terça-feira, 18 de agosto de 2026

sete anos

 "Boyzinho",

Eu prometi para mim mesma que não te escreveria ou escreveria sobre você novamente, e isso aniquilou minha escrita, mas vinha conseguindo. Hoje, porém, faz 7 anos desde que começamos a conversar. Mas foi antes disso, não lembro quando, que eu te vi pela primeira vez, no Instagram. Você apareceu no meu feed, eu entrei no seu perfil e enquanto rolava sua página, senti a coisa mais peculiar. Eu te olhei e um pensamento me invadiu: "eu vou namorar esse cara". Me senti tão absurda. Anos depois, quando te contei isso, você disse que quando me viu pela primeira vez, pensou: "eu vou comer essa mina". É aí que começa o dilema.
Demorou um tempo até que conversássemos de verdade pela primeira vez, em 18 de agosto de 2019. Ficamos conversando madrugada adentro, e era mais um jogo de sedução, mas eu achei que éramos compatíveis. Foi com tristeza que eu descobri que você namorava, e foi com esperança que eu soube que você tinha um relacionamento aberto e poderia se relacionar com outras pessoas.

Até a página 2...

"Boyzinho" é como eu te chamava publicamente, e hoje me provoca tanta vergonha pensar nisso. É patético. Sinto vergonha ao pensar em todas as declarações que eu te fiz publicamente, sem poder sequer dizer seu nome. Sem poder postar uma foto, por mais inocente que ela fosse. Eu nunca pude conhecer sua mãe ou ser apresentada aos seus amigos.

...
GABRIEL,

Eu lembro da primeira vez que nos vimos pessoalmente. Eu estava apaixonada. Me apaixonei por você muito fácil, antes mesmo de te ver ao vivo. Eu chorei por você antes do nosso primeiro beijo. Mas no dia que marcamos de nos ver, eu pensei: "e se eu o achar feio pessoalmente?". Nunca te contei isso. Eu sempre fico com medo de achar as pessoas feias no primeiro encontro e ter que beijá-las mesmo assim. Mas quando eu te vi, te achei mais lindo ainda do que nas fotos. Eu estava perdida...
Era setembro, feriado, e você me levou a uma cafeteria bonitinha; eu pedi um lanche natural, mas não conseguia comer de tão nervosa. Nos sentamos frente a frente e eu te olhava enquanto você falava, seu braço perto do meu, mas ainda sem me tocar. Quando você pegou minha mão, meus dedos estavam sujos de farelo de pão, e eu afastei minha mão para limpá-la e devolvê-la para você, mas agora o momento tinha passado. Eu fiquei com o braço repousado sobre a mesa, esperando que você me tocasse novamente. Olhava pra sua mão, pro meu braço, e dizia por dentro: "me toque". Esbarrei o meu braço no seu. Eu só queria que você pegasse na minha mão.
... Depois, enquanto andávamos pela rua, conversando, eu mal ouvia o que você dizia, esperava apenas que você pegasse na minha mão, como havia dito que faria. E você nada.
Foi na esquina do Theatro Municipal o nosso primeiro beijo. O sinal fechou na hora que eu já me preparava para atravessar, e você me puxou pela mão, de encontro ao seu corpo, e se inclinou para me beijar. Eu nunca contei isso para ninguém, e não sei se você se lembra, mas você veio para me dar um selinho e eu fui para te beijar de língua, então o nosso primeiro beijo foi estranho por um segundo, até sua língua entrar em ação e a gente sincronizar. Fazia um dia lindo, o céu estava azul, com nuvens muito brancas, e o sol assistia nosso beijo, mas não foi ele quem fez arder minha pele.
Quando o beijo terminou e nos afastamos, nos pusemos a andar, e eu peguei na sua mão, e assim fomos caminhando. 
Você me levou ao Pop Plus e quando chegamos, diante de um espelho, eu vi nossa imagem refletida - nós de mãos dadas -, e me senti uma rainha do baile de formatura. Nós ficávamos tão bem juntos, nossos corpos gordos eram imponentes. Eu estava com uma saia de princesa azul.
Depois fomos para a Avenida Paulista e caminhamos por horas, parando para descansar às vezes. Estávamos tomando um sorvete quando eu pus um pouco dele na minha boca e te beijei, fazendo o sorvete derreter da minha boca para a sua. 
Ficamos ali nos beijando, e às vezes você me pegava pelo queixo, afastava meu rosto como se estivesse analisando uma pintura, e dizia: "vadia!".
Entre as minhas pernas o fogo queimava.
Você sentado, eu fiquei na sua frente e te beijei com urgência, apertando meu corpo no seu, espalhando o gliter do meu peito para o seu rosto. Gostava de olhar pra baixo e ver seu olhar inocente me mirando.
Depois você me levou para a estação da Sé, e em um canto continuamos a nos beijar, a esfregar nossos corpos um contra o outro, e num ímpeto eu te mostrei o meu seio. Você colocou as mãos no rosto, exasperado de tesão. Eu queria que você me possuísse ali mesmo. Mas nesse dia o tesão ferveu sem que pudéssemos fazer alguma coisa a respeito.

Eu lembro do momento em que pensei pela primeira vez: "eu te amo". Estávamos entrando em uma loja e um homem perguntou se você poderia comprar um pacote de bolacha para a filha dele, e você respondeu, de forma imediata e bem-humorada: "sim!", e naquele momento eu soube que te amava. Mas não confidenciei isso a você.
No dia 5 de outubro de 2019, finalmente teríamos nossa primeira noite juntos. Eu atravessei a cidade usando uma saia vermelha, sem calcinha por baixo, e quando falei isso no seu ouvido, você não se impressionou  e disse que gostava mais de lingerie. Já você, chegou sem a barba que eu tanto amava e isso me fez desanimar por um momento. Era a primeira das muitas vezes que você desfazia algo que eu gostava em você, quase como se fosse para me colocar no meu lugar.
Antes de ficarmos juntos, eu tinha uma cena de BDSM no Dominatrix. Passamos horas nos beijando no meio dos sádicos e dos masoquistas, e você disse, baixinho no meu ouvido: "um dia eu vou te fazer chorar". Sádico!
Você me assistiu apanhar por meia hora e mais tarde, no motel, para cada chicotada que eu levei, você me deu um beijo nas costas. Encheu meu corpo de beijos, arrepiando minha pele, e eu pensei que não existia nada melhor do que aquilo. Como eu havia vivido 29 anos sem seus lábios na minha pele? Quando a sua boca encontrou a minha, eu senti o sabor da caipirinha na sua língua quente. Eu semi-cerrava os meus olhos e via seu rosto cheio de desejo.
Fomos tomar banho, e quando estávamos os dois debaixo do box, a água veio súbita e muito fria, me fazendo dar gritinhos e soltar uma gargalhada, enquanto prensava seu corpo contra a parede. Uma vez que equilibramos a temperatura da água, nos beijamos molhado, e você deslizava suas mãos pelo meu corpo todo. Me prendia num abraço.
Eu ainda lembro de quando você me colocou deitada na cama, barriga pra cima, e se enfiou entre as minhas pernas. Você não me penetrou de uma vez, antes roçou a cabeça do seu pau no meu grelo molhadinho de tanto tesão. Eu implorava para você me penetrar, estava ficando louca com o vai e vem no meu clitóris, e quando eu consegui me mexer a ponto do seu pau ficar na entrada da minha vagina, você disse, tirando: "tsc! tsc! tsc! você está sendo uma menina muito má. É só uma pincelada". E quando você enfim decidiu que era hora, enfiou seu pau em mim e meu gemido preencheu o silêncio do quarto.
Quando você gozou, se sentou numa poltrona ao lado da cama e ficou navegando pela internet, enquanto eu permaneci deitada, encarando o espelho de teto e me sentindo ressentida e sozinha por você ter se afastado. Olhava minha próprias curvas, meu corpo, e tirava fotos, quando você perguntou "você não está online?" e eu disse que não. Não queria ficar online. Mesmo assim, ativei a internet e veio a notificação com o seu nome. Você dizia: "Te amo!". Eu olhei para você e sorri e pedi para voce voltar para a cama. Era a primeira vez que a palavra com A era dita entre nós. Quando você deitou, eu puxei seu rosto, te fiz olhar pra mim e disse: "você me ama mesmo? Diz olhando nos meus olhos", e automaticamente eu fechei meus olhos. Você disse "então abre os olhos" e rimos. "É verdade isso que você disse?", perguntei. "Que eu te amo? Te amo é pouco".
Eu estava em êxtase quando nos despedimos naquela manhã. Jamais esperaria o que veio depois: você me bloquear no whatsapp. Eu entendi logo que você tinha feito aquilo para que eu não mandasse mensagem quando você estivesse na casa da sua namorada, mas você tentou mentir dizendo que seu celular tinha dado problema. O Thiago, entretanto, tinha me dito que você estava online no período em que você disse que estava sem celular. Você tinha ficado online nos dias que me deixou bloqueada. Você não sabia nem mentir direito. Aí veio a verdade: você e sua namorada tinham o poder de "vetar" um ao outro de ficar com alguém. Quando eu te perdoei, foi quando eu virei o seu segredo.
Um dia te perguntei "e se você morrer enquanto está comigo?" e você, muito cínico, disse: "vocês duas que se resolvam, não vai ser mais problema meu".
Sim, vivemos bons momentos. Mas para cada bom momento que você me dava, eu derramava milhares de lágrimas por ser a outra, por todas as coisas que eu queria e você não iria me dar. Eu tinha que amar em segredo, usar códigos para falar com você, tinha que fingir que não te conhecia tanto quanto eu te conhecia... tinha que abrir mão das minhas necessidades e conviccções para estar contigo. E quando joguei na sua cara que você havia me dito, no começo, que "podia se relacionar com outras pessoas", você me disse, sem vergonha alguma, que poder é diferente de estar disposto.
Mas tudo valia a pena quando estávamos juntos e você tocava nos meus cabelos, me abraçava e dizia: "eu te amo".
Lembro uma vez em que estávamos nos estranhando e você perguntou se eu queria ir à Galeria Olido e eu te disse: "com você eu vou até o inferno". Fomos, nos sentamos nos assentos apertados demais para os nossos corpos, e eu não via espetáculo nenhum, porque tudo que me importava era seu braço em torno de mim, seus dedos acariciando meus cabelos volumosos. O tempo desacelerava naqueles momentos, mas eu nunca tive tempo para ter você da forma que eu queria.
Tantas vezes nós brigamos e depois voltamos, que eu pensei que nunca iríamos ficar longe de verdade. Sempre achei que teríamos novas chances, apesar do meu instinto me dizer, da última vez, que aquela era nossa última chance. Eu te disse isso também.
Era verdade o que eu te disse. Por você eu iria até pro inferno. E de fato eu fui lançada nele no dia que você me disse que por mais que eu te espere, você nunca vai chegar para mim. As coisas já estiveram muito piores. Nos dois primeiros anos eu chorei mais do que pensei que um ser humano seria capaz de chorar. Eu ia dormir chorando e acordava chorando. Me privei de estar com outras pessoas por 3 anos. Me fechei mais no meu mundo. Hoje não choro tanto, os remédios me anestesiaram, e já me permito conhecer novas pessoas, mas ainda assim, todos os dias sem você são um inferno. Faz 4 anos e meio que nós não nos vemos. O meu amor não diminuiu. Eu ainda penso em você, sonho com você, te vejo em outros corpos, busco por você em outras pessoas, e lembro de todos os momentos bons, mesmo tentando não focar neles. Eu ainda queria ser sua. Eu ainda queria que você fosse o pai do meu filho. Eu sempre vou lembrar que seu amor por mim não era tão grande quanto o seu amor por ela. Que era ela que você chamava de "minha menina".
Mas mesmo seu amor sendo insuficiente e tóxico, mesmo que seu amor não tenha me dado nada de concreto, mesmo todo mundo dizendo que você nunca me amou de verdade, ninguém nunca me amou como você, e isso é um fato. Ninguém nunca falou comigo como você, ninguém nunca me tocou como você. O meu amor por você é tudo que dizem que o amor não deve ser. Ele é desesperado, ele deseja o mal, ele quer possuir, eu renuncio aos meus desejos por amor. Eu te dei os melhores anos da minha vida, e agora não tem mais nada possível para mim. Eu te detesto por isso. E eu te amo por não ser capaz de deixar de amá-lo. Pode passar 7, 14 ou 21 anos, é você. Do momento que eu te conheci até o momento da minha morte, vai ser você. Com todo o meu ressentimento, eu te amo.

Eu te amo.



domingo, 9 de agosto de 2026

antes nada do que pouco

O pouco nunca me satisfez. Eu até tento engolir migalhas, aceito o que me dão por um tempo, mas logo meu ser começa a protestar de indignação. É a minha personalidade que não aceita metade de nada. Prefiro não ter nada, a ter pouco.
Eu não sirvo nem para ser cachorro, porque cachorro se contenta de forma servil com o que é oferecido, mesmo que seja pouco, mesmo que seja insuficiente e indigno.
Todo mundo sabe: eu me odeio tanto, que não dá para colocar em palavras. É quando eu  não consigo expressar o meu ódio, que eu agrido minha pele. Me odeio tanto, com uma paixão cega e histérica, mas ainda assim acho que mereço algo além do que insistem em me oferecer. E exijo isso, primeiro suavemente, e depois gritando, aos prantos, arrancando meus cabelos e ficando vermelha, a face cheia de lágrimas salgadas: meu choro ecoando pela casa e sendo ouvido pelos vizinhos...
Era de se esperar que eu sentisse vergonha, mas eu não sinto.
Minha única vergonha é a minha falta de vergonha.
Não quero mais conversar. Te disse uma, duas vezes. Eu digo isso, mas você sabe e eu sei que eu quero, meu deus, como eu quero! Me controlo para não despejar uma torrente de lágrimas e palavras sobre você, porque é tudo inútil. Não tem como convencer ninguém a me querer e muito menos me valorizar.
As pessoas dizem que eu devo me amar para poder ser amada, mas como eu vou me amar se ninguém me ama? Se nunca ninguém teve amor pra mim?
E por falar em amor, não, eu não te amo. Seria leviano dizer que te amo. Mas eu me acostumei a ter você todos os dias. A confidenciar desejos, a confessar segredos, a construir intimidade. A te ouvir, a dormir com a sua voz de sono me falando absurdos. Como vou dormir agora, sem ouvir sua voz suave? Como vou sair da cama sabendo que não vou receber seu bom dia e suas provocações logo cedo? E o que eu faço com todos os cenários que inventamos para o futuro? Outra pessoa nunca vai ser capaz de fazer aquelas coisas comigo.
A luz que você jogou sobre a minha vida se apagou repentinamente. Ficou tudo escuro de novo. O sorriso que se estampava permanentemente no meu rosto virou uma careta de angústia. É pela repetição das coisas.
Nós provavelmente nunca mais vamos nos falar. Nunca mais você vai me beijar com os seus lábios canibais. Não vamos cumprir nosso pacto de sangue. Você nunca mais vai lamber meu umbigo e me chamar de "minha gordinha". Nunca mais vou ser sua. Você não quis que eu fosse.
E eu...
... Por não conceber o pouco, nunca fiquei satisfeita na minha vida. Nunca mataram minha vontade de ser amada e nunca saciaram o desejo que por vezes me despertam. Eu deito e levanto de camas estranhas sem atingir o gozo, sem saciar as promessas, sem experimentar as mil e uma formas de amar alguém. De conhecer alguém.  De ser íntimo de alguém. É tudo um desperdício de querer, um desperdício do desejo que consome meu corpo e me leva ao limite da exasperação.
Poderíamos ter coisas incríveis. Mas no fim, você é só mais um que me faz escolher entre o pouco e o nada. Mais um que corta o meu barato, que goza na minha alma, mata meu tesão e parte, me deixando com um gosto amargo na boca. O amargo do vazio.

sábado, 30 de maio de 2026

cara pessoa magra,

 você já parou pra pensar no quão desrespeitoso é andar muito rápido e sempre bem a frente de seus amigos gordos *que não conseguem* acompanhar o seu ritmo? Se você anda rápido e a pessoa CONTIGO anda devagar, é sua obrigação desacelerar e se adequar ao ritmo DELA.

Toda pessoa gorda anda devagar? NÃO. Mas as que andam devem ser respeitadas!

... Eu vejo muitas pessoas gordas com medo de ser/fazer coisas que a sociedade associa ao corpo gordo de maneira condenatória. Pessoas gordas tentando se provar para a sociedade e negligenciando as necessidades e características do próprio corpo - se desgastando física e emocionalmente no processo.

Cara pessoa gorda,

você não precisa viver para validar estereótipos, mas também não precisa provar nada para ninguém!
Você não precisa provar que consegue andar rápido, muito, ou que consegue correr!
Você não precisa provar que consegue subir escadas sem pausas para descansar!
Não desrespeite os limites do seu corpo para provar algo para uma sociedade covarde e hipócrita.

Outras coisas que você não precisa provar:

- que come pouco
- que come coisas "saudáveis"
- que se exercita
Apenas viva sua vida de acordo com o que acredita e te satisfaz, e foda-se a percepção das pessoas sobre os seus hábitos!

Ser uma pessoa gorda não significa ser doente, assim como ser uma pessoa magra não significa ser saudável... Isso é fato! Mas se você *é* uma pessoa gorda doente, seja qual for a doença/condição, isso não anula o seu valor!

Você não precisa ser saudável para ser digno de respeito
você não precisa ser saudável para ser digno de amor
você não precisa ser saudável para ter seu valor reconhecido
você não precisa ser saudável para ter sua humanidade legitimada!

O seu *valor* não está atrelado ao seu estado de saúde. Pessoas *doentes* merecem respeito e tratamento social digno tanto quanto pessoas "saudáveis" (condição rara na nossa sociedade consumida pelas pressões capitalistas!)

Se você tem condições de manter hábitos "saudáveis", ótimo para você! Mas isso não te torna melhor ou mais humano do que ninguém!

Quando você, pessoa gorda, especialmente gorda menor, reforça a ideia de que é gorda "mas saudável" por se adequar às exigências sociais, você está dando munição para um sistema brutal que patologiza e marginaliza corpos considerados inúteis para a máquina capitalista. Dessa necessidade de pertencer, de se provar "útil" para uma sociedade exploradora, surge o discurso  "você não é gorda, é obesa", que leva a demonização do corpo gordo MAIOR - que se torna socialmente dispensável por não acompanhar o ritmo esperado pela sociedade. O ritmo que você ajuda a sustentar!

terça-feira, 26 de maio de 2026

a vida afetiva da pessoa gorda

Em tempos de egocentrismo e vazio existencial em massa, as pessoas confundem solidão e solitude. As palavras podem soar sinônimas, mas não poderiam despertar sentimentos mais distintos. Se, por um lado, solitude é gostar da própria companhia em momentos pontuais, a solidão é não poder ESCOLHER estar acompanhada. Solitude é paz, solidão é não pertencimento. Curtir nossa própria companhia é bom, é saudável, é gostoso, mas todo ser humano precisa da companhia de outros seres humanos para não enlouquecer.
Enquanto pessoa gorda pansexual, eu vivi minha vida em solidão. Por muito tempo recorri à internet para ter o mínimo acesso à companhia; e hoje, mesmo nas redes sociais, me vejo invisível ou vulnerável demais. Não sou vista como possibilidade de afeto, mas, ao mesmo tempo, sou objetificada por fetichistas e ridicularizada por pessoas que me dão match em aplicativos de relacionamento só para me xingar e zombar da minha cara. Eu sou uma gorda "fora do padrão gordo", tenho muita barriga, pouco peito, pouca bunda, tenho papada. Não tenho a passabilidade dos corpos curvilíneos e gordos menores. Falo do lugar de uma pessoa gorda maior, que é patologizada e rotulada, não como gorda, e sim como "obesa"; como se EU fosse uma doença. Com o avanço da idade, as pessoas me veem ainda menos atraente e eu fico cada dia mais desesperada por um afeto que nunca chega. Muitas vezes me deixei ser sexualmente usada só para sentir um toque, um pouco de calor humano, ter com quem conversar por alguns momentos.
Se para homens fetichistas ainda sou vista como possibilidade de sexo (se eu quiser me expor em troca de migalhas), para mulheres, de forma geral, eu não sou nem isso. Mulheres são mais gordofóbicas do que homens, pois foram cobradas a vida inteira para não ser gordas. O maior medo de muitas mulheres é ser gorda ou se tornarem gordas maiores, e isso se reflete nas relações entre mulheres. O corpo gordo não é visto como atrativo, pelo contrário, mulheres foram ensinadas que ele é repulsivo, sujo. 
Como elas sentiriam, então, desejo por corpos gordos? Como teriam vontade de abraçar, beijar, chupar e apalpar um corpo gordo? Das poucas relações que tive com mulheres magras, era esperado que eu fosse o sujeito provocando prazer, não quem poderia, também, receber prazer. Para mulheres magras que se relacionam com mulheres gordas, somos vistas como vibradores ambulantes. Raramente consigo matches com mulheres. Nem mulheres gordas me curtem nos aplicativos. Isso faz parte de uma gordofobia internalizada, naquela máxima do "de gorda já basta eu". Mal sabem elas que não há nada mais sublime e libertador do que corpos gordos amando-se entre si.
A falta de reciprocidade com mulheres é um padrão na minha vida. Me assumi bissexual aos 14 anos, mas por falta de oportunidade, só fui ficar com uma mulher aos 27. Nem em baladas LGBT mulheres olhavam para mim com interesse ou desejo. O meio LGBT é gordofóbico ao extremo, tanto por parte de mulheres lésbicas e bissexuais, quanto por parte de homens bissexuais e gays. Nas festinhas de amigos, as meninas magras e gordas menores socializavam e se pegavam, enquanto eu ficava num canto bebendo sozinha, sem saber o que fazer com o sentimento de rejeição multiplicada.
Não estou falando necessariamente sobre sexo. Sexo é fácil de conseguir, se eu estiver disposta a me rebaixar, a ser animalizada, objetificada e comida em sigilo. Estou falando sobre falta de acesso a AFETO e troca social. Mulheres padrão podem até passar por experiências ruins, mas as vivências delas diferem por completo das que estão fora dele. Cedo ou tarde, mulheres padrão encontram quem lhes ofereça afeto, dignidade e companheirismo. A perspectiva de mulheres gordas é a solidão.
Vida afetiva é mais do que sexo e companhia momentânea, é possibilidade de construção de algo maior. Mulheres gordas são privadas não só de afeto palpável (beijo, toque, intimidade, companheirismo), mas também de possibilidade de futuro: de construir uma família, ter alguém para compartilhar a vida e envelhecer junto.
Quando eu era adolescente, enquanto as meninas magras da minha idade viviam seus primeiros beijos, eram levadas para encontros, trocavam cartinhas de amor e presentinhos, eu era abordada por meninos E MENINAS que fingiam ter interesse em mim, para depois me ridicularizar por eu ter acreditado. Eu me convencia de que um dia chegaria a minha vez, mas os anos foram passando… Eu vi as meninas magras ao meu redor se apaixonando, se desapaixonando, se apaixonando novamente, se descobrindo, vivendo suas relações, viajando com seus pares, fazendo planos, casando, tendo filhos. Tudo isso, enquanto nem meu primeiro beijo eu tinha dado ainda. Vejo mulheres da minha idade celebrando suas relações de dez, quinze anos, enquanto continuo esperando quem pegue na minha mão e me assuma. E nada disso é vivência individual. Eu trabalho falando sobre gordofobia desde 2017, e já troquei vivências com inúmeras pessoas gordas cujas vivências são muito semelhantes às minhas. Mulheres acima dos 30 anos que nunca transaram, nunca beijaram na boca, que são assumidamente lésbicas ou bissexuais, mas nunca tiveram a oportunidade de ficar com mulheres, muito menos ser amadas por elas.
Eu tenho plena convicção de que apenas uma parcela muito pequena da comunidade gorda teve acesso a afeto, e, dentro disso, menos ainda são gordas maiores, gordas negras e/ou gordas com deficiência. Além disso, muitas pessoas gordas que tiveram vida afetiva desde novas, viveram relações extremamente abusivas, pelo medo de ficarem sozinhas, porque ouviam que isso aconteceria. Quando estamos com fome, aceitamos qualquer migalha.
Muitas pessoas gordas se resignam e emagrecem para ter acesso ao afeto, não só romântico, mas também de amizade. Amizades verdadeiras são raras na vida de uma pessoa gorda. Um cachorro recebe melhor tratamento social do que nós, pessoas gordas.
Eu abro as redes sociais e sou bombardeada por postagens de pessoas dizendo que "nunca se relacionariam com uma mulher gorda", vídeos de gente ridicularizando mulheres gordas que "ousaram" dar em cima delas, vídeos dissecando relações em que a mulher é gorda, especulando que casaram com ela pelo "green card", porque é famosa, pra manter as aparências de heterossexualidade. Para a sociedade, soa anormal e bizarro amar e assumir uma mulher gorda. É impensável para muitas pessoas nos amar. É normalizada a ideia de que pessoas gordas não merecem afeto, porque não “se esforçaram” para caber no padrão. Falam natural e abertamente sobre a aversão que sentem pelo corpo gordo. Falam o que não falariam publicamente sobre outras minorias. Na mesma medida, soltam comentários inúteis e superficiais dizendo "você precisa se amar", "aprenda a ser feliz sozinha". Eu consigo perfeitamente apreciar minha companhia. É isso que tenho feito. Consigo e sei rir sozinha, sair sozinha, fazer uma refeição sozinha, assistir a um filme sozinha, gozar sozinha, ter meus planos individuais... Mas e quando é SÓ isso? 24 horas disso, entrando semana e saindo semana, entrando mês e saindo mês, entrando ano e saindo ano?
Só fala em "aproveitar a SOLIDÃO" quem nunca foi realmente sozinha na vida. Meu amor não me basta, eu quero ser amada por alguém também. Esse discurso crescente de "autossuficiência" emocional-afetiva é opressor, pois no fim das contas, a SOLIDÃO como estado crônico é imposta apenas a determinados corpos. É muito fácil falar sobre a "necessidade" de saber encarar a SOLIDÃO (e não a solitude) como algo inerente ao ser, quando a dita solidão de quem propaga esse discurso, é temporária. Quando a pessoa está transitando entre relações — de qualquer tipo. Mas e quem passou a vida inteira em solidão? E quem morre em solidão, por ter vivido em um corpo marginalizado? A solidão não é bonita, nem poética. Muito menos inerente ao ser humano. Solidão em estado bruto é enlouquecedora. Eu nunca vou me conformar com a SOLIDÃO.