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segunda-feira, 28 de outubro de 2019

ruan, bukowski e cigarros

   Eu esbarrei num poema do Bukowski. Esbarrei no meu maço de cigarros. Esbarrei em você. É sempre assim, lembra?
   "Cíntia, chega de falar de Ruan, Bukowski e Cigarros! Porra!"
   Esbarrei numa garrafa de cachaça, ouvindo a playlist que fiz com músicas que contam nossa história, ou ao menos, a minha versão da nossa história.
   O poema do velho falava sobre partidas e chegadas e partidas. 
   Confesso que olho seu perfil de vez em quando, mas não há nada o que ver, ele está trancado. Você é tão misterioso, ui.
   Eu havia deletado todas suas fotos e todas nossas conversas do meu celular, apaguei seu e-mail dos meus contatos, mesmo sabendo-o de cor, e pensei que estava livre, sem acesso a você, assim eu poderia fingir que nós nunca acontecemos, que eu nunca te amei; aí meu celular quebrou, e eu voltei a utilizar um aparelho antigo. Abrindo a galeria do mesmo: fotos suas. Prints nossos, de momentos mais doces. Dei de cara com o poema que você me escreveu, que me deixou de pernas bambas. Eu tive que me apoiar numa mesa quando li suas palavras naquele dia, Ruan. Depois fiquei com a calcinha molhada no metrô, roçando minhas coxas disfarçadamente, mordiscando meus lábios para tentar represar todas aquelas sensações; o misto de tesão, preocupação e ternura.
   Foi como uma porrada no estômago ver fotos da sua barriga, das suas pintas, dos seus pés calçando coturnos, dos seus pêlos, mas principalmente, do seu pau. Esse pau aí, sobre o qual você se sentia inseguro, e eu endeusei tanto, que você ficou confiante o suficiente para mostrar para outras mulheres, para usar em outras mulheres. Eu até poderia viver com isso, mas o fato de você ter parado de usá-lo para o meu prazer realmente foi demais para mim.
   Te odeio! Todo dia acordo e tento me convencer de que te odeio. Mas não, eu ainda amo seu olhar de tormenta e o tom da sua pele. Ainda amo suas mãos e seus dedos, e seus dedos segurando cigarros e sua boca, e sua boca soltando fumaça de forma ensaiada, te fazendo parecer um bad boy de um filme adolescente qualquer, e não o big shot da sua série de motociclistas favorita.
   Eu te disse adeus, você me disse adeus, eu voltei. Voltei duas vezes, três... voltei tantas vezes, que perdi as contas! Acho que você também perdeu as contas de quantas vezes disse que nunca mais me aceitaria de volta, e aceitou. Perdemos as contas de quantas vezes agimos feito personagens de um romance decadente, apegados a um amor canalha, ou mero desejo destrutivo. Mas da última vez que te disse adeus, você não retribuiu. Você pensou que eu voltaria. Bem, Ruan, eu não voltei. Meu adeus foi sincero, Ruan. E você não retribuiu ao meu adeus, Ruan! Pro inferno, você e seu maldito pau! Esse pau, que para dificultar mais as coisas, tem veias saltadas e uma pinta, bem do jeito que eu gosto.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

assombrada

— Você deveria me valorizar mais.
— Talvez. Talvez eu já te valorize demais. Não sei. Só sei que nunca vai ser o suficiente.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

