quinta-feira, 28 de setembro de 2017

frágil

   Tem um nó na minha garganta. O Google me diz que é câncer. Sim, é um câncer. A confiança é um câncer, que se espalha lentamente e eventualmente nos mata.
   Eu pego um livro na estante, leio a primeira página e não sinto nada. Folheio ferozmente. Pego outro, e outro, vou pegando, e não os devolvo aos seus lugares. Não acho a resposta em nenhum deles.
  Sento no chão que ainda não limpei, cercada por palavras que não me provocam reações. Curvo-me sobre o meu estômago cheio de escorpiões famintos, tento aquietá-los. Eles já comeram as borboletas, agora só lhes resta minhas vísceras. O Google não sabe o que aconselhar.
   Ouço a sua voz, hora doce, hora comandante, mas sempre me querendo de joelhos, abaixo de você.
   Me ensinaram que o amor é uma arma de manipulação e a que dor é um ato de entrega. Ser amado é ter poder sobre alguém, e amar é submissão, fé cega, comer migalhas e se contentar com elas. Eu tento escapar do padrão, mas aceito o que você me oferece. Primeiro você é gentil e eu como na palma da sua mão, mas com o passar do tempo as migalhas são atiradas ao chão de qualquer jeito.
   Escondo a cabeça entre as mãos trêmulas de revolta, fugindo do seu olhar que não expressa empatia, e grito internamente. Minha alma fica rouca. Talvez os meus gritos ecoem no espaço ou no fundo do oceano, mas aqui eles são inaudíveis para todos os corações...
   Lembra quando eu te disse que queria que o desejo fosse uma coisa linear? Você me respondeu que as coisas não são assim, as pessoas têm seus momentos, seus altos e baixos. Do seu jeito, você me disse que o desejo é uma montanha-russa. Eu nunca gostei de fortes emoções.
   Essas coisas não duram, o demônio na minha cabeça diz. A empolgação é algo que se esgota rápido, ele me lembra. E a confiança é um câncer. Nos deixa frágeis como uma dessas figuras de porcelana que sempre me dão no natal ou no meu aniversário — elas estão sempre caindo. Bate um vento e pronto, perecem, espatifadas no chão. Eu tento colar, guardo as partes quebradas, afinal, foram presentes, mas já não servem de nada.
   Deito em posição fetal; tufos de cabelo nas mãos de punhos cerrados, a cara arranhada e o espírito cansado após mais uma onda de choro convulso. Eu não posso voltar para o útero da minha mãe. Esse laço também já foi rompido há muito tempo.
   Fecho os olhos. Respiro. Talvez eu deva tentar quimioterapia.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Indireta

Ele disse que não tem palavras para descrever o quão filha da puta eu sou
e eu pensei
meu irmão
quer que eu te empreste um dicionário?

acredite
não postar indiretas é mais difícil do que parece
diretas já!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Danillo, eu não odeio tudo!

