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segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

5 minutos

 Hoje me juraram de morte. Foi assim: uma bruxa-vidente viu a minha morte em seus sonhos, e veio me pedir que eu faça exames e cuide da minha saúde, pois quando ela sonha, acontece. Que belo alimento para a ansiedade de uma hipocondríaca! Uma hipocondríaca que se diz ateia, mas tem contestado isso intimamente um pouquinho a cada dia. Uma hipocondríaca que está sempre às voltas com a vida e a morte, querendo viver em um instante, e buscando a mais cruel das mortes em outro.

Mas ontem, ah, ontem foi um bom dia. Que dia bonito, sem pensar em morte ou deuses ou doenças. Um dia doce, traçando beijos em uma constelação de pintas, em veias de braços, e num rosto que visto bem de pertinho é ainda mais bonito. Sentindo um abraço tão bem encaixado que parecia ter sido feito sob medida (calma aí com a emoção, Cíntia!).
E depois, o uber em 5 minutos.
Quantos beijos cabem em 5 minutos? - eu perguntei. Ele riu e nos beijamos.
Mas não era uma pergunta retórica.
Cheguei em casa sentindo a vibração de lábios nos meus lábios e dormi o sono dos justos, não sem antes perguntar, repetidamente, para mim mesma: "quantos beijos cabem em 5 minutos?". Eu precisava usar isso numa poesia, aqui está. Mas, bem, dormi, e foi o sono de quem teve o que desejava há muito tempo.
E aí acordei com a sentença e a minha mente já começou a maquinar: quanto tempo eu tenho? Será que eu tenho tempo suficiente? Será que eu vou conseguir chegar onde eu quero, para justamente nesse momento, morrer? Morrer e cair no esquecimento, como a Thamires, que morreu e ninguém ligou, e eu mesma só descobri 1 ano e meio depois.
Para controlar a minha ansiedade, peguei um livro. Ele não consegue me prender, não consegue me tirar dos meus próprios pensamentos. A história está meio confusa, meio maçante, meio blasé. E eu não tenho apego pelo blasé.
Enquanto tento me concentrar no livro, atormentada pelos meus pensamentos, chega até mim o perfume de ontem, ele vem da minha camiseta da Janis Joplin que repousa ao meu lado. Perdendo as palavras da narrativa, sinto o cheiro que prova que aconteceu, e que eu quero sempre mais, mais e mais. Talvez eu não consiga lavar essa camiseta por algum tempo, vou deixá-la com o aroma de ontem, a mistura de kaiak, pele, desejo e sexo. Talvez minha seguidora-bruxa-vidente esteja certa e eu morra antes de ter tempo de lavá-la, ou antes de repetir o ontem.
Estava perdida em pensamentos, quando ouvi o tique-taque. Pousei o livro aberto para baixo. Fazia muito tempo que eu não ouvia o som tormentoso de um relógio. Há muito me desfiz de tais objetos que só servem para me afrontar. Mas agora ouvia, bem nítido, tique-taque, tique-taque, bem baixinho, tique-taque, mas perto. Quanto tempo eu tenho? Vai dar tempo? Meu deus! (pera lá, é só uma expressão, não uma anulação do ateísmo).
Avistei o relógio azul que ganhei dos meus irmãos. Ali estava, com seus ponteiros impiedosos, ligeiros, , fazendo meu coração perder o compasso, angustiando a minha alma. Findando as coisas.
Quantos beijos cabem em 5 minutos? Um longo beijo até ficar sem ar? 5 beijos de um minuto cada, cronometrado? Muitos e muitos beijinhos pelos lábios e pelo rosto todo? Um no ombro pra fechar?
... Em 5 minutos não cabe o suficiente de nada que valha alguma coisa. Vou de Cazuza: "você tem exatamente três mil horas pra parar de me beijar". Depois dobramos a meta.

Que a vidente esteja errada, que a vida tenha renovado meu contrato no dia 3, que ele me beije de novo e de novo e de novo.
Amém (uso fluido)

quarta-feira, 29 de maio de 2024

maio de 2014

Aviso de gatilho: dependência química 

Esse mês eu completei 10 anos sem cocaína. Nunca pensei que isso seria possível. Dá até medo de dizer isso, de "comemorar" isso, e um dia ter que admitir que voltei à estaca zero. É o meu lado ansioso falando, mas eu nunca descarto essa possibilidade, porque mesmo depois de 10 anos sem, continua sendo muito difícil resistir a tentação. Eu ainda sonho com cocaína, e acordo com a sensação de que usei. Acordo querendo mais. Ainda sinto o cheiro dela, feito um cão farejador, nos pontos de São Paulo onde eu comprava. Ainda sinto vontade de me entregar a ela nos meus piores dias. E não só a ela, mas às outras drogas que usava na época, e que em conjunto, me davam o amortecimento que eu precisava para viver, mas que ao mesmo tempo me destruíam. Eu sentia ela agindo no meu corpo, me matando aos poucos, me fazendo vomitar sangue, mas eu não conseguia e nem queria parar aquilo. Sim, eu não queria. Eu queria a decadência e a dor que ela me trazia. Eu não sei porque sou assim, não sei porque vejo beleza na decadência, mas sempre vi e ainda vejo. A decadência me atrai como uma lâmpada atrai mariposas. Não ser tão decadente é uma escolha diária, desde que em um dia de maio de 2014, assim do nada, eu disse "chega". E me mantenho "limpa", apesar das amarguras da vida. Apesar da atração pela decadência. Apesar da necessidade, que não é só psicológica, mas também física. 
Nem eu entendo de fato o que me fez parar e resistir todos esses anos, porque tenho poucos motivos palpáveis para ficar sóbria. Talvez seja o fato de que com o tempo, ela foi fazendo menos e menos efeito "positivo" e passou a me proporcionar apenas os desprazeres. Ou talvez seja porque eu não gostava de mim quando usava cocaína. Eu me tornei uma pessoa irresponsável e mentirosa. Eu vivia uma vida dupla, tripla, sempre tinha que cobrir meus rastros, inventar mentiras que nem importavam de verdade, mas que dentro da minha paranóia crescente, eram necessárias. 
Os danos que a cocaína causou na minha vida continuam firmes e fortes depois de mais de 10 anos. Acredito piamente que muitos dos meus problemas de saúde física e mental atuais se devem ao período de uso de cocaína, álcool (que consumiu ainda mais a minha vida do que a cocaína) e outras drogas. Mas o pior pra mim são os danos morais. Eu tive que fazer coisas humilhantes para manter esse vício. Muitas coisas eu não gosto nem de relembrar e que provavelmente nunca vou contar para ninguém.
Esses dias meu irmão descobriu uma mentira que contei para ele lá atrás, para encobrir o uso de drogas, e ficou com tanta raiva de mim, que seu rosto ficou vermelho. Eu vi o olhar de decepção e até repulsa dele e me senti péssima. Me senti como se tivesse cometido tal falta ontem. Constantemente tenho que me desculpar por coisas que fiz mais de 10 anos atrás.
A raiva dele foi como ser punida por algo que não fui eu que fiz, porque de muitas formas, eu não sou mais a Cíntia que mentiu pra ele. Eu sou uma pessoa completamente diferente da Cíntia de 21 anos. De 24 anos. Mas isso não apaga o erro...
Depois desse episódio com ele, fiquei pensando em quão pouco minha família me conhece, inclusive meus irmãos, que eu amo e considero próximos. Eu tive que mentir tanto, esconder tanto, que me tornei uma desconhecida para quem estava mais perto de mim. Acho que quem me lê aqui, conhece mais de mim e do meu passado do que quem viveu o passado comigo.
Hoje tenho a Júlia na minha vida e penso muito nela, em quem eu vou ser pra ela, no exemplo que eu vou dar, e isso me impede de me entregar aos meus pensamentos mais decadentes e autodestrutivos (porque eu sempre fiz mais mal pra mim do que pros outros, mas às vezes o mal respinga).
Ela tem sido meu freio. Porém, nem sempre é o suficiente ser a tia que precisa dar exemplo. Muitas vezes eu só quero me entregar aos meus impulsos e necessidades destrutivas.
Mas é como dizia Renato Russo (e o NA): "só por hoje eu não vou me destruir"... E por 10 anos, tenho me preservado "por hoje", somando vários hojes. Estou o mais sóbria que já estive na vida. Parei de beber há bem menos tempo do que parei de cheirar, mas há um tempo significativo. Ando me sentindo até meio zen. Apesar dos pesares, parece que encontrei um pouco de paz. Só por hoje...