garantia

No começo da minha adolescência eu entrava em muitas brigas na escola. Todos os dias eu saía na mão com alguém para me defender das humilhações que sofria. Nunca batia em alguém só por bater, eu simplesmente exigia respeito com os meus punhos.
Mas tinha um detalhe: eu só batia em meninos. Nunca fui capaz de bater em uma mulher na minha vida.
Tinha uma garota em especial que eu não suportava. Tudo nela me irritava profundamente, me fazia sentir inferior, e ela provavelmente sentia meu complexo de inferioridade, pois frequentemente me provocava e me ridicularizava na frente das pessoas. Eu ia para cima dela, o suficiente para ela se calar e sair correndo para se esconder, mas nunca tive coragem de agredi-la. Um dia ela me xingou, e de forma quase automática eu a ameacei, disse que se ela não calasse a boca eu iria quebrar a cara dela. Nesse dia ela não correu, não se escondeu — pelo contrário, ela me olhou com um sorriso na cara e disse, na frente de toda a sala: "Vai nada! Você sempre diz que vai me bater e não bate. Você não tem coragem. Eu não tenho mais medo de você". Eu fiquei mortificada por alguns momentos, depois senti o ódio e a vergonha correndo pelo meu corpo. Eu não era de nada e ela sabia. Ela sabia que podia pisar em mim o quanto quisesse, pois sairia impune.
Toda vez que eu volto para ele depois da humilhação e do adeus, eu lembro dessa garota e daquele misto de ódio e vergonha tomando conta de mim.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

parece amor, mas é doença

Noite passada eu não sonhei com ele
Foi a primeira vez em alguns meses
Tive, entretanto, uma terrível dor de garganta
No meio de sonhos entrecortados
Sobre coisa nenhuma
Ouvi uma voz robótica

É câncer

Pensei, culpada,
Em todos os cigarros que fumei
No último ano
Em cada tragada dedicada
A Ele

Em todas as pontas
E as cinzas
Transbordando
Numa caixa
Esperando para virar arte
Contemporânea

É câncer

Prometi ao Universo
"Se não for câncer
Nunca mais acendo um cigarro"

Nunca mais acendo dois, três
Madrugada adentro
Ao som de Jeff Buckley e Vanilla Fudge
Sempre as mesmas canções
E a voz dele recitando Bukowski
Numa rebeldia ensaiada
E um inglês mediano

Ele é bom demais para ler Bukowski em português
E eu gosto disso nele

I will never see it again

Acordei, atrasada 
E mole
Atrasada e sem pressa
Atrasada e de garganta mais arranhada do que um disco velho

Acordei e permaneci de olhos fechados

O pensamento foi logo nele

Meus dedos tatearam
Alcançaram o maço
de cigarros
Instintivamente, sacaram um
Levaram-no à minha boca
E o acenderam com o
Isqueiro vermelho

Meus lábios semicerrados tragaram com fúria teatral
Aprendi com ele

Jeff Buckley começou a gemer

Don't fool yourself

No quarto fechado
Janelas fechadas
Cortinas fechadas
A fumaça se instalou, primeiro na minha garganta dolorida
Então
Invadiu meus pulmões
Meus cabelos
Minhas roupas
E meus livros
Como ele

É câncer.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

eu prometi que esse seria o último maço

Minha cabeça está cheia
Meu coração também
Meus pulmões estão cheios
O cinzeiro está transbordando