   Estava andando de ônibus hoje, sentada à janela, quando passa ao meu lado um fusca lindo, conservadíssimo, vermelho. Com o coração cheio de amor, pensei: "eu gosto tanto de fuscas!".
   E lembrei do Danillo, que vive zombando do meu ódio por todas as coisas. Ah, é mais fácil dizer o que você não odeia! Ah, novidade você odiar alguma coisa! 
   Comecei a pensar nas coisas que eu gosto. Às vezes até eu me convenço que odeio tudo e todos, e de repente, vem o fusca.
 Eu gosto de fuscas. Gosto de fuscas vermelhos. Batom vermelho, roupa vermelha, esmalte vermelho, gosto de sangue. Gosto de mãos, gosto de veias, gosto de quando não faz nem frio e nem calor. Gosto do cheiro de dama-da-noite trazido por uma brisa suave quando eu estou deitada sob a minha janela. Eu gosto de deitar sob a minha janela. Gosto de ver o céu, mesmo quando faz sol. Mas gosto ainda mais do céu estrelado. Gosto muito da Lua. Gosto de dormir à tarde, gosto do canto dos pássaros à tarde, do som de crianças brincando, ao longe, à tarde. Gosto do pôr-do-sol. Nunca vi o pôr-do-sol do alto de uma montanha, mas sei que gosto de ver o pôr-do-sol do alto de uma montanha. Gosto de ver o pôr-do-sol acompanhada. Gosto da ideia de que agora mesmo, em outro ponto da linha do tempo, eu estou vendo o pôr-do-sol no alto de uma montanha, acompanhada. Gosto do silêncio da madrugada. Gosto de ficar em silêncio. Gosto de ficar em silêncio acompanhada, nesses momentos em que um invade o pensamento do outro. Gosto de beijo na testa, beijo nos olhos, beijo no rosto. Gosto de lamber dedos. Gosto de selinho. Gosto de beijo lento e de beijo apaixonado, desde que eu goste de quem está com a boca na minha. Gosto de deixar marca de batom. Gosto de pintas e cicatrizes. Gosto de marcas de nascença. Gosto que me leiam em braile. Gosto que me entendam profundamente, ou se esforcem muito para entender. Gosto daquele primeiro momento da paixão, em que tudo o que a pessoa faz é incrível, mesmo o que normalmente eu odiaria. Gosto que respondam minhas mensagens de prontidão, não por obrigação, mas porque estavam pensando em mim. Gosto de mensagens longas, mesmo que o assunto seja bobo. Gosto de conversar sobre coisas complexas que não fazem sentido nenhum. Gosto de gente que me faz rir até perder o fôlego, e que me deixa sorrindo tanto que a minha mandíbula começa a doer. Gosto quando riem até perder o fôlego comigo. Gosto quando a pessoa saca que eu tenho mais de um tipo de risada, e o que cada uma delas significa. Gosto de ser chamada de princesa. Gosto quando escrevem o meu nome com o seu devido acento. Gosto de gostar de uma pessoa a ponto de chamá-la de "meu bem". Gosto de conversar com plantas. Gosto de gente inteligente que não acredita que é inteligente (de verdade). Gosto de ouvir pessoas inteligentes falando sobre coisas inteligentes, mas sem pretensão alguma, só por uma necessidade genuína de compartilhar informações. Gosto dos mais variados tipos de inteligência. Gosto de quem escreve certinho, mas gosto de quem respeita quem não consegue escrever certinho. Gosto quando eu estou falando com alguém e a pessoa me olha como se eu fosse o centro de seu universo, mesmo achando isso intimidador. Gosto quando eu dou uma recomendação de algo que gosto e a pessoa aceita a recomendação. Gosto de cheiro de terra molhada, gosto de tomar banho de chuva, gosto de sentir grama molhada sob os meus pés. Gosto de gota de orvalho. Gosto de estátuas. Gosto de ir ao museu sozinha, em dias menos movimentados. Gosto de colecionar panfletos de exposições. Gosto de colar pôsteres e cartazes nas minhas paredes. Gosto de ouvir a voz de algumas pessoas assim que elas acordam. Gosto de ouvir a voz de algumas pessoas assim que eu acordo. Gosto quando as pessoas se deixam ficar vulneráveis comigo. Gosto de quando conseguem quebrar minhas barreiras. Gosto de cheiro de tinta, de cheiro de leite quente e do cheiro do vapor que sobe do ferro de passar roupa. Gosto de cheiro de roupa nova e tênis novo, e de pessoas que acabaram de chegar. Gosto do conforto de roupas velhas e tênis velhos e pessoas que estão há muito tempo. Gosto de ter uma caneta na bolsa para não ter que sair correndo, esbaforida, antes que a ideia desapareça completamente. Gosto de correr esbaforida, com a cabeça cheia de ideias. Gosto de não ter papel na bolsa, e escrever minhas ideias nos meus braços ou atrás de cupons fiscais. Gosto de flores e de galhos que caíram sozinhos. Gosto de frutos tirados do pé. Gosto que me deem plantas vivas. Gosto de chokito. Gosto de chocolate branco com cookies. Gosto de bis. Gosto de pizza, não importa o sabor e nem o dia da semana. Gosto de comida amanhecida. Gosto de sorvete com sucrilhos e bolacha wafer. Gosto de batata! Gosto de gente sem requinte e sem frescura. Gosto de cerveja estupidamente gelada num dia de muito calor.  