domingo, 31 de dezembro de 2023

mudança

No começo do ano eu disse que meu espírito estava pedindo por mudança. Mas como mudar? De tantas formas, mudança nunca foi algo fácil para mim. Eu já fui bem impulsiva, até mesmo destemida diante do perigo, mas essa impulsividade nunca produziu nenhuma mudança real na minha vida. Em questões práticas e necessárias para viver em sociedade, sempre me vi travada.
Hoje eu me vejo como uma pessoa muito mais cautelosa. Os anos e as pessoas me fizeram alguém medrosa. Até na minha autodestruição eu fiquei mais contida. E de repente, nada daquilo fazia sentido. A autodestruição, que antes me dava algum alívio, já não surtia efeito.
Eu precisava de uma mudança, meu espírito estava pedindo por isso, mas eu não sei como mudar. Qual direção tomar? Quais medidas? Quais ações? E eu caí num abismo, que foi desconhecer a mim mesma. Comecei a perceber que as coisas que eu gostava, já não gosto mais. Que o que antes era meta, deixou de ser. Que muito do que eu acreditava, já não acredito. Que as coisas com as quais me identicava, já não me identifico. Que muitas vezes digo que gosto de algo que gostava antes, só por hábito. Hoje eu conheço mais quem eu fui, do que quem eu sou.
E ninguém me conhece também. Não de verdade. As pessoas conhecem e buscam quem eu fui, não quem eu sou.
Do que eu gosto agora? Quem eu sou agora?
Como mudar, quando não sabemos quem somos e o que queremos?
Até que o universo impulsionou esse processo de mudança pra mim. De certa forma, as coisas foram se encaixando e funcionando a meu favor. Não estou dizendo que esse ano foi fácil, pelo contrário. Eu senti muita dor, física e emocional. Senti muita solidão. Mais do que eu pensei que pudesse suportar. Mas também ganhei algumas ferramentas e armas para tentar navegar pelo caos que sempre foi minha vida.
Primeiro, a natação, que é algo que eu gosto desde criança e não tinha acesso. Voltar para a natação depois de tantos anos, foi como reencontrar a Cíntia de 10 anos. Em alguns aspectos, eu me vi muito similar a ela, mas em outros, muito diferente. Eu achei que ela sentiria orgulho de saber que nós não temos vergonha do nosso corpo mais e que estamos finalmente construindo uma relação mais saudável com comida. Apesar dos muitos desafios envolvidos em fazer aulas de natação, tive muitos momentos de paz e contentamento dentro da água esse ano. E espero levar isso para 2024.
Depois consegui uma psicóloga muito boa e empática, com a ajuda de um amigo, e na sequência uma psiquiatra especialista em neurodiversidade, com a ajuda de uma seguidora gorda e autista, e embarquei num processo de olhar pro meu passado e pros meus diagnósticos até aquele momento de uma forma diferente. Há muito tempo eu sentia que meus diagnósticos dos último 10 anos não contemplavam minhas vivências e minhas dificuldades diante do mundo. Eu sentia que não era o suficiente para explicar minhas necessidades de suporte. A psiquiatria vai avançando, e com isso mudam definições e conceitos. Aos poucos, quem não era visto e nem validado, começa a ser. Poucas vezes tive um acolhimento psicológico e psiquiátrico realmente humano. Poucas vezes me senti vista em consultórios de saúde mental. Com essas duas profissionais atuais, eu senti que fui vista e validada. Viram além da tristeza, além das cicatrizes, além até mesmo dos abusos. Olharam e me ajudaram a olhar pra minha vida toda, desde quando eu era bebê. Eu descobri coisas (com a ajuda da minha mãe, que respondeu questionários) sobre a minha primeira infância que não fazia idéia e que elucidaram muitas questões do passado e do presente. Que levaram a novos diagnósticos, que podem me garantir o suporte que eu preciso para talvez conseguir mudar de forma mais substancial.
Receber diagnósticos corretos depois de tantos anos de luta pela minha saúde mental foi positivo, mas não posso dizer que foi fácil desapegar de diagnósticos que carreguei por mais de 10 anos, mesmo que com eles eu carregasse muita marginalização e negligência. Era o que eu sabia. Eu passei anos lendo e estudando sobre aquilo. Agora eu estou num campo semi-desconhecido. Ainda estou digerindo tudo que está atrelado a isso, inclusive as possibilidades que me foram negadas com um diagnóstico errado por boa parte da minha vida. Eu poderia ser outra pessoa se tivesse tido o tratamento adequado. O que ainda é possível salvar disso?
Esse ano eu fiquei bem introspectiva, mais do que o normal, e guardei muito de mim para mim mesma.  Eu sempre olhei muito para o meu passado, o expus, mas sempre com rancor, às vezes até de mim mesma. Nunca consegui me acolher muito bem. Com a minha psicóloga atual, eu estou conseguindo olhar para o passado, para as diversas Cíntias que fui, com acolhimento. Quando não sou capaz de dar esse acolhimento, minha psicóloga acolhe as Cíntias do passado e a Cíntia do presente, sentada ali na sua frente.
Acho que nunca estive tão aberta para o tratamento psiquiátrico e psicológico como estou nesse momento, e minha cabeça também está mais clara com as medicações e as intervenções terapêuticas agora que não consumo nenhum tipo de droga (nem mesmo álcool) e não estou sendo dopada com remédios ineficientes para o meu caso. É algo totalmente diferente do que vivenciei até aqui, fazendo tratamento desde os meus 15 anos. Isso é mudança, certo?
Depois de receber os novos diagnósticos, sobre os quais ainda não me sinto confortável para aprofundar muito, fui conversar com a minha psiquiatra anterior à atual, que me acompanhou antes da pandemia. Eu gostava muito dela e nos tornamos amigas quando o sistema nos separou enquanto paciente e profissional. Falei para ela sobre esses novos diagnósticos e pedi a opinião informal dela, como alguém que sabe da minha história e me acompanhou, mesmo que por pouco tempo. Ela deu sua opinião, mas o que me marcou foi quando ela disse que tudo que eu passei na infância foi enlouquecedor. E que eu enlouqueci, mas os livros me salvaram, de alguma forma, e a minha loucura ficou contida dentro de uma intelectualidade. Eu senti essas palavras. Acho que foi um misto dessa reflexão com o efeito dos remédios, mas depois disso eu recuperei o apetite pela leitura de uma forma que não conseguia há anos. Consegui ler diversos livros depois desse processo e dessa conversa. Voltei a me envolver com as histórias que leio, voltei a sentir aquela ansiedade boa para saber o que acontece a cada virada de página, voltei a ficar tão imersa nas páginas, que os problemas somem. Comecei até a me desesperar um pouco por todo o tempo que perdi, que deixei de ler. Eu fiquei e estou muito contente por voltar a me sentir assim sobre livros.
Por fim, no último minuto do segundo tempo, veio a maior mudança desse ano: a mudança forçada de casa. Fui despejada injustamente de onde morava e em menos de 20 dias, completamente sozinha, tive que encontrar uma nova casa, encaixotar tudo, encontrar prestadores de serviço, limpar tudo,  fazer a mudança e agora termino 2023 tentando finalizar essa mudança. Tentando colocar tudo no lugar, zerar as caixas.
Quando eu recebi o despejo, tentei não me desesperar. Eu já queria mudar de lá, por vários motivos, mas tinha medo. Medo de ir pra outro lugar, de ter que me adaptar a outro lugar, de desapegar de um espaço no qual vivi momentos que nunca mais irei viver, com alguém que amei muito. Medo de ter que conhecer novas ruas. Andar por novas ruas. Conhecer novos vizinhos. Eu iria adiar essa mudança o máximo, pelo medo. Mas a vida se encarregou de me forçar a mudar, porque eu precisava disso. Dizem que há males que vêm para o bem, não? Dessa vez essa frase pareceu verdade. Eu encontrei uma casa muito melhor, que parece ter sido feita para mim, e com toda correria, deu certo.  Eu tinha outros planos para esse fim de ano, para o natal, ano novo e meu aniversário, mas se não fosse isso, se eu esperasse, provavelmente perderia a oportunidade de estar nessa casa que acredito que me fará muito bem.
Eu não fui tudo que queria ser em 2023, mas fui o que deu pra ser. 