Eu estou poluída
Por você

Feito fumaça
Tu entra
Se instala
Em todos os espaços

Você some
Mas teu cheiro fica
O gosto fica
A necessidade fica
O veneno nunca sai

Dos meus prazeres nocivos
Você é o pior

terça-feira, 26 de março de 2019

o copo

Encarei o copo demoradamente, sabendo que seria muito bom. Meu corpo ficaria anestesiado, e por algumas horas, nada importaria. Então eu dormiria. Não o sono agitado de sempre, mas uma espécie de coma temporário, capaz de me tirar do mundo e da minha cabeça.
No ímpeto, levei o copo à boca, uma, duas, dez vezes, parando sempre antes de ele tocar meus lábios. Meus dedos trêmulos e escorregadios seguraram o copo a poucos centímetros do meu nariz, o cheiro do conhaque me instigando.
Passei a maior parte da vida bebendo para amenizar a minha dor. Uma garrafa de vodka por dia, e nem sempre era o suficiente.
"As pessoas não querem saber disso, Cíntia. Elas não precisam saber disso". Queria ser  linear, com uma vida sempre colorida, sorrisos e esperança em excesso.
Coloquei o copo de volta na mesa, uma, duas, dez vezes, ouvindo o baque contra a madeira.
Será que eu queria mesmo?
Imersa em desesperança, a irritabilidade crescendo, repeti o ritual por muitas horas, a mente e o corpo em conflito, desejando e repelindo o conforto líquido. Vislumbrei meu futuro. 
Nós sabemos onde tudo isso leva. A loucura e a inércia tomam conta. São dias, semanas e meses de cama, de vômito, de suor e culpa. Sangue e internação.
Ser forte nos bons momentos não é tão difícil. Eu sou forte o suficiente para manter o controle nos momentos em que o corpo dói de tanto desespero? Nos momentos em que a esperança parece uma tolice?
Não posso ser sempre positiva, porque a vida não funciona assim. Eu não sou uma influenciadora digital, sou um ser humano.
Acendi um cigarro. Senti as lágrimas grossas rolando pelo meu rosto.
Uma das lâmpadas do meu quarto queimou, mas ao menos ainda tenho energia elétrica. Meu estômago ronca de fome. Tive que largar o meu curso. O meu quarto continua mofado, sem móveis... Emprego não tem, e dizem me amar, mas nunca me querem o suficiente para transformar palavras em atos.
E eu, me amo o suficiente para transformar palavras em atos?
Joguei o conhaque na pia do banheiro, e o observei descendo rapidamente pelo ralo. 
O que se tira disso?
Nada.
Hoje eu não posso levantar ninguém, porque estou usando todas as minhas forças para levantar a mim mesma. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

das coisas que você não sabe

você nunca vai saber das noites que eu passei acordada
de todos os cigarros transbordando no cinzeiro improvisado
enquanto eu prometia parar de fumar
parar de pensar em você.... 

das promessas em vão

você nunca vai saber da agonia da pele em chamas 
o seu olhar inocente na mente
suas palavras dançando sobre mim 
como insetos numa noite infernal de verão
o misto de compreensão e raiva 
ardendo nos meus olhos esfumaçados

você nunca vai saber das tardes desperdiçadas
do dedo no gatilho, hesitante e cheio de remorso
nunca vai saber a sensação do disparo quente 
nem da velocidade do projétil atingindo o meu cérebro em cheio

nunca vai saber do vazio que fica depois de tudo
no coração e no crânio dilacerados

você nunca vai saber da solidão que torna tudo inútil
ou da morte da esperança
dos poemas rasgados e queimados, só por garantia

você nunca vai saber do meu desejo
de ser o seu cachorro
ter sua lealdade
o rabo balançando de contentamento
pelo afago

você nunca vai saber de todas as vezes que eu chorei
gemendo seu nome

te chamando, chamando
sem nunca ser ouvida
você nunca vai saber
você nunca vai saber

você nunca vai saber...



segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

espetada

   Acho que engoli um palito de dente enquanto comia uma batata recheada. A princípio não parece nada, porém pesquisei no Google, e veio logo o anúncio da catástrofe. Eu sinto o palito enfiado no meu coração, espetando-o, rasgando-o, do epicárdio ao endocárdio. Meu coração sangrento, sangra, sangra... 
   Talvez eu morra.
   Sozinha no escuro, o coração espetado, eu fico em silêncio, aguardando. Silêncio aqui dentro, quero dizer. Lá fora os fogos já estouram, ao longe. Não olho pela janela, só ouço, bem parada, a respiração bastante controlada...
   Falta pouco. Cinco minutos e isso acaba, só para depois começar de novo.
    Não ouço os risos, mas certamente eles também ecoam lá, bem longe do meu coração que descompassa com a ferida e com a angústia.
   Eu os imagino, os vejo — no âmago da minha loucura. Estão lado a lado, as cabeças erguidas, observando os fogos... e quando o relógio anuncia, por fim, a meia-noite, ela, com um sorriso extremamente largo, se joga nos braços dele. Ele se diz solitário, mas não é, não de verdade. Com ela nos braços, ele nunca está sozinho. Beijam-se. Ela sente o calor do abraço dele lhe envolver por completo. Eu sinto o calor da ansiedade subindo pelo meu corpo, se concentrando nas minhas duas bochechas, tão vermelhas quanto o meu coração sangrando, sangrando. 
   Desejam-se feliz ano novo, sorriem com os lábios e os olhos.
   O meu coração está doendo, talvez eu morra. O palito espeta minha alma. Sozinha, talvez eu morra. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