Gosto de beber cerveja acompanhada. Gosto de gente que faz o que quer. Gosto de quem não se intromete no que faz o outro feliz, especialmente quando isso não lhes afeta em nada. Gosto de drogas: diazepam, amor. Gosto de quando o whisky deixa o meu nariz dormente. Gosto do barulhinho da máquina de tatuagem, e de sua vibração, especialmente no peito, pescoço e garganta. Gosto das bolinhas de sol que passam pelos buraquinhos do meu telhado de barro e se instalam na minha parede. Gosto de pintar as unhas de preto. Gosto de chupar gelo. Gosto de água. Gosto das minhas pernas e das minhas coxas, e gosto quando quem eu gosto gosta das minhas pernas e das minhas coxas. Gosto da maciez das minhas pernas quando eu as depilo. E gosto de puxar os pelos das pernas dos outros. Gosto da cor dos meus olhos. Gosto dos meus cabelos. Gosto quando memorizam as minhas pintas. Gosto de olhos pretos e olhos castanhos, de olhos de crianças, de olheiras. Gosto de bebês. Do cheiro de bebês, da inocência de bebês, da bagunça de bebês. Gosto de pés de bebês. Gosto do ato da amamentação. Gosto de entrar num sebo ou livraria sem hora de sair, e ficar passeando com meus dedos pelos livros das prateleiras, lendo os títulos, um a um, e de retirar esse ou aquele para ler a sinope. Gosto do susto de encontrar algum autor que gosto muito no meio das prateleiras, e da satisfação de ver que o preço do exemplar cabe no meu bolso. Gosto de cheiro de livros, novos ou usados. Gosto de sentir a textura dos livros. Gosto de livros com dedicatória de décadas atrás, e de imaginar como era a vida daquelas pessoas e como elas puderam se desfazer de um livro que ganharam. Gosto de não dar nada por um livro, e acabar arrebatada por ele. Gosto de ler os meus livros preferidos de tempos em tempos e ver como eu mudei. Ou que eu continuo a mesma. Gosto de ir a cemitérios. Gosto de ir a enterro de estranhos e analisar a reação das pessoas. Gosto de pessoas que dizem exatamente o que pensam. Gosto de pessoas que agem de acordo com o que dizem. Gosto de pessoas que chegam na hora. Gosto mais ainda das que chegam adiantadas, porque eu quase sempre chego também. Gosto de pessoas que se preocupam com os sentimentos dos outros. Gosto de all star. Gosto de conhecer novas músicas que vão direto para a alma. Gosto de recomendar músicas e que elas acabem dentro da alma das pessoas também. Gosto de ouvir música bem alto, e cantar bem alto. Gosto de Caravaggio. Gosto de lavar os cabelos. Gosto de lepidópteros. Gosto de quando borboletas pousam em mim. Gosto de estudar o que eu gosto. Gosto da empolgação que me domina quando eu crio um interesse novo. Gosto de judeus. Gosto de inglês. Gosto de português. Gosto de palavras. Gosto quando alguém me mostra algo que escreveu e o texto é bom. Gosto quando leem as coisas que eu escrevo e comentam algo além de "muito bom". Gosto de acordar tarde. Gosto de Liga da Justiça, Tarzan e X-Men. Gosto de assistir filmes que explodam minha cabeça. E de filmes ruins. Gosto de séries antigas, e algumas novas. Gosto de lápis de cor faber-castell. Gosto quando me desenham. Gosto de quando quem eu gosto diz que eu sou linda. Gosto de quando quem eu gosto me chama de gostosa. Gosto de relembrar meus dias de glória na escola Benedito Calixto. Gosto quando a coca-cola rasga a minha garganta. Gosto de Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Gosto de poetas que ainda não foram publicados. Gosto de fazer bolinhas de sabão. Gosto de glitter. Gosto de algodão doce. Gosto de ver coisas nas nuvens e nos azulejos. Gosto de homem com barba por fazer. Gosto de homem com camiseta regata. Gosto do som de mulher gozando. Gosto de montar árvore de natal. Gosto de suco de cenoura, laranja e gengibre. Gosto das crianças que são subestimadas pelos pais, professores ou sociedade. Gosto de abraços demorados e apertados, de sentir o corpo das pessoas contra o meu. Gosto de ficar só de camiseta e calcinha. Gosto de andar descalça. Gosto de sair na rua de pantufa. Gosto do Batman. Do David Bowie, do Albinoni e do Eminem. Gosto de demonstrações públicas de afeto. Gosto quando as pessoas mudam para melhor. Gosto de festas juninas. Gosto de animais livres e selvagens. Gosto de buracos negros. Gosto do Gary Oldman, do Adrien Brody e do Christian Bale. Gosto de Buffy e Angel. Gosto de pessoas que não usam perfume. Gosto de armações de óculos diferentes. Gosto de árvores. Gosto de abraçar árvores, embora só o faça quando não tem ninguém olhando. Gosto de elogios sinceros. Gosto de pessoas verdadeiras. Gosto de morder quem eu gosto. Gosto de ler prontuários médicos. Gosto de ver a bondade em suas formas mais puras, porque ela aparece de forma tão rara... Gosto de paredes pichadas com frases contestadoras. Gosto de quem questiona tudo. Gosto de trilha sonora. Gosto de fotografias antigas. E post-mortem. Gosto de guardar coisas na minha lata de lembranças. Gosto do meio do mato. Gosto de ventania. Gosto de pessoas bizarras. Às vezes, eu gosto de mim. Gosto de uma série de coisas que ainda nem sei... 
   Ah, e eu gosto de você, Danillo! Seu malk chato!

sábado, 23 de setembro de 2017

o livro

   Sabe aquele livro que você me recomendou? Eu o comprei. Não foi barato, não. E tem a crise. Mas comprei, e comecei a ler assim que chegou...  até os Correios colaborou, chegou em 2 dias! 
   Eu sei que você já sabe disso, mas não consegui pensar em melhor forma de começar a escrever isso aqui (vamos fingir que você não sabia).
  Alguns diriam que só comprei para te impressionar, mas a verdade é que o seu intelecto (ou curiosidade ou esforço ou como você queira chamar) me instiga. Eu ainda vou lamber o seu cérebro. ...
   Você fala algumas coisas extraordinárias e referencia clássicos que não li (por preguiça ideológica) e filósofos que não conheço (estava ocupada durante as aulas, escrevendo poesia ruim) — mas até que te acompanho bem, não acha? Talvez um dia eu chegue lá.
   O livro me incomoda em alguns pontos, você já sabe. Mas notei que às vezes o que me incomoda é justamente o que tenho em comum com o autor. Quando eu o odeio, estou odiando meu próprio comportamento. Você estava certo quando disse que esse livro tem a ver com aquela crônica sobre minhas "aventuras amorosas". Por outro lado, devo admitir que apesar das torcidas de nariz ocasionais diante das muitas colocações altamente machistas, que eu concordei em contextualizar, me pego rindo de verdade em algumas partes, e sentindo um nó no estômago em outras. Ele sabia dar umas porretadas bem dadas. O filho da puta era bom no que fazia.
   Fiz orelhas bem pequenininhas — tenho essa mania — nas beiradas dos meus poemas preferidos, para comentar com você depois, um dia, de preferência pessoalmente. Te imagino sentado, analisando as páginas marcadas, e eu espiando sobre o seu ombro, para ver em qual página você está. Você os leria, por indulgência, e poderíamos comentar algo sobre esse e aquele poema. Você poderia me perguntar por quê gostei desse e não daquele. Poderia me mostrar os seus preferidos.
   Sei que se eu for ali na nossa janelinha, que por sinal acabou de apitar, e te disser o nome dos meus preferidos, você não lembrará deles, não de cor, e poderá até procurar no google, como numa missão de reconhecimento, mas não seria a mesma coisa. Deve ser essa minha fase, em que o virtual anda alterando o sabor (ou a cor?) das coisas.
   Esse livro tem tanto do que nós já conversamos, e algumas coisas que não conversamos ainda, mas que soa como coisas que diríamos — diremos. Esse tipo de sincronicidade me atordoa!
   Por que começamos a falar desse velho safado, mesmo?... Seja pelo que for, agora eu fico aqui lendo e te vendo, também, em muitos dos poemas. Os que têm mais humor do que safadeza. Tiago, sinto te informar, mas eu acho que ele não gostaria de você. Você ouve Bob Dylan alto.
   Eu sempre fui mais Baez do que Dylan, para ser sincera. Afora o machismo (você deve estar cansado das minhas acusações de machismo nas artes, mas podemos concordar com a inevitabilidade de tal hábito?), uma vez meu avô, que tem uma coleção extensa de VINIS, me prometeu a discografia do Dylan, o que me empolgou muito. Me imaginei com vários discos de vinil, e estava pronta para comprar um toca disco. E no fim, o que recebi? Não, ele não me deu discos de vinil, e sim um CD pirata com músicas do Dylan! Que afronta! Que broxante! Desde então eu não quis mais ouvir Bob fucking Dylan. Isso faz uns 4 anos.
   E agora estou aqui, com o livro que você recomendou na minha frente, escrevendo para você, e ouvindo Bob Dylan. One More Cup of Coffee. Eu não tomo café. Você não toma cerveja. Eu acho que quando nos encontrarmos, teremos que nos contentar com chá. Você gosta de chá, Tiago?
  ... Você fica me perguntando se gostei ou não do livro, como quem teme ter feito uma recomendação que não agradou. E eu digo que quero terminar de ler antes de opinar.
   É que hoje em dia eu leio mais devagar. O tempo é curto, e além de ler, eu tenho que dividi-lo entre ouvir as mesmas músicas repetidamente, reassistir seriados velhos que ainda me causam sensações oportunas, e lavar meus cabelos.
   Aliás, eu também deveria usar um pouco do meu tempo para ir ao mercado e riscar os itens da minha lista de compras. Só que a lista está me servindo de marca-página sempre que eu sou forçada a deixar o livro de lado.
   E talvez esse tipo de livro seja melhor apreciado em pequenas doses, de qualquer forma.
   Se você quer tanto saber: sim, eu gostei do livro! Gostei, porque às vezes não gostei. Gostei porque às vezes ele foi completamente indigesto e grotesco. Gostei porque ele socou minha cara e espremeu meu coração entre suas pequenas páginas. Essas reações adversas são a prova de que algo presta. Por alguns momentos a indignação e repulsa nos balançam e nutrem dentro de nós essa coisinha chamada vida.
   