segunda-feira, 25 de setembro de 2023

confissão

aviso de gatilho: descrições fortes envolvendo pedofilia e comportamento autolesivo, menções a insetos 

Sonhei com o meu tio. Ultimamente eu tenho vivido mais em sonhos e pesadelos do que na realidade (será que essa é mesmo a realidade?). Eu estava na casa onde tudo aconteceu, lá em Ferraz, e ele estava atrás de mim, com um lado do corpo podre. A cara dele estava diferente, mas eu sabia que era ele. Eu estava fugindo dele. Tinha uma multidão atrás dele, e de forma aleatória, o meu atual professor de natação estava bem ao lado dele. As pessoas tentavam me forçar a parar de fugir, a ser receptiva. A ser educada.
...
Era assim que faziam quando eu era criança. Às vezes eu tentava evitar ficar sozinha com o meu tio, porque sabia que ele faria coisas que eu não entendia, mas que me deixavam desconfortável, e me diziam, de forma impaciente: "vai lá ficar com o Andy". Como se eu fosse um estorvo que cabia a ele cuidar. O papel dele era cuidar de mim. Minha mãe pensava que ele estava cuidando de mim, enquanto ele me fazia tocá-lo por baixo das cobertas, ao lado dos meus irmãos, que assistiam TV sem saber o que estava acontecendo. Minha avó pensava que ele estava cuidando de mim, no cômodo ao lado, enquanto ele abaixava a minha calcinha e me fazia sentar no colo dele. Meu avô pensava que meu tio estava cuidando de mim, enquanto ele colocava açúcar na cabeça do próprio pau e me fazia lamber. Meu pai não sabia se tinha alguém cuidando de mim ou não, enquanto eu engasgava, enojada, no ato.