humana

   Eu sei que você não deve mais pensar em mim, mas eu penso em você todos os dias que estou acordada. Fico parada no escuro, no silêncio, a pele eriçada pelo pensamento do abraço que você me prometeu. E nos dias que escolho não despertar, eu sonho com você. Nós dois juntos na cama, lendo poemas entre um beijo e outro. Lábios explorando pintas.
   Ainda fico tentando imaginar seu cheiro e a textura da sua pele. A imagino quente e macia, e chego a sentir, de um jeito muito abstrato, o conforto do seu corpo no meu.

   Ouço músicas que me fazem pensar em você, mesmo sabendo que você não gostaria delas, e penso em todas as coisas que poderiam ter sido e nunca serão...
   Vejo você surgindo um dia, mesmo que leve muitos anos, e dizendo que agora é diferente. Eu sei que é bobo, e eu sei que você nunca vai surgir dizendo isso, mesmo que as coisas sejam diferentes! Imagino você racionalizando e escolhendo me ignorar.
   Toda vez que acendo um cigarro eu lembro da sua voz e dos seus lábios se movendo, ... e agora foram muitos cigarros.
   Às vezes eu estou na rua, na fila do ônibus ou numa livraria e vejo mãos parecidas com as suas... Minhas pernas fraquejam. Sinto um nó na garganta. Lembro dos seus dedos segurando cigarros e os tragando, daquele jeito encenado que me cativou. As lágrimas surgem e ficam presas nos meus olhos até que eu inevitavelmente pisque, então elas escorrem, um filete de cada lado, inundando meu rosto e indo parar no meu peito. 
   E às vezes eu lembro da sua risada, ao lado da sua namorada, e novamente sinto aquela sensação. Minha pele sendo arrancada do meu corpo.
   Eu só queria que você soubesse.


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

taciturno

Te chamo
Ouvimos o eco da minha voz
Você me olha, mas não diz nada

Não sou boa com despedidas

É como

Minha pele desgrudando do corpo
Um nó na garganta
Algo incômodo no peito

E se amanhã não tiver ninguém

Aqui

... Entende?

A morte da expectativa

Das coisas que poderiam ser
E de tudo que sempre foi improvável...

Você volta
Com seus sentimentos fragmentados
Me oferece reticências e
Seus beijos abreviados me ferem

Deliberada, para te mostrar que sofro, te apedrejo com palavras
Você finge a dor tão bem que eu quase acredito

Amor

Pouco não nutre minha fome de vida de tudo que é grande e forte e
Aquela palpitação que a gente ouve e sente ao mesmo tempo, alta e quente
Vibrando loucamente eu

Amo tudo em você
Até as coisas que odeio

Não te atinjo
Longe
Impenetrável
Duro feito rocha

O seu auto-controle me descontrola
E eu estou cansada

Grito vai embora como quem diz
Fica
Você sussurra adeus como quem diz 
Nunca estive

Te chamo outra vez
Você não olha para trás

domingo, 11 de novembro de 2018

previsão

Minha mãe me disse
Um dia você vai ser como eu
Sozinha
Com um monte de filhos
Vai saber o que é sofrer
Você vai me entender

Eu tinha dez anos
Coisa estranha de se dizer

Passei a vida fugindo
Da sina
Do destino
Da repetição

Eu não queria ser ela

Sempre fui sozinha
Especialmente quando me via acompanhada

Não tive filhos
Mas descobri o que é sofrer

Aos vinte o entendimento veio
De forma súbita

Não justifica.

28. Estou salva.
Sou diferente.

Até que ele apareceu,
Me fez como ela

Me fez ser a outra
Assistindo a intimidade
De fora

Intocada.

Me fez ser a outra
Como minha mãe

Ele me fez cair
Ele completou o meu destino

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

a doença

Tem dias que o impulso é
Destruir

Lugares
Coisas
Pessoas

As propriedades
Os Proprietários
O que não tem dono

Destruir o Mundo
Da mesma forma que ele me destruiu

Destruir
-
Me

Eu posso jogar as lâminas fora
Cortar minhas unhas bem curtas
Trocar o álcool por água
Não comprar cigarros
Eu posso me achar bonita
Colocar as melhores roupas

Eu posso sorrir
E gargalhar

Posso inventar novos métodos

E as pessoas ainda vão dizer
Seus olhos são vazios

A Destruição está dentro de mim

Nas relações que eu vivo
No meu jeito errado de amar
Na esperança de ser correspondida
Na bagunça do meu quarto

Lágrimas, olhos vermelhos,
A música tocando

A Doença
Não me deixa
Viver

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

auto-conhecimento

   Não dormi, mas comecei o dia gargalhando. Seis horas da manhã e minha risada alta preenchia meu quarto, provavelmente se fazendo ouvir fora dele. Ri tanto, que a minha barriga começou a doer, enquanto as lágrimas escorriam pelas minhas bochechas e embaçavam meus óculos. Eu tentava não rir, porque o motivo do riso desenfreado era a desgraça de algumas pessoas que caíram com a freada violenta de um ônibus. Parava por alguns minutos, segurando o riso com a consciência pesada, mas depois não aguentava, e o ritual descontrolado recomeçava.
   Ouvi os passos em frente à janela do meu quarto. Ouvi minha avó na cozinha, senti o cheiro do café. Eu não tomo café, mas devo admitir que o cheiro de café, especialmente pela manhã, aguça alguma coisa boa dentro de mim.
   Entre o riso e o silêncio culpado, ouvi o barulho das xícaras na cozinha, e o som de pessoas cochichando. Tentei ouvir o que diziam, mas não deu.
   Eu ainda estava indecisa se deveria ir à consulta com a psiquiatra ou não, mas pensei: "ainda tenho bastante tempo", e depois me ocorreu que é justamente quando eu tenho tempo de sobra que me atraso. Eu me conheço, estou sempre certa. Me atrasei, depois de colocar uma roupa qualquer e sair correndo, de cara lavada, na chuva que tornava o chão escorregadio sob o meu all star velho demais para ter algum efeito anti-derrapante. Quase escorreguei algumas vezes. Teria sido um belo castigo, ser filmada escorregando para abastecer o riso de alguém depois, na internet.
   Mas não caí. 
   Cheguei ao posto de saúde, tirei os óculos escuros respingados da chuva, e peguei a senha eletrônica. Agora tem isso lá, e eu me sinto de alguma forma traída por esse avanço tecnológico. Tira o aspecto familiar da coisa. 
   Mais traída ainda me senti quando minha senha foi chamada, e a recepcionista não lembrou meu nome. Ela me olhou, olhou para a tela do computador por uns segundos, e me olhou de novo, soltando um odioso: "esqueci seu nome...". Ela me conhece há dez anos. Eu sei o nome dela e de todas as pessoas no posto de saúde. Aos poucos, eles esquecem o meu. 
   "Cíntia, prontuário 19-119".
   Enquanto esperava, irritadiça pela noite não dormida, observei as pessoas passando. Auxiliares de enfermagem, as moças da limpeza, o pessoal da administração, e as agentes de saúde. Recebi dois abraços genuínos, fortes, e muitos sorrisos amarelos: "você anda sumida!". Eu sempre busco amor nos lugares mais improváveis.
   O posto está cheio de enfeites florais feitos de papel crepom; dois tons de rosa e um branco, para a campanha de prevenção de câncer de mama. Fiquei com vontade de roubar alguns dos enfeites, colar na parede do meu quarto. Eu sou assim. Uns anos atrás roubei um dos enfeites da já precária árvore de natal do posto de saúde, porque eu preciso ter esses souvenirs para me lembrar dos momentos. Para tornar as minhas memórias tangíveis. Ou para manter a ilusão ativa.
   Pensei em todos os anos esperando por aqueles corredores, vendo as pessoas passando e preocupando-se comigo. Pensei nos meus professores do ensino fundamental. O meu sentimento era o mesmo por ambos os ambientes e seus habitantes. O mesmo amor por pessoas que são pagas para notar a minha existência, e que esquecem do meu nome assim que o meu caso deixa de ser prioridade em suas mesas.
   Comecei a andar de um lado para o outro, inquieta com a demora. Apertei o aparelho de álcool gel, mas não saiu nada, como sempre. Tem uma mesa no corredor, ao alcance dos pacientes, e eu sempre me perguntei o que tinha naquelas gavetas, sem coragem de abrir para ver. Olhei para os dois lados do corredor cheio de pacientes cuidando de suas próprias dores. Abri a primeira gaveta, e, adivinha só, não tinha merda nenhuma. Foi o suficiente para acabar com qualquer traço de tesão detetivesco.
   Me pus a ler os cartazes de prevenção de câncer de mama, e depois o mural cheio de post-its com mensagens "motivacionais". Cuide-se!, dizia um dos post-its. Ame-se! A vida importa! AUTO-CONHECIMENTO! Eu nunca fiz o auto-exame. Pensei em roubar um ou dois, quem sabe três post-its rosa choque. Mas talvez a mensagem fizesse falta para outras pessoas. Eu sou hipocondríaca. Quando eu penso em fazer o auto-exame, penso na possibilidade de encontrar um nódulo, e começo a surtar. A bem da verdade, se eu procurasse eu provavelmente encontraria mil nódulos, a minha ansiedade os colocaria ali.
   Eu me conheço, mas às vezes não quero conhecer demais. Pensei nas minhas seguidoras.
   A psiquiatra me chamou. Ela não lembrava exatamente sobre o meu caso, ficou lendo por cima as páginas do meu prontuário, me fazendo as mesmas perguntas mil vezes, e eu as respondia, sentindo a exasperação crescer. É como se ela não ficasse contente com as minhas respostas, então continuasse perguntando para ver se eu as mudava. Você está pensando em suicídio, ou está planejando suicídio? Qual é a merda da diferença? Perdi a calma com ela, e me arrependi em seguida, porque apenas parte da minha exasperação era pela condescendência dela, a outra parte era pela noite não dormida. Eu sou como uma criança que vai ficando rabugenta à medida que o sono chega, e que precisa deitar e pegar no sono assim que esses momentos batem.
   Ela continuou fazendo as mesmas perguntas e as mesmas propostas. Eu parei de responder, adotando a tática de simplesmente encará-la. Ela continuou na expectativa de uma resposta, e eu continuei oferecendo silêncio, sabendo que meus olhos estavam tão vazios quanto às vezes me acusam.
   Foi uma consulta absurdamente longa, em que nada foi abordado. A minha impaciência crescente, louca para sair dali. Comecei a concordar com ela, era o único passaporte para a saída daquele lugar. Funcionou. Até mais, Cíntia. Obrigada. Tchau.
   Peguei meus remédios, não tinha todos. Estava exausta. Passara horas ali, e a consulta com a psiquiatra no fim me deixou pior do que quando eu cheguei. Com os bolsos da jaqueta jeans molhada cheios de remédios, coloquei os óculos escuros e saí. Eu não suporto claridade, especialmente quando não durmo.
   Ia chegar em casa, tirar toda a roupa e me jogar na cama ao som de Florence + the Machine. Isso não aconteceu. Enrolei o dia inteiro, cansada, sem fazer nada, sem ter noção de como as horas passaram. Dava tempo de ir pro curso ainda, mas eu simplesmente não teria energia física ou intelectual para acompanhar a aula.
   No fim da tarde eu tirei as roupas ainda molhadas, e deitei, cobrindo a cabeça. Meu corpo começou a pesar, minha mente começou a desligar, e o celular apitou. Relutei por alguns momentos, mas descobri a cabeça e estiquei o braço, pegando o aparelho.
   Era ele. Meu coração acelerou. Ele gostou da minha foto de 4. Instigada, minha mente acendeu, voltou a funcionar a todo vapor. Minha buceta a acompanhou. Em alguns minutos ele conseguiu me fazer esquecer da mágoa de situações anteriores, do sono, do cansaço, da exasperação, e tudo isso deu lugar a um tesão violento, que provocava ondas de prazer pelo meu corpo sem que eu ao menos me tocasse. 
   Eu te quero. Você me faz sentir um tesão desmedido. Seu pau está pulsando? Quero me esfregar em você. Imagina, imagina, imagine! Imaginei o coturno dele pressionando meu corpo, me imobilizando contra a parede, deixando as marcas da sola na minha pele. Estava molhada novamente, mas dessa vez não era culpa da chuva, que ainda batia  contra a minha janela.
   E as mensagens começaram a ficar mais espaçadas... 
   Ocupado.
   Ok...
   Abri as pernas, coloquei os dedos para trabalhar, imaginando. AUTO-CONHECIMENTO!
    Os dedos deslizando com facilidade. AUTO-CONHECIMENTO!
   Me esparramei na cama, me desfazendo entre os lençóis e cobertas. AUTO-CONHECIMENTO!
   Soltei gemidos e suspiros... AUTO-CONHECIMENTO!
   A atenção dele nunca é só minha. Eu sempre tenho que dividi-la com outras pessoas, com outras coisas.... AME-SE!
   É só sobre ele. O prazer dele, o sentimento dele, o momento dele, a vida dele. Ame-se ame-se ame-se ame-se ame-se ame-se ame-se, AME-SE, porra!
   Tomada pelo tesão e pela tristeza de uma só vez, comecei a chorar enquanto me tocava, enquanto os dedos entravam em saíam, e o tesão começava a ser vencido pela tristeza. O som do meu choro preencheu meu quarto, talvez se fizesse ouvir lá fora. Chorei tanto, que a minha garganta começou a doer, as lágrimas escorrendo em abundância pelas laterais do meu rosto. Parava por alguns segundos, mas depois não aguentava, e os soluços convulsos recomeçavam. No escuro, no silêncio.
   Os dedos desistiram. Fechei as pernas, deitei em posição fetal e cobri a cabeça. Eu sempre busco amor nos lugares mais improváveis. Chorei tanto, que dormi. Por dois dias.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

você... ou eu

Comprei um maço de cigarro
Fazia sentido...

tirei o lacre

Talvez um dia alguém sinta conforto em mim
no cheiro 
das minhas roupas
dos meus cabelos

Talvez algum dia eu encontre conforto.

Ontem pouco me bastou
Enquanto garoava na minha cabeça
E as gotas, junto à fumaça, embaçavam meus óculos.

Hoje, nada.

Mas
Eu vou te encontrar
Na ponta de cada cigarro que eu fumar
Vou sentir seu beijo
Em cada tragada que eu der
Vou ver seu rosto
Em cada massa abstrata de fumaça que eu soltar

Minha voz ficará menos suave
E em cada verso que eu declamar
Eu vou lembrar da sua rouquidão...

"If I never see you again..."

Quando eu me tocar
Os meus dedos terão o cheiro dos seus dedos
Vai se misturar ao aroma do meu sexo

Levarei meus-seus dedos aos lábios
Vou fechar meus olhos...
Fingir que são suas, as digitais adocicadamente ásperas na minha língua

Sua existência vai resistir

Nos meus pulmões

Eu vou ficar sem ar
Toda vez que o seu nome vier à tona

E quando eu estiver quase morta
Será você o meu câncer
De alma

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

urbana

Vagando por essa cidade caótica
Eu vejo você

Nos olhares infantis
No vento cheio de poluição que espanca minha pele
No cheiro dos cigarros acesos
No meu próprio caminhar,
Refletido nas portas espelhadas de edifícios instáveis

Parada no ponto de ônibus 
Eu
Sinto você
Quando toco as pérolas pendendo do meu pescoço
E te imagino, me puxando
Para muito perto

Violência, necessidade

O colar partindo
As bolinhas marfim rolando
... Para dentro do esgoto.

Eu não ligo.

-- 

Sentada à janela
Eu ouço você

Enquanto aproveito o balanço
Para...
...

Meu corpo arqueia
Um gemido rebelde se faz ouvir
Me olham
Minhas bochechas não coram

A dor é iminente

Mas eu acho que todo mundo deveria acordar atordoado
Às quatro horas de uma tarde
Ao som de um poema recitado

Todo mundo deveria se perder,
Uma vez ou outra

Eu me perco na constelação do seu corpo.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

fumaça

   As coisas invariavelmente começam como se nada estivesse acontecendo. É simples assim. Você não é ninguém pra mim, e eu não sou ninguém para você. Bate até um desconforto, de tanta mensagem chegando, e do impulso de respondê-las. Te vejo como um todo — um amontoado de características. Um homem como qualquer outro. 
    Mas aos poucos... O papo passa do morno para o muito quente — a sensação é, ao mesmo tempo, sufocante e deliciosa, como são as melhores coisas. Palavras bem aplicadas, surge a identificação. Você entra na minha cabeça. Forjamos a conexão... 
   ... Talvez seja por hábito, que nós fazemos essas coisas. Continuamos, porque a opção é o vazio. O nada perde espaço, se torna alguma coisa... Dez minutos já não são o suficiente. Eu quero mais, quero todos os seus minutos e todos os seus pensamentos. 
   Vou isolando suas características, passa a me agradar o que sinto e o que vejo. Pintas, olhos, dedos. Desejo. O jeito que os seus lábios soltam a fumaça... 
   Sozinha na minha cama, fantasio, ao som de Portishead, sobre o seu cheiro. Sobre sua voz, a textura da sua pele... a temperatura do seu abraço. Fico imaginando o tom do seu gemido. Tudo em você é meio encenado...
   Quando noto, você está sob a minha pele. Meu ser anseia por você. A mais inocente lembrança da sua existência eriça todos os meus pelos. O meu coração descompassa, o meu cérebro fica dormente. O seu nome encharca a minha calcinha...
   É tudo muito breve, as coisas são intensas. Mas eu descobri, ao longo da vida, que intensidade é algo que não dura...
    É brutal, a porrada que atinge o meu estômago. O sentimento é um raio atravessando o meu corpo repetidamente. Meu coração ganha mais um remendo. O buraco no qual venho caindo fica mais profundo.
   E de repente, são cinco horas da manhã. Eu fumo meu primeiro cigarro em muitos meses, para me sentir mais perto de você. Olho suas fotos, revivendo as palavras, e penso no absurdo das coisas. Há pouco tempo você nem existia. 
   O fluido transparente escorre pelas minhas coxas, enquanto você dorme com ela.
   Solto a fumaça.