terça-feira, 26 de maio de 2026

a vida afetiva da pessoa gorda

Em tempos de egocentrismo e vazio existencial em massa, as pessoas confundem solidão e solitude. As palavras podem soar sinônimas, mas não poderiam despertar sentimentos mais distintos. Se, por um lado, solitude é gostar da própria companhia em momentos pontuais, a solidão é não poder ESCOLHER estar acompanhada. Solitude é paz, solidão é não pertencimento. Curtir nossa própria companhia é bom, é saudável, é gostoso, mas todo ser humano precisa da companhia de outros seres humanos para não enlouquecer.
Enquanto pessoa gorda pansexual, eu vivi minha vida em solidão. Por muito tempo recorri à internet para ter o mínimo acesso à companhia; e hoje, mesmo nas redes sociais, me vejo invisível ou vulnerável demais. Não sou vista como possibilidade de afeto, mas, ao mesmo tempo, sou objetificada por fetichistas e ridicularizada por pessoas que me dão match em aplicativos de relacionamento só para me xingar e zombar da minha cara. Eu sou uma gorda "fora do padrão gordo", tenho muita barriga, pouco peito, pouca bunda, tenho papada. Não tenho a passabilidade dos corpos curvilíneos e gordos menores. Falo do lugar de uma pessoa gorda maior, que é patologizada e rotulada, não como gorda, e sim como "obesa"; como se EU fosse uma doença. Com o avanço da idade, as pessoas me veem ainda menos atraente e eu fico cada dia mais desesperada por um afeto que nunca chega. Muitas vezes me deixei ser sexualmente usada só para sentir um toque, um pouco de calor humano, ter com quem conversar por alguns momentos.
Se para homens fetichistas ainda sou vista como possibilidade de sexo (se eu quiser me expor em troca de migalhas), para mulheres, de forma geral, eu não sou nem isso. Mulheres são mais gordofóbicas do que homens, pois foram cobradas a vida inteira para não ser gordas. O maior medo de muitas mulheres é ser gorda ou se tornarem gordas maiores, e isso se reflete nas relações entre mulheres. O corpo gordo não é visto como atrativo, pelo contrário, mulheres foram ensinadas que ele é repulsivo, sujo. 
Como elas sentiriam, então, desejo por corpos gordos? Como teriam vontade de abraçar, beijar, chupar e apalpar um corpo gordo? Das poucas relações que tive com mulheres magras, era esperado que eu fosse o sujeito provocando prazer, não quem poderia, também, receber prazer. Para mulheres magras que se relacionam com mulheres gordas, somos vistas como vibradores ambulantes. Raramente consigo matches com mulheres. Nem mulheres gordas me curtem nos aplicativos. Isso faz parte de uma gordofobia internalizada, naquela máxima do "de gorda já basta eu". Mal sabem elas que não há nada mais sublime e libertador do que corpos gordos amando-se entre si.
A falta de reciprocidade com mulheres é um padrão na minha vida. Me assumi bissexual aos 14 anos, mas por falta de oportunidade, só fui ficar com uma mulher aos 27. Nem em baladas LGBT mulheres olhavam para mim com interesse ou desejo. O meio LGBT é gordofóbico ao extremo, tanto por parte de mulheres lésbicas e bissexuais, quanto por parte de homens bissexuais e gays. Nas festinhas de amigos, as meninas magras e gordas menores socializavam e se pegavam, enquanto eu ficava num canto bebendo sozinha, sem saber o que fazer com o sentimento de rejeição multiplicada.
Não estou falando necessariamente sobre sexo. Sexo é fácil de conseguir, se eu estiver disposta a me rebaixar, a ser animalizada, objetificada e comida em sigilo. Estou falando sobre falta de acesso a AFETO e troca social. Mulheres padrão podem até passar por experiências ruins, mas as vivências delas diferem por completo das que estão fora dele. Cedo ou tarde, mulheres padrão encontram quem lhes ofereça afeto, dignidade e companheirismo. A perspectiva de mulheres gordas é a solidão.
Vida afetiva é mais do que sexo e companhia momentânea, é possibilidade de construção de algo maior. Mulheres gordas são privadas não só de afeto palpável (beijo, toque, intimidade, companheirismo), mas também de possibilidade de futuro: de construir uma família, ter alguém para compartilhar a vida e envelhecer junto.
Quando eu era adolescente, enquanto as meninas magras da minha idade viviam seus primeiros beijos, eram levadas para encontros, trocavam cartinhas de amor e presentinhos, eu era abordada por meninos E MENINAS que fingiam ter interesse em mim, para depois me ridicularizar por eu ter acreditado. Eu me convencia de que um dia chegaria a minha vez, mas os anos foram passando… Eu vi as meninas magras ao meu redor se apaixonando, se desapaixonando, se apaixonando novamente, se descobrindo, vivendo suas relações, viajando com seus pares, fazendo planos, casando, tendo filhos. Tudo isso, enquanto nem meu primeiro beijo eu tinha dado ainda. Vejo mulheres da minha idade celebrando suas relações de dez, quinze anos, enquanto continuo esperando quem pegue na minha mão e me assuma. E nada disso é vivência individual. Eu trabalho falando sobre gordofobia desde 2017, e já troquei vivências com inúmeras pessoas gordas cujas vivências são muito semelhantes às minhas. Mulheres acima dos 30 anos que nunca transaram, nunca beijaram na boca, que são assumidamente lésbicas ou bissexuais, mas nunca tiveram a oportunidade de ficar com mulheres, muito menos ser amadas por elas.
Eu tenho plena convicção de que apenas uma parcela muito pequena da comunidade gorda teve acesso a afeto, e, dentro disso, menos ainda são gordas maiores, gordas negras e/ou gordas com deficiência. Além disso, muitas pessoas gordas que tiveram vida afetiva desde novas, viveram relações extremamente abusivas, pelo medo de ficarem sozinhas, porque ouviam que isso aconteceria. Quando estamos com fome, aceitamos qualquer migalha.
Muitas pessoas gordas se resignam e emagrecem para ter acesso ao afeto, não só romântico, mas também de amizade. Amizades verdadeiras são raras na vida de uma pessoa gorda. Um cachorro recebe melhor tratamento social do que nós, pessoas gordas.
Eu abro as redes sociais e sou bombardeada por postagens de pessoas dizendo que "nunca se relacionariam com uma mulher gorda", vídeos de gente ridicularizando mulheres gordas que "ousaram" dar em cima delas, vídeos dissecando relações em que a mulher é gorda, especulando que casaram com ela pelo "green card", porque é famosa, pra manter as aparências de heterossexualidade. Para a sociedade, soa anormal e bizarro amar e assumir uma mulher gorda. É impensável para muitas pessoas nos amar. É normalizada a ideia de que pessoas gordas não merecem afeto, porque não “se esforçaram” para caber no padrão. Falam natural e abertamente sobre a aversão que sentem pelo corpo gordo. Falam o que não falariam publicamente sobre outras minorias. Na mesma medida, soltam comentários inúteis e superficiais dizendo "você precisa se amar", "aprenda a ser feliz sozinha". Eu consigo perfeitamente apreciar minha companhia. É isso que tenho feito. Consigo e sei rir sozinha, sair sozinha, fazer uma refeição sozinha, assistir a um filme sozinha, gozar sozinha, ter meus planos individuais... Mas e quando é SÓ isso? 24 horas disso, entrando semana e saindo semana, entrando mês e saindo mês, entrando ano e saindo ano?
Só fala em "aproveitar a SOLIDÃO" quem nunca foi realmente sozinha na vida. Meu amor não me basta, eu quero ser amada por alguém também. Esse discurso crescente de "autossuficiência" emocional-afetiva é opressor, pois no fim das contas, a SOLIDÃO como estado crônico é imposta apenas a determinados corpos. É muito fácil falar sobre a "necessidade" de saber encarar a SOLIDÃO (e não a solitude) como algo inerente ao ser, quando a dita solidão de quem propaga esse discurso, é temporária. Quando a pessoa está transitando entre relações — de qualquer tipo. Mas e quem passou a vida inteira em solidão? E quem morre em solidão, por ter vivido em um corpo marginalizado? A solidão não é bonita, nem poética. Muito menos inerente ao ser humano. Solidão em estado bruto é enlouquecedora. Eu nunca vou me conformar com a SOLIDÃO.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

5 minutos

 Hoje me juraram de morte. Foi assim: uma bruxa-vidente viu a minha morte em seus sonhos, e veio me pedir que eu faça exames e cuide da minha saúde, pois quando ela sonha, acontece. Que belo alimento para a ansiedade de uma hipocondríaca! Uma hipocondríaca que se diz ateia, mas tem contestado isso intimamente um pouquinho a cada dia. Uma hipocondríaca que está sempre às voltas com a vida e a morte, querendo viver em um instante, e buscando a mais cruel das mortes em outro.

Mas ontem, ah, ontem foi um bom dia. Que dia bonito, sem pensar em morte ou deuses ou doenças. Um dia doce, traçando beijos em uma constelação de pintas, em veias de braços, e num rosto que visto bem de pertinho é ainda mais bonito. Sentindo um abraço tão bem encaixado que parecia ter sido feito sob medida (calma aí com a emoção, Cíntia!).
E depois, o uber em 5 minutos.
Quantos beijos cabem em 5 minutos? - eu perguntei. Ele riu e nos beijamos.
Mas não era uma pergunta retórica.
Cheguei em casa sentindo a vibração de lábios nos meus lábios e dormi o sono dos justos, não sem antes perguntar, repetidamente, para mim mesma: "quantos beijos cabem em 5 minutos?". Eu precisava usar isso numa poesia, aqui está. Mas, bem, dormi, e foi o sono de quem teve o que desejava há muito tempo.
E aí acordei com a sentença e a minha mente já começou a maquinar: quanto tempo eu tenho? Será que eu tenho tempo suficiente? Será que eu vou conseguir chegar onde eu quero, para justamente nesse momento, morrer? Morrer e cair no esquecimento, como a Thamires, que morreu e ninguém ligou, e eu mesma só descobri 1 ano e meio depois.
Para controlar a minha ansiedade, peguei um livro. Ele não consegue me prender, não consegue me tirar dos meus próprios pensamentos. A história está meio confusa, meio maçante, meio blasé. E eu não tenho apego pelo blasé.
Enquanto tento me concentrar no livro, atormentada pelos meus pensamentos, chega até mim o perfume de ontem, ele vem da minha camiseta da Janis Joplin que repousa ao meu lado. Perdendo as palavras da narrativa, sinto o cheiro que prova que aconteceu, e que eu quero sempre mais, mais e mais. Talvez eu não consiga lavar essa camiseta por algum tempo, vou deixá-la com o aroma de ontem, a mistura de kaiak, pele, desejo e sexo. Talvez minha seguidora-bruxa-vidente esteja certa e eu morra antes de ter tempo de lavá-la, ou antes de repetir o ontem.
Estava perdida em pensamentos, quando ouvi o tique-taque. Pousei o livro aberto para baixo. Fazia muito tempo que eu não ouvia o som tormentoso de um relógio. Há muito me desfiz de tais objetos que só servem para me afrontar. Mas agora ouvia, bem nítido, tique-taque, tique-taque, bem baixinho, tique-taque, mas perto. Quanto tempo eu tenho? Vai dar tempo? Meu deus! (pera lá, é só uma expressão, não uma anulação do ateísmo).
Avistei o relógio azul que ganhei dos meus irmãos. Ali estava, com seus ponteiros impiedosos, ligeiros, , fazendo meu coração perder o compasso, angustiando a minha alma. Findando as coisas.
Quantos beijos cabem em 5 minutos? Um longo beijo até ficar sem ar? 5 beijos de um minuto cada, cronometrado? Muitos e muitos beijinhos pelos lábios e pelo rosto todo? Um no ombro pra fechar?
... Em 5 minutos não cabe o suficiente de nada que valha alguma coisa. Vou de Cazuza: "você tem exatamente três mil horas pra parar de me beijar". Depois dobramos a meta.

Que a vidente esteja errada, que a vida tenha renovado meu contrato no dia 3, que ele me beije de novo e de novo e de novo.
Amém (uso fluido)

quarta-feira, 29 de maio de 2024

maio de 2014

Aviso de gatilho: dependência química 

Esse mês eu completei 10 anos sem cocaína. Nunca pensei que isso seria possível. Dá até medo de dizer isso, de "comemorar" isso, e um dia ter que admitir que voltei à estaca zero. É o meu lado ansioso falando, mas eu nunca descarto essa possibilidade, porque mesmo depois de 10 anos sem, continua sendo muito difícil resistir a tentação. Eu ainda sonho com cocaína, e acordo com a sensação de que usei. Acordo querendo mais. Ainda sinto o cheiro dela, feito um cão farejador, nos pontos de São Paulo onde eu comprava. Ainda sinto vontade de me entregar a ela nos meus piores dias. E não só a ela, mas às outras drogas que usava na época, e que em conjunto, me davam o amortecimento que eu precisava para viver, mas que ao mesmo tempo me destruíam. Eu sentia ela agindo no meu corpo, me matando aos poucos, me fazendo vomitar sangue, mas eu não conseguia e nem queria parar aquilo. Sim, eu não queria. Eu queria a decadência e a dor que ela me trazia. Eu não sei porque sou assim, não sei porque vejo beleza na decadência, mas sempre vi e ainda vejo. A decadência me atrai como uma lâmpada atrai mariposas. Não ser tão decadente é uma escolha diária, desde que em um dia de maio de 2014, assim do nada, eu disse "chega". E me mantenho "limpa", apesar das amarguras da vida. Apesar da atração pela decadência. Apesar da necessidade, que não é só psicológica, mas também física. 
Nem eu entendo de fato o que me fez parar e resistir todos esses anos, porque tenho poucos motivos palpáveis para ficar sóbria. Talvez seja o fato de que com o tempo, ela foi fazendo menos e menos efeito "positivo" e passou a me proporcionar apenas os desprazeres. Ou talvez seja porque eu não gostava de mim quando usava cocaína. Eu me tornei uma pessoa irresponsável e mentirosa. Eu vivia uma vida dupla, tripla, sempre tinha que cobrir meus rastros, inventar mentiras que nem importavam de verdade, mas que dentro da minha paranóia crescente, eram necessárias. 
Os danos que a cocaína causou na minha vida continuam firmes e fortes depois de mais de 10 anos. Acredito piamente que muitos dos meus problemas de saúde física e mental atuais se devem ao período de uso de cocaína, álcool (que consumiu ainda mais a minha vida do que a cocaína) e outras drogas. Mas o pior pra mim são os danos morais. Eu tive que fazer coisas humilhantes para manter esse vício. Muitas coisas eu não gosto nem de relembrar e que provavelmente nunca vou contar para ninguém.
Esses dias meu irmão descobriu uma mentira que contei para ele lá atrás, para encobrir o uso de drogas, e ficou com tanta raiva de mim, que seu rosto ficou vermelho. Eu vi o olhar de decepção e até repulsa dele e me senti péssima. Me senti como se tivesse cometido tal falta ontem. Constantemente tenho que me desculpar por coisas que fiz mais de 10 anos atrás.
A raiva dele foi como ser punida por algo que não fui eu que fiz, porque de muitas formas, eu não sou mais a Cíntia que mentiu pra ele. Eu sou uma pessoa completamente diferente da Cíntia de 21 anos. De 24 anos. Mas isso não apaga o erro...
Depois desse episódio com ele, fiquei pensando em quão pouco minha família me conhece, inclusive meus irmãos, que eu amo e considero próximos. Eu tive que mentir tanto, esconder tanto, que me tornei uma desconhecida para quem estava mais perto de mim. Acho que quem me lê aqui, conhece mais de mim e do meu passado do que quem viveu o passado comigo.
Hoje tenho a Júlia na minha vida e penso muito nela, em quem eu vou ser pra ela, no exemplo que eu vou dar, e isso me impede de me entregar aos meus pensamentos mais decadentes e autodestrutivos (porque eu sempre fiz mais mal pra mim do que pros outros, mas às vezes o mal respinga).
Ela tem sido meu freio. Porém, nem sempre é o suficiente ser a tia que precisa dar exemplo. Muitas vezes eu só quero me entregar aos meus impulsos e necessidades destrutivas.
Mas é como dizia Renato Russo (e o NA): "só por hoje eu não vou me destruir"... E por 10 anos, tenho me preservado "por hoje", somando vários hojes. Estou o mais sóbria que já estive na vida. Parei de beber há bem menos tempo do que parei de cheirar, mas há um tempo significativo. Ando me sentindo até meio zen. Apesar dos pesares, parece que encontrei um pouco de paz. Só por hoje...

sexta-feira, 5 de abril de 2024

do zero

O surto veio, fui de Britney. Foi uma decisão bem difícil, que eu já considerava há algum tempo, mas contive minha impulsividade, em partes por medo. Eu já raspei a cabeça quando mais jovem, a primeira vez em um ato de desespero muito maior do que o atual. Na época, fazer isso me trouxe muito alívio, mas também muitas inseguranças e julgamentos. Aos vinte e um anos, eu ligava muito mais para o que pensavam sobre mim do que hoje. Eu não achava meu rosto bonito, não achava nada em mim bonito, e sem os cabelos estava despida. Me sentia livre por ter me livrado dos cabelos, mas me sentia feia, e como apontavam de forma pejorativa, "mascunilizada". É verdade que amadureci muito desde aquela época e aprendi a ver beleza em mim mesma. Construí minha feminilidade, independente de orientação de gênero. Aprendi mais sobre mim. Não tenho mais que dar satisfações para ninguém. Mas são várias as questões que me atravessaram e me fizeram ter medo de perder meus cabelos... de ficar careca, exposta, de ser menos atraente para as pessoas.e
De 2014 pra cá, meus cabelos cacheados e volumosos se tornaram o pilar da minha autoestima e uma das minhas características mais marcantes. Mas até isso a depressão me tirou. Eu atingi níveis tão altos de estresse, que meus cabelos, ora volumosos, viraram fiapos patéticos. Eu me apeguei por mais de 2 anos aos cabelos que restaram, vendo com pavor eles caindo aos tufos a cada vez que eu penteava ou sequer passava as mãos. Chorei de desespero muitas vezes, me senti feia, novamente vi minha autoestima destruída. E quando as pessoas comentavam, me sentia impotente. Tentei de tudo para preservar eles, mas muitas vezes quis raspar de uma vez e começar do zero. Minha psicóloga me perguntava se essa era uma decisão que eu conseguiria bancar nesse momento, e  eu não sabia dizer. Na verdade, achei que não, então me controlei ao máximo e de forma surpreendente. Devo admitir que meu maior medo era que isso afetasse ainda mais minha vida sexual e afetiva. Que numa sociedade machista, minha cabeça raspada seja um repelente.
Mas tem uma pessoa em especial que eu pensei muito, com temor: "será que ele vai me achar feia?". Ele gostava dos meus cabelos, sempre dizia. Bem, não importa. Não adiantava eu continuar me apegando a fiapos de cabelos, assim como não adianta eu ficar me apegando a um amor que não se concretizou. Meus cabelos não fizeram ele ficar, e provavelmente não seriam motivo para ele voltar algum dia. Depois de uma semana em uma crise que me fez sentir como se tivesse dado muitos passos para trás, eu levantei da cama e decidi. Mais ou menos. Foram horas de espera até o salão abrir. Num minuto eu dizia: "eu vou", no outro dizia: "melhor não". Fiquei olhando do meu portão e quando o salão abriu fui lá e pedi para raspar. Ele lançou o típico "tem certeza?" E eu disse, sem hesitar: sim. Foi muito mais tranquilo do que eu pensava, tanto na tratativa do cara, quanto no meu psicológico. Não senti tristeza e nem desespero. Não senti alívio também. Não me senti, a princípio, nem feia e nem bonita. Não me senti "masculinizada".  Quando voltei pra casa, comecei a me olhar no espelho, olhei toda vez que passei na frente dele e parei para me admirar.  Me olhei de uma forma que não me olhava há tempos... E me vi. Vi minha essência. Eu não sou meus cabelos. Não sou um objeto para agradar ninguém. Me senti linda pela primeira vez em muito tempo. Me senti potente, feminina. Como uma tigresa... É assim que tenho me visto nos últimos dias. E aí me senti livre. Senti tesão. Me senti fresca, limpa. Manter cabelos tendo depressão, e principalmente em dias quentes, não é um trabalho fácil. Nos últimos dias, sem os cabelos, tenho feito skin care, tenho sentido vontade de me maquiar, de me enfeitar, até meu jeito de andar voltou a ser como antes... 
Meu objetivo era raspar para ver se os cabelos cresciam novamente mais fortes, mas acho que vou manter a cabeça raspada por algum tempo. Talvez as pessoas me julguem, talvez eu não fique com ninguém por muito tempo, talvez não me vejam como atraente. Mas nesse momento, isso faz sentido pra mim. Só isso importa.