Tem dias que eu esqueço que o meu tio morreu. Faz mais de um ano que ele morreu engasgado com um pedaço de pizza, mas como eu previ, ele continua vivo de forma nítida dentro de mim. A morte dele não resolveu nada. Ele nunca morre dentro das minhas memórias e dos meus sonhos que viram pesadelos. Dentro da minha solidão e desesperança. Dentro da minha RAIVA. Dentro do meu medo de que façam algo assim com a Júlia. Ele está vivo no meu corpo moído de dor e cansaço.
Eu lembro da voz dele, da textura dele, lembro do cheiro dele: o cheiro de cachaça que eu também tive em mim por muito tempo e que agora não suporto sentir nos bêbados imundos da cidade.
Tenho tido memórias sensoriais da minha infância. São quase delírios. Sinto esse cheiro de sujeira velha misturado com pinga dentro do meu nariz. Estou sentindo agora mesmo. Sinto os insetos rastejando sob a minha pele, como quando me trancavam no porão e riam do meu desespero. Sinto diariamente dores pelo meu corpo, como se eu tivesse levado uma surra de cinto. Me sinto fora do meu corpo, tentando me agarrar a realidade.
Acho que me debati tanto enquanto fugia dele no meu sonho, que acordei com o corpo todo dolorido (mais do que o habitual), e ironicamente, quando sentei para escrever esse texto, senti algo subindo pela minha perna e quando olhei para baixo tinha uma barata em mim. Não era um delírio, era uma barata bem real e grande, esfregando suas patas imundas na minha pele. Antes eu choraria e gritaria, mas estou me sentindo tão cansada, que nem uma barata subindo pela minha perna me provoca grandes reações.
....
Depois que meu tio morreu, minha mãe me procurou diversas vezes para lamentar a morte dele. Ele era o irmão preferido dela, o irmão caçula, o irmão que ela fazia de boneca, colocando-lhe vestidos. Não contente em anular a minha dor ao ter me tirado de mentirosa por metade da minha vida, mesmo após a morte dele, ela achou que eu seria a pessoa certa para lhe oferecer consolo pela perda de seu irmão, meu abusador. Eu via as lágrimas presas nos olhos dela, mas não sentia nenhuma pena ou empatia e não dizia uma só palavra enquanto ela falava com amor e saudade dele. Diante da minha mãe eu sou muito diferente da pessoa que muitos conhecem. Eu volto a ser a criança sem voz que um dia fui. Não é medo. Eu não sei o que é, mas sei que não é medo.
Pedi para meu irmão intervir e mandar ela parar de falar sobre ele comigo. Até incentivei que ela procurasse um psicólogo, mas ela insistia em me procurar para dizer o quanto estava abalada e deprimida pela morte dele.
Um dia, cerca de um ano atrás, estávamos em pé na porta da minha casa, eu estava esperando ela finalmente ir embora, quando ela soltou, de forma quase casual, que tinha um arrependimento muito grande: ela abusou dos irmãos mais novos quando ela era adolescente. Eles tinham 5, 6 anos e ela os fazia transar com menininhas que também tinham 5, 6 anos, para ela assistir e se satisfazer.
Enquanto ela me dizia aquilo, eu senti as minhas pernas ficando bambas e só a encarei, enquanto uma lágrima única, contínua, escorreu pelo meu rosto. Eu sabia que meu rosto não tinha expressão além da lágrima que caía. Eu não disse uma palavra, chorei em silêncio, como a Cíntia de 6 anos, mas fui tomada de sentimentos arrebatadores. Raiva, nojo, indignação. Foi como se a morte do meu tio tivesse fechado uma porta, e ela estivesse abrindo outra na bicuda. Eu constatei que essa ferida nunca vai cicatrizar. Eu vou sangrar para sempre pelo que me fizeram, pois toda vez que coloco um band-aid sobre a ferida, alguém a pressiona com violência e a deixa maior. Tem sempre uma nova revelação, uma nova compreensão, uma nova virada. Eu queria conseguir não pensar nisso, nunca mais falar sobre isso, nem na terapia e nem fora dela, mas é algo que foge ao meu controle. Eu sonho com isso. Eu lembro disso. Eu vejo casos iguais ao meu todos os dias. Às vezes, quando estou no meio do ato sexual, eu começo a dissociar e sinto como se fosse meu tio com a língua enfiada entre as minhas pernas e me sinto suja, angustiada, perco o foco e o tesão. Poucas vezes na vida consegui gozar com alguém. O que eu vivi me castra, me isola, me impede de ser tocada por quem eu amo sem ser levada para um quarto escuro e fétido, cheio de culpa.
Quando minha mãe foi embora, constrangida diante do meu silêncio, eu chorei lágrimas que eu nem sabia que ainda existiam dentro de mim. Chorei de soluçar, por mim e por todas as vítimas dela e pelas possíveis vítimas das vítimas dela e assim por diante.
Nos últimos anos, eu culpei a minha mãe pelo que me aconteceu, por ela ter sido negligente, "por não ter percebido" quando meu tio fazia determinadas coisas tão abertamente, quando ela estava no quarto (de costas). Mas aquela informação acrescentava um grau de culpa direto: ela desencadeou a perversão dos meus tios, que fizeram comigo e meus irmãos o mesmo que ela fez com eles. Afinal, se abusaram de mim de todas as formas, também abusaram dos meus irmãos transando com mulheres na frente deles quando eles eram crianças, algo que foi instigado lá atrás, pela minha mãe. Pensei em todas as crianças que ela usou e feriu, em quantas meninas sofreram como eu sofri e sofro, pelos atos dela. Mas o pior foi pensar: e se ela percebeu o que meu tio fazia comigo? E se isso a excitava?
O que ela queria com essa confissão? Era uma forma de mostrar arrependimento e de me dizer que acreditava em mim? Ela queria o meu perdão? Era só sobre a dor dela, de ter fodido a vida do próprio irmão, que se tornou um pervertido, alcoólatra, cheirador de pó, que ficou anos se arrastando pela vida, depois de várias overdoses e complicações de saúde em função da vida que levava?
A minha mãe também sofreu assédio de um tio dela, o que ela me contou e o que sempre me revoltou, pois para mim era inconcebível ela ter passado por uma coisa e não acreditar quando eu relatei ter sofrido algo similar. E eu sei que assim como eu e meus irmãos, ela foi exposta a pornografia desde a infância e se tornou viciada nisso muito cedo. Mas perpetuar isso foi uma escolha. Ter colocado meus irmãos e eu para assistir pornografia quando éramos crianças foi uma escolha. As vezes que ela transou na minha frente, foi uma escolha.
Assim como os meus tios terem abusado de mim e dos meus irmãos após serem abusados por ela, foi uma escolha deles. Minha família está presa num ciclo de violência muito forte, que foi se estabelecendo geração após geração. Isso explica as coisas, mas não justifica nada. Eu não consigo sentir pena ou perdoar meus tios. Não consigo sentir pena ou perdoar o que a minha mãe fez e as possíveis repercussões que os atos dela tiveram na vida das crianças que ela abusou. Nas repercuções que isso teve na minha vida. Eu não queria essa informação. Eu não queria que ela tivesse me contado isso. Não queria ter essa imagem na minha cabeça, nem o medo de ela fazer isso com a minha sobrinha ou meus futuros sobrinhos. Não sei que tipo de relação eu posso ter com ela depois de todas as coisas que aconteceram.
E eu não sei que tipo de vida ainda é possível para mim, depois de tudo o que me fizeram. Eu tenho me sentido como se a minha vida estivesse acabando e eu tivesse perdido todas as possibilidades lá no começo de tudo. Me sinto tão cansada e injustiçada. Tão sozinha.
No meu sonho, o meu professor de natação, após compreender porque eu estava fugindo do meu tio, me ajudava a escapar dele e me acolhia em um abraço. Eu estou tão sozinha e sem referências de afeto, que o mais próximo disso que a minha mente consegue fantasiar é um homem que eu vejo alguns dias na semana e troca poucas palavras comigo. Que me oferece um sorriso e um aceno de longe e que me cumprimenta e me elogia por ter conseguido fazer uma aula apesar das minhas dores e da depressão...
Esse é o máximo de socialização que tenho há algum tempo.
Eu me sinto tão sozinha e desesperada pela falta de afeto provocada por uma vida de abusos, que meu impulso é gritar loucamente e me bater contra a parede, mas o meu corpo está tão cansado depois de toda essa violência ancestral e energia gasta em mecanismos de defesa, que nem a autoagressão é uma possibilidade.
Muitas vezes eu fantasio com alguém me abraçando e me tocando com gentileza para amenizar as dores do meu corpo. Outras vezes, pela impossibilidade do afeto,  eu fantasio com alguém me cortando com uma gilete para me fazer sentir esse alívio que eu sozinha não consigo provocar, porque meu corpo está completamente paralisado numa cama.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

cinco e meia

Nunca mais bebi. Nunca mais me cortei. Nunca mais fiz nada de ruim e nem de bom contra mim mesma. Mas eu sinto a vontade. Eu sinto essa energia dentro de mim sempre exigindo o estrago.
Estática, assisto cenas monstruosas rodando na minha cabeça. Eu poderia me queimar, como antes. Eu poderia enfiar uma faca no meu coração. Eu poderia me jogar na frente de um trem. 
... Moro ao lado da estação de trem. Cinco e meia já tem trem rodando...
Eu sinto falta das marcas de cortes pelo meu corpo, da lâmina dançando sobre a minha pele, deixando os rastros de sangue. Eu sinto falta do vermelho espesso.
Eu sinto falta de ir ao pronto socorro e ser cuidada por alguns minutos, enquanto me costuram. Sinto falta das mãos em mim e do cheiro de hospital.
Um diazepam, ou dois ou três, tem 10?
Minha psicóloga me disse para conversar com alguém quando eu sentisse vontade de me machucar. Eu disse pra ela: não tem ninguém. Não sobrou ninguém... Ninguém mais aguenta me ouvir chorar a ausência dele.
Ela me disse: "então escreve".
Eu não deveria precisar de incentivo e nem de desculpas para escrever...
Cinco e trinta e cinco.
Olha quantas linhas eu escrevi. Olha quanto sangue.
Eu queria estar dormindo, envolta no nada, como as pessoas saudáveis. Como ele dormia, depois de uma briga.
..........
Tenho um monte de rascunhos de poemas escondidos desde que voltei com ele. Um monte de ideias enchendo minha cabeça. Faz tanto tempo que terminei com ele. Um ano e dois meses. Nunca mais fiz nada de bom por mim mesma...
Nem sequer gozei. Não de verdade. É como uma faísca riscando brevemente o escuro e apagando logo em seguida. Depois as lágrimas caem como uma tempestade e meus soluços ecoam no silêncio da madrugada feito trovões... Eu fico até enjoada de tanto chorar. 3 dramins e um gole de água.
Quando o conheci, não conseguia atingir o orgasmo acompanhada. Agora não consigo gozar nem sozinha. A única coisa molhada em mim são meus olhos, chorando 3 vezes por dia, como se esse fosse o remédio. Um ano e dois meses de lágrimas.
Imagino ele gozando com outra, enfiado entre outras pernas dizendo "eu te amo", como costumava me dizer. E eu acreditava. Eu queria acreditar...
... Quando ele me dizia que só comigo era daquele jeito. Que só eu fazia ele rosnar feito um cachorro. Eu acreditava. Eu queria acreditar.......
Mesmo quando ele se contradizia sem querer 
Me fodendo por trás, ele puxava meus cabelos e perguntava: "você me ama?" e eu respondia sem hesitar: "eu te amo demais".
Agora ele faz isso com ela. Não só com ela, mas com Virgínias e Brunas e Isabelles e Bárbaras e Helenas e com Maysas também. Sempre tem alguém, sempre tem uma substituta para a substituta.
Mais um dramin.
..........
Meus dedos costumavam deslizar tão facilmente, era como se tivesse um pote de mel entre as minhas pernas. Agora é como se eu carregasse o deserto do Saara em mim. É tudo árido.
Minha buceta está seca. Meu útero está secando. Meu corpo está murchando, especialmente meus seios. Minha alma está morrendo...
Cinco e quarenta e nove...
Minha vida gira em torno dele desde o dia em que o conheci, quase 4 anos atrás. Ele entrou em mim pelos meus olhos. Eu o vi e soube que o queria comigo para sempre. Ele chegou como quem não quer nada (o que ele queria era me comer, me disse um dia, depois de já ter comido até enjoar) e foi ocupando todos os espaços em mim. Se instalou no meu cérebro, invadiu meu coração, andou sob a minha pele, de ponta a ponta, correu pelas minhas veias, encheu os meus pulmões: hoje eu respiro ele. Ele rompeu minhas cordas vocais. Ele cegou os olhos que o acolheram. Não sobrou nada pra mim dentro de mim. É tudo dominado por sua vontade (ou falta dela).
Eu tenho tantas ideias na minha cabeça, mas tudo se resume a ele. Então não escrevo como antes. Escrever significa me humilhar um pouco mais, inflar ainda mais o ego dele. Eu busco a aprovação dele em cada linha.
Hoje eu sou como uma boneca esquecida num canto, como uma boneca que não tem mais graça, uma boneca sem vida, porque ele tomou minha vida. Ninguém viu e ninguém sabe. O tempo passa por mim, embranquece meus cabelos, endurece meu olhar ... novamente. Não sinto emoções fora das lembranças de cada momento dele em mim; no começo era tão doce... Ele usava as palavras mais bonitas, com sua voz aveludada. Ele dizia exatamente o que eu queria ouvir. No fim sobraram as palavras mais duras, na voz mais áspera.
Seis e vinte e três.
Não, no fim o que sobrou foi o silêncio.
De dia ou de madrugada, faz um silêncio cruel dentro de mim. 
Eu estou morrendo em silêncio...

segunda-feira, 3 de abril de 2023

terminal

Esses dias eu ouvi uma menina dizer: "eu não sinto vontade de viver", e sua mãe indagar: "tá, mas POR QUE você não sente vontade de viver? Tem muita gente lutando para viver!"

E esse diálogo me chocou. Bateu forte. Foi além do clássico "tem gente sofrendo mais do que você". Naquele momento eu lembrei que existem pessoas que lutam contra a morte porque amam a vida. Eu pude visualizar pessoas em hospitais e em sarjetas, lutando contra a morte, não por instinto ou por medo, mas porque realmente amam a vida e querem continuar *vivendo*. Eu tinha esquecido que é possível amar viver. Eu tinha esquecido que nem todo mundo apenas sobrevive. Que nem todo mundo pensa que seria melhor morrer.
Imaginando essas pessoas que lutam para viver porque AMAM viver, eu me senti tão INADEQUADA nesse mundo. Eu não sinto vontade de viver. Eu não amo viver. Nunca amei, nem quando criança. Eu sinto desespero ao acordar para mais um dia. Eu penso que essa vida não tem nada para me oferecer. Nenhum prazer momentâneo compensa a agonia que é VIVER.
Mas hoje me ocorreu que embora eu não ame viver ou sequer sinta vontade, eu TAMBÉM estou lutando para continuar viva. Eu também tenho algum apego à vida, e o motivo ficou bem claro com uma frase do Kafka que caiu no meu colo: "ele tem muito medo de morrer porque ainda não viveu".
Eu li essa frase e chorei.
Essa minha luta pela vida é apenas isso. Muitas vezes profissionais de saúde mental me disseram, e eu sempre soube: eu ainda não vivi, eu apenas sobrevivi a toda a violência que me impuseram.
Talvez a minha relação com a vida seja a minha relação mais tóxica. Eu a odeio, mas não consigo largá-la. Eu até tentei, mas falhei, então só me resta seguir com ela.
Por anos eu tenho lutado pela minha sanidade e pela minha vida, escorada na expectativa de que A VIDA pode me trazer algo de bom se eu ficar. Que eu vou perder oportunidades de viver e me sentir feliz se não estiver mais aqui. Eu tenho me apegado a essa promessa de dias melhores.
...
O tempo foi passando e nada do que eu esperava e queria aconteceu. Pelo contrário, a vida me trouxe mais tragédias, mais violência, mais dor do que eu poderia imaginar. Quando eu penso que não pode ficar pior, fica.
Faz muito tempo que eu estou indo de mal a pior. Faz muito tempo que eu tenho sofrido com falta de apetite. Faz muito tempo que eu fico dias seguidos sem conseguir comer. Faz muito tempo que eu tenho perdido peso sem querer, sem tentar. Faz tempo que meus cabelos estão caindo, que me sinto enjoada, que meu corpo está fraco e ferido, que eu sinto dores a ponto de querer gritar. Faz tempo que não me reconheço no espelho. Faz tempo que eu não me toco e nem sou tocada, faz tempo que não sinto prazer em nada que eu gostava. Faz tempo que não consigo dormir, faz tempo que acordo chorando no meio da madrugada. Faz tempo que eu perco o fôlego de tanto chorar ao longo do dia, no meio de multidões. Faz muito tempo que vocês me assistem morrer... Porque a sensação que eu tenho é que estou morrendo, definhando, apagando, murchando. Faz muito tempo também que busco ajuda, que tento melhorar e me esforço todos os dias para recomeçar. Eu tenho lutado. Luto para viver, independente dos meus sentimentos pela minha vida. 
Mas ninguém entende de verdade. Ninguém realmente reconhece meus esforços. Eu vi muita gente fazer chacota da minha dor, da minha falta de apetite, da minha insatisfação por estar perdendo peso e pelo meu corpo estar mudando contra a minha vontade. Eu vejo o olhar das pessoas. Minimizam minhas queixas ou duvidam de tudo que eu digo. Me fazem sentir louca a ponto de eu ficar me medindo e me pesando de maneira neurótica para me validar, para ter certeza de que o que eu vejo é real, porque a balança e a fita métrica não mentem.

Não me acham digna e nem me dão validação. Mas eu, que não amo a vida, estou lutando para VIVER, tanto quanto qualquer pessoa que a ama.

sábado, 25 de março de 2023

esperança

Há algum tempo, todo meu ser tem pedido por um recomeço. Tantas coisas mudaram na minha vida de uns 2 anos pra cá. Minhas opiniões, minhas vontades, o que eu gosto ou não gosto. Com quem eu caminho. Vários ciclos se encerraram recentemente, mas posso dizer que eles mataram pedaços importantes de mim no processo. Agora eu me vejo um tanto perdida até sobre quem eu sou. Tenho sido inundada por tristeza e auto-dúvida. Sempre tive tristeza em mim, mas no último ano eu cheguei num lugar muito ruim. Num lugar escuro, sufocante e miserável. Sem esperanças. É um tipo de desgaste que ultrapassa o psicológico e afeta o físico. Quem me acompanha sabe que além da depressão, eu estou  fisicamente doente.  Vivo meus dias com dores físicas, enjoo, fraqueza. Meus cabelos caíram. Tenho me sentido derrotada e pouco interessante ou atraente.
Mas no meu pior momento, como se fosse uma janela se abrindo no meio da escuridão, surgiram oportunidades. O universo me trouxe, através do auxílio de algumas pessoas, a chance de realizar coisas que sempre quis realizar e por algum motivo não pude.
Uma dessas coisas foi a Libras, outra é a natação, que comecei hoje graças aos meus irmãos. Como já falei antes, eu fiz natação na minha infância e sempre foi algo que gostei muito, mas era inacessível pra mim! Ter a possibilidade de voltar a nadar nesse momento, me encheu de esperança. Não só essa atividade pode me distrair da tristeza dos meus dias, ela certamente vai me ajudar muito em relação às dores físicas que sinto e até na minha reconstrução de autoconfiança e autoestima.
...
Acho impossível fazer natação hoje e não pensar na Cíntia de 10, 11 anos fazendo natação. Foi como dois universos convergindo. Somos a mesma pessoa, mas ao mesmo tempo somos completamente diferentes. Eu e ela estivemos juntas o tempo todo, e nesse reinício, mais do que nunca. Hoje eu não olhei para aquela Cíntia com rancor, mesmo com as muitas lembranças negativas. Eu senti muito orgulho da nossa evolução, apesar das ruínas por onde temos caminhado.
A Cíntia de 10 anos foi colocada na natação para emagrecer. Ela chegava na academia vomitando puro óleo após mais um episódio secreto de compulsão alimentar. Ela tinha vergonha de usar maiô e de se movimentar na frente das pessoas. Ela tomava banho usando maiô e depois se escondia numa cabine para passar o "gel redutor de gordura" que sua mãe lhe deu e depois se vestir. Ela sentia seu corpo queimar, mas aguentava, porque diziam que ela tinha que sofrer para ser "magra e bonita".
A Cíntia de 11 anos olhava para uma moça mais gorda do que ela na turma de natação e morria de medo de ser "tão gorda assim"...!
.....…....
A Cíntia de 33 anos é a gorda que a Cíntia de 11 anos tinha medo de se tornar. Ainda assim, ela não voltou para a natação para emagrecer. Essa Cíntia usa maiô e se sente gostosa com ele. A Cíntia de 33 anos curte cada segundo dentro da água, se movimenta sem se preocupar com os olhares dos outros, ela impõe seus limites. Ela tem voz para tirar dúvidas e ter um melhor aproveitamento, ela toma banho nua e se seca na frente de outras mulheres. Ela não se sente mal por ser vista sem roupa.
Talvez a Cíntia de 33 seja a figura adulta que a Cíntia de 11 um dia precisou e não teve...
...
Hoje foi incrível, apesar do cansaço. Depois de muitos meses parada numa cama, hoje fiz duas aulas de natação seguidas. Movimentei meu corpo fazendo algo que eu amo. Me senti viva, me senti gente. O movimento do meu corpo junto com o movimento da água me revigorou! Nesse momento eu sinto mais esperança do que tristeza.

E isso é alguma coisa ❤️

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Juventude sugada: recortes e padrões das relações entre adolescentes e pessoas adultas

(aviso de gatilhos: menções a solidão da pessoa gorda, pedofilia, violência sexual, violência psicológica, violência física)

Nota: os cards complementam o texto!


Eu fui uma pré-adolescente sonhadora, carente, com uma sexualidade precocemente aflorada... e sem supervisão ou direcionamento. 
Talvez por influência das novelas que eu assistia compulsivamente, eu sempre quis amor. Queria namorar. Sendo uma menina gorda, isso parecia muito distante para mim. Enquanto eu via minhas colegas magras ficando e namorando meninos da nossa faixa etária (literalmente via, porque eu era a ponte para que isso acontecesse sem que suas mães descobrissem, cedendo minha casa e minha vigilância), trocando cartinhas (às vezes escritas por mim) e sendo levadas a encontros em parques de diversões, eu era assediada por homens tão velhos quanto o meu avô e rejeitada por todos os meninos ao meu redor. Eu ainda não havia lidado com aquela vozinha na minha cabeça dizendo que eu também gostava de meninas, o que de qualquer forma não teria me trazido nada palpável, porque como aprendi mais tarde, meninas e mulheres rejeitam corpos gordos até mais do que muitos homens. Eu assistia minhas colegas beijando, assistia minhas novelas mexicanas e escrevia no meu diário, como um clichê ambulante, esperando que um dia chegasse a minha vez, mas temendo que isso nunca acontecesse.
Em todos os lugares, especialmente em casa, eu ouvia que se não emagrecesse, ninguém iria me querer além daqueles velhos que me diziam absurdos pelas ruas desde os meus 9 anos, o que me causava profundo nojo, mas fazia minha mãe rir.
Eu pensava que teria sorte se um dia fosse beijada. Eu tinha medo de morrer sem amor. De morrer virgem.
Até que descobri a internet. Muitos anos atrás, anonimato era basicamente uma regra da internet. Não era necessário confirmar nenhum dado, e quase ninguém tinha câmera para tirar fotos e postar. Não era realmente esperado que alguém mostrasse a verdadeira face. Podíamos ser qualquer pessoa. De repente era possível encontrar qualquer tipo de pessoa, com qualquer tipo de interesse.
E assim eu encontrei pessoas que "não ligavam" que eu fosse gorda e que eram  "interessantes" e "sensíveis". Pelo menos a princípio. Eu tinha 13 anos, e comecei a ter contato com pessoas, homens e mulheres, de 20 a 40 e poucos anos que me falavam de livros de poesia, música, paixão... E tesão. Começavam o papo com a poesia, logo estavam me chamando de "meu amor" e dizendo que eu era "muito madura pra minha idade", "muito interessante", e terminavam se tocando na frente da web cam para que eu assistisse (a pedido delas). Eu ficava apavorada, mas também instigada e sempre cedia a esse instinto. Muitas dessas pessoas nem "precisavam" que eu mostrasse também, bastava para eles me mostrar o que faziam, escondendo o rosto e narrando o que estavam pensando, enquanto eu me tocava e também descrevia meus movimentos, sensações e sentimentos. E deixo claro que não foram só homens: muitas mulheres mais velhas fizeram isso comigo. Com elas eu me sentia até mais a vontade para também ligar a web cam.
Provavelmente essas pessoas nunca mais pensaram em mim e nem se lembram que eu sequer existi algum dia, mas EU lembro nitidamente da maioria delas. Lembro sempre de uma dessas mulheres com quem eu conversava com frequência quando eu tinha 15 anos e ela mais de 40. Ela adorava se exibir nua para mim quando o marido dela saía para trabalhar. Adorava a possibilidade de ser pega fazendo isso.
Diferente de muitos adolescentes que desenvolveram compulsão por pornografia, eu não precisava nem entrar em sites pornô, pois tinha adultos gerando pornografia exclusivamente pra mim. Eu ficava no computador no meio da sala de casa, com 13, 14, 15 anos, fazendo sexo virtual com adultos, às vezes quase sendo pega também. E na hora eu me sentia bem, era fisicamente gostoso, mas depois me sentia suja, culpada, errada. Usada. Sentia nojo deles e de mim. Os impactos disso na minha vida foram exatamente iguais aos de vício em sites pornográficos. Por "covardia", eu não "consumei o ato" com nenhuma dessas pessoas, apesar de ter encontrado algumas delas, mas todas aquelas ocasiões, somadas aos abusos sexuais que sofri na infância, fizeram um estrago na minha percepção de sexo, amor e confiança que durou anos, e retardou bastante minhas primeiras experiências sexuais físicas, porque sexo para mim era algo sujo, ligado a culpa e medo. Eu não conseguia pensar em fazer sexo com alguém que eu realmente amasse, porque seria como sujar esses sentimentos.
E mesmo quando essas interações não tinham nenhuma abordagem sexual, eu vivi experiências bizarras e que poderiam ter acabado muito mal. Uma vez, quando eu tinha por volta de 13 anos, me apaixonei por um cara na casa dos 30 anos, que primeiro me convenceu, com galanteios e palavras doces, que estava apaixonado por mim e "não se importava" com o meu peso, e depois, usando da minha insegurança, tentou me convencer de que se EU não gostava de ser gorda, ele poderia me ajudar a emagrecer, porque "me amava" e queria me ver bem. A proposta dele? Que eu RETIRASSE alguns dos meus órgãos. Segundo ele, eu não precisava de todos para viver e a retirada de alguns me faria perder peso. Ele queria me indicar onde e como fazer isso. A princípio pensei que ele estava brincando, mas quando vi que era sério, cortei contato. Eu não era TÃO ingênua assim. Mas anos depois fiquei pensando que alguma garota talvez tenha sido ingênua e desesperada o suficiente para ter tentado esse "método", que com certeza nada mais era do que um golpe para venda de órgãos. 
Aos 15 anos eu me relacionei online com um cara de 21 anos, e quando terminei o "namoro", logo após nos conhecermos pessoalmente (encontro no qual ele me beijou a força), ele começou a me perseguir, a me difamar online e ameaçava, inclusive através de ligações, contar meus segredos para o meu pai. Essa perseguição durou uns 2 anos. Nenhum adulto ao meu redor tinha ideia de que essas coisas aconteciam na minha vida, e até hoje muita gente minimiza a gravidade e as consequências dessas situações, dizendo que nada disso foi "real", porque aconteceu "na internet". Uma pessoa adulta, homem ou mulher, se masturbar na frente de uma adolescente de 13 anos enquanto fala putaria, é violência sexual. Um adulto convencer uma adolescente de 13 anos a se masturbar na sua frente, é crime. Um adulto de 21 anos perseguir, difamar e ameaçar uma adolescente de 15 anos, é violência psicológica, é crime. São atos moralmente errados e ilegais, independente do lugar ou da maneira que aconteceram. Foi bem real para mim e teve efeitos duradouros na minha vida afetiva e sexual.
É claro que poderia ter sido muito pior. Eu poderia ter fugido de casa, poderia ter engravidado, apanhado, ter sido estuprada ou assassinada. Poderia ter me tornando de fato parte das estatísticas, e talvez ninguém ficasse sabendo o que aconteceu comigo.
Um adolescente "se relacionar" com uma pessoa adulta não é mais TÃO naturalizado quanto já foi um dia, mas ainda está muito longe de deixar de acontecer. Muitas pessoas jovens caem nas garras de pessoas adultas e sofrem violência psicológica, física e sexual, às vezes sem que ninguém saiba, mas outras vezes com aval dos pais e responsáveis das mesmas. Infelizmente não tem como PROIBIR uma pessoa de se relacionar com outra, nem mesmo um adolescente. Tentar proibir, muitas vezes até aumenta a vontade de estar naquela relação.
O que podemos tentar fazer é conscientizar esses jovens dos riscos que essas "relações" oferecem. Deixar aberto um canal de comunicação claro e livre de julgamentos. Eu realmente queria que adolescentes entendessem que quando nós, pessoas adultas, problematizamos elas se relacionarem com pessoas mais velhas, não é um ataque a elas e nem estamos sendo caretas ou conservadoras, estamos tentando alertá-las, zelar por elas, pois muitas vezes já sofremos na mesma situação. Infelizmente não é uma comunicação fácil. Eu mesma não teria ouvido ninguém na minha época de adolescente, ainda que tivesse alguém para cuidar de mim.  Eu sei que é muito sedutor ter 13, 14 anos e ouvir de uma pessoa adulta, especialmente quando a admiramos, que somos "maduras para a nossa idade", que somos "mais interessantes do que muitas pessoas adultas". É até gostosa a sensação de saber que alguém sente tesão por nós, e de sentir tesão também, afinal, estamos conhecendo nossos corpos. Mas isso tem seu peso e seu preço. Ter desejos aos 14, 15 anos, e estar pronto para bancar esses desejos, ainda mais com uma pessoa adulta com exigências e com experiência, são coisas diferentes.
Uma pessoa maior de idade que se relaciona com uma pessoa pré-adolescente ou adolescente, já está errada ou com más intenções desde o começo. Muitas vezes, a imatura é ela, por isso "não se garante" com pessoas da mesma idade e precisa conquistar pessoas mais jovens, que não perceberão isso. 
Só com o tempo e bastante terapia eu entendi os perigos que passei ao me expôr com 13, 14 anos, não só sexualmente, mas psicológica e fisicamente, revelando todos os meus segredos e me encontrando com pessoas adultas da internet. Só o tempo me fez admitir que fui ingênua, que fui usada como objeto de prazer e que não, eu não tinha maturidade para me relacionar com tais pessoas: não tinha como eu ter, pois estava começando a vida, e já vinha de um lugar ruim. É difícil para um adolescente admitir que não é extremamente maduro, que ainda não tem muita bagagem. Soa como uma ofensa, eu sei, mas não ser maduro na adolescência não é demérito, é uma parte natural do processo do ser humano. Nessa fase da vida estamos aprendendo a viver, até os nossos cérebros ainda estão em formação. Entender isso o quanto antes, ou aceitar os conselhos de quem passou pelo mesmo, pouparia muita dor e TRAUMA para o resto da vida, pois os relacionamentos que vivemos na adolescência nos marcam pra sempre, moldam como iremos nos relacionar no futuro...
E uma relação com uma pessoa bem mais velha SEMPRE vai ter um desnível de poder absurdo e por isso quase sempre vai "se tornar" abusiva e SEMPRE trará prejuízos emocionais. E isso nem se restringe às relações entre adolescentes e pessoas maiores de idade. Esse desnível de poder e potencial abusivo se estende a qualquer relação onde as pessoas tenham muita diferença de idade, seja uma pessoa de 15 com uma de 20 ou 30, seja uma pessoa de 25 com alguém de 40 ou 50. São fases bem diferentes da vida, marcadas por diferentes níveis de experiência e status social. 
É inegável que uma pessoa com menos experiência de vida está mais suscetível a ser manipulada por uma com mais experiência. E independente da quantidade de coisas que aconteçam no começo da vida de uma pessoa, tem coisas que só o tempo e um maior período de observação de mundo pode ensinar!
E isso se intensifica por questões financeiras, não só porque dinheiro garante acessos que geram experiência, mas porque com dinheiro é fácil levar  pessoas jovens à dependência financeira (seja por necessidades básicas ou ambição). Dinheiro é ferramenta de controle, e quanto mais uma pessoa tem, mais fácil é comandar vidas, perseguir pