas gordas não merecem afeto, porque não “se esforçaram” para caber no padrão. Falam natural e abertamente sobre a aversão que sentem pelo corpo gordo. Falam o que não falariam publicamente sobre outras minorias. Na mesma medida, soltam comentários inúteis e superficiais dizendo "você precisa se amar", "aprenda a ser feliz sozinha". Eu consigo perfeitamente apreciar minha companhia. É isso que tenho feito. Consigo e sei rir sozinha, sair sozinha, fazer uma refeição sozinha, assistir a um filme sozinha, gozar sozinha, ter meus planos individuais... Mas e quando é SÓ isso? 24 horas disso, entrando semana e saindo semana, entrando mês e saindo mês, entrando ano e saindo ano?
Só fala em "aproveitar a SOLIDÃO" quem nunca foi realmente sozinha na vida. Meu amor não me basta, eu quero ser amada por alguém também. Esse discurso crescente de "autossuficiência" emocional-afetiva é opressor, pois no fim das contas, a SOLIDÃO como estado crônico é imposta apenas a determinados corpos. É muito fácil falar sobre a "necessidade" de saber encarar a SOLIDÃO (e não a solitude) como algo inerente ao ser, quando a dita solidão de quem propaga esse discurso, é temporária. Quando a pessoa está transitando entre relações — de qualquer tipo. Mas e quem passou a vida inteira em solidão? E quem morre em solidão, por ter vivido em um corpo marginalizado? A solidão não é bonita, nem poética. Muito menos inerente ao ser humano. Solidão em estado bruto é enlouquecedora. Eu nunca vou me conformar com a SOLIDÃO.
Só fala em "aproveitar a SOLIDÃO" quem nunca foi realmente sozinha na vida. Meu amor não me basta, eu quero ser amada por alguém também. Esse discurso crescente de "autossuficiência" emocional-afetiva é opressor, pois no fim das contas, a SOLIDÃO como estado crônico é imposta apenas a determinados corpos. É muito fácil falar sobre a "necessidade" de saber encarar a SOLIDÃO (e não a solitude) como algo inerente ao ser, quando a dita solidão de quem propaga esse discurso, é temporária. Quando a pessoa está transitando entre relações — de qualquer tipo. Mas e quem passou a vida inteira em solidão? E quem morre em solidão, por ter vivido em um corpo marginalizado? A solidão não é bonita, nem poética. Muito menos inerente ao ser humano. Solidão em estado bruto é enlouquecedora. Eu nunca vou me conformar com a SOLIDÃO.