   Eu sempre tenho perguntas para te fazer, então aqui vai mais uma, para encerrar: você acha que eu me excedo no uso dos travessões?

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Restos

Cíntia.


Quantas vezes


você chorou


na sua vida

Trancada entre 4 paredes


De quartos que não têm fechadura?

Admirando o teto
a parede
o chão
a janela

o céu lá fora
longe,
tão longe
... fora






do seu alcance?







Quantas vezes você não conseguiu ver as estrelas
por que os seus olhos estavam cegos 

de tristeza
inchados
e molhados?

Quantas vezes você embaçou os seus óculos
E respingou suas lentes
com essas lágrimas
espessas

que ninguém vê além de você

e seus amigos mortos?

A Juliana bem te disse

"Você anda muito chorona"

Mas isso foi antes, quando ela estava viva



Cíntia

você realmente
achou
por um segundo

que você poderia ter aquele cara?
ele é inteligente
e sensível
ele tem olhos de criança
e barba de homem
e você sabe muito bem
que esses caras
Cíntia
eles admiram sua inteligência
e te querem sempre
como
amiga.

Você é como Bukowski

sabe?

você sente nojo dele
porque é como ele.

Você sabe

Para você estão designados os putos
os impuros
os fetichistas
os caras
com sorriso de lobo

eles vão te foder por trás

você achou mesmo?



você....................




que é como Bukowski


deixou-se iludir

por um instante


que poderia alcançar essa miragem?

um garoto calmo

limpo;




vocês dois numa cama, vestidos
com música flutuando sobre vocês
apenas se encarando, aprendendo
cada detalhe do rosto um do outro


com as pontas dos dez dedos?
você sabe melhor do que isso
você deveria saber

eles vão te foder por trás
te tocando o mínimo possível

vão pedir para mijar na sua boca
para chupar o seu cu
ou para lamber os seus pés
eles vão pedir coisas

e vão te foder por trás

porque ninguém quer fazer amor 
olhando para a sua cara 

ninguém quer olhar dentro dos seus olhos

ninguém quer encarar esse vazio.

eles vão te foder por trás
escondidos dos amigos

Claro que não, cara
eu não fodo gordas
Vão te foder pelas costas
dos amigos


e ir embora

depois que gozarem
em cima


da sua alma.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Salina

Você está certo em tudo o que diz.
Suas palavras não são novas,
Mas fazem todo sentido
Se vomitadas por outra pessoa, 
Fariam sentido nenhum
Até me permito chorar diante de tanta coerência
Só que eu choro por tantas palavras, 
Com tanta frequência, que fico descreditada
Choro quase sempre, mesmo sem motivos
Às vezes o choro vem numa torrente de palavras
Que saem ao mesmo tempo da minha cabeça
E do meu músculo cardíaco
Às vezes é como um vulcão em erupção, 
Mas as lavas são vermelhas, seis litros delas
Tem vezes que vem de forma tão estranha;
Um líquido viscoso e translúcido 
Escorrendo pelas minhas pernas
E às vezes é a receita tradicional;
Água, sais minerais, proteínas e gordura.
Fluidos lacrimais.
Essas lágrimas que eu sempre imagino meio amareladas
Mas são mesmo transparentes 
(não o suficiente)
Eu queria que você visse as minhas lágrimas
E fizesse algum sentido delas.
Eu tenho esse desejo latente
De que alguém se aproxime de mim
E beije o meu rosto molhado-salgado,
Sorvendo toda a tristeza que escapa pelos meus olhos.

domingo, 17 de setembro de 2017

eu quero te beijar debaixo de uma árvore

   Difícil, né?
   Ler as pessoas. Saber o que elas estão pensando — ou, antes, sentindo. Especialmente na impossibilidade de demorar o olhar nelas, analisando detalhadamente o que o corpo geralmente fala e passa batido: os olhos, que quase sempre gritam; uma leve curvatura do canto da boca, formando um meio sorriso (ou um esboço de escárnio?); sobrancelhas erguidas repentinamente diante de alguma frase especialmente brilhante ou dolorosamente estúpida; uma língua lambendo, ligeiramente, lábios que preferem calar; uma respiração mais demorada, ou retida de forma tão brusca, que parece que o oxigênio da Terra foi temporariamente suspenso. Dedos sendo levados à testa ou à orelha, esfregando-as para esconder o embaraço. Pernas que não aquietam.
   Eu me jogo em incertezas e sonho acordada por horas a fio, derretendo sob o telhado de barro do meu quarto, onde o sol bate incessantemente. Concluo: te beijar não seria terrível.
  E se eu te encurralasse, pressionando seu corpo contra uma árvore, meus lábios vermelhos, com bochechas rosadas para combinar? 
   É claro que eu teria vergonha. Mas decidi, agora que já tenho 27 anos, que chegou a hora de ser atrevida-vida-vida-vida.
   E repentinamente lembro de um beijo; um beijo roubado, um beijo amargo — tinha gosto de angústia. 
   Decido: não quero te roubar um beijo, quero ofertá-lo. Fica a seu critério.
  Então, diante da árvore, eu não te encurralo. Te ofereço lábios entreabertos, gloss com glitter, sabor menta. 
   (Você não entende a oferta e eu quebro o momento. Tudo em nome do livre-arbítrio!) Tá vendo essa boca aqui? Ela foi feita para beijar. Eu acho que a sua também foi
   Que graça teria?, alguns perguntariam. Onde fica o elemento surpresa?
   O elemento surpresa, meus caros, não está na resposta de se ele aceitaria meu beijo ou não. Isso é pura agonia. A verdadeira surpresa está em qual seria o gosto desse beijo. Em qual seria a textura dessa língua se enfiando na minha boca. Em quanto tempo duraria a troca de saliva, e que tipo de sensações transcorreriam por nossos corpos. Onde nossas mãos pousariam? Está em quantas vezes repetiríamos essa dança, e se, ao fim, ficaríamos querendo mais.
   Mas é difícil ler as pessoas. Livros são mais fáceis.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

intocável

   Toda madrugada, antes de dormir, eu fico na minha cama, em meio ao escuro e o silêncio, fingindo que não estou sozinha. Fingindo que tem dois braços me aninhando; um coração batendo ao alcance do meu ouvido, meu rosto colado na pele nua e morna. O cheiro de vida emanando dela. Uma respiração tranquila pairando sobre mim... Nossas pernas estão sempre entrelaçadas. Eu o abraço com força, como um náufrago se agarrando a uma boia.
   E de tanto imaginar, chego a sentir a pressão desse corpo contra o meu. Ele dorme, eu me contento em ficar ali parada entre braços que me querem.
   Às vezes acordo desse delírio auto-induzido e choro de solidão. Lágrimas tão grossas que mal parecem líquidas, e soluços altos, convulsos, que ecoam pelo meu quarto, pela casa inteira, que talvez ouçam até da rua (...) mas ninguém se manifesta.
   Já fui menos piegas. (Será?). É a idade (alguns diriam). As necessidades passam a ser diferentes (interrogação). 
  Não, eu sempre tive necessidades, mesmo negando tê-las. Elas se manifestavam nas vezes em que eu tinha que me forçar a não tocar a pele exposta de pessoas com os braços erguidos no metrô. Em todas as vezes que eu de fato forcei contato físico com desconhecidos, deixando minha mão escorregar no ferro do ônibus para tocar a de alguém, quando abri mais as pernas no assento, para encostá-la na da pessoa ao lado, nas vezes que coloquei o braço mais para a direita para ultrapassar a linha entre o meu espaço e o espaço do meu colega de sala... E poder dizer, foi sem querer. Dessa forma eu não tinha que admitir para ninguém que precisava de coisas que não podia ter, coisas que sou incapaz de me permitir sem abandonar o nível mínimo de conforto que mantenho. Assim eu podia continuar sendo a pessoa durona que muitos imaginavam. Sozinha por escolha. Ligeiramente autista.
   É um paradoxo. Mas já ouvi que sou paradoxal. Inteligente demais para ser tão burra.
  Nos meus piores momentos, quando duas forças dentro de mim se atraem e se repelem ao mesmo tempo, fazendo-me sentir como se estivessem rasgando a minha alma, eu penso em correr para esses braços que me aninham todas as noites, chorar nesse peito cujas pintas e pêlos eu conheço de cor, deixar que o cheiro de vida que vem desse corpo anestesie o processo magnético que destroça as minhas entranhas. 
   Mas a fantasia não é suficiente. De dia, especialmente, é tudo brutalmente real.
  Eu corro, buscando quem entenda, quem se importe, e não encontro ninguém. Não encontro nada além da fidelidade dos objetos cortantes.  Meu ser implora por contato físico, por um toque. O que está ao meu alcance, porém, é a sensação da pele se abrindo sob a pressão afiada da lâmina. 
  

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

perfeita?


   Outro dia desses sonhei que escrevia um post dizendo o quanto minha vida estava perfeita.

   Confesso que às vezes, quando me sinto bem, fico maquinando o post que vou escrever, enumerando todas minhas pequenas evoluções dos últimos dois anos*, porém boto mais fé na tristeza do que na felicidade. Ambos são sintomas passageiros na VIDA das pessoas, mas na minha vidinha a tristeza é mais fiel do que aquilo que chamo de alegria. Não ouso dizer que já me senti feliz. Estive contente muitas vezes. Amei pessoas, senti borboletas no estômago, vibrei quando o J'onn J'onzz voltou para a Liga da Justiça, e pizza sempre me deixa com uma sensação de esperança; felicidade me parece um pouco mais do que essas coisas.
   Contudo, os últimos meses têm sido de certa euforia.  Senti o click dentro de mim. Voltei a escrever, voltei a desenhar, voltei a amar certas pessoas, voltei a ter vaidade; ou seja, voltei a ser um ser humano (será?). 
   O problema é que eu sei que tudo isso é passageiro, e que no meu caso tende a passar tão rápido que chego a ficar tonta quando finalmente passa.

* Eu fui editar esse post, que se não me falha a memória, é de 2016, e ele ficou como se tivesse sido publicado em 11/09/2017. Esse post nunca foi finalizado e não sei porque acabou publicado, em primeiro lugar. Ele é estranho, incompleto, mas gosto dele por algum motivo. Outdated but fuck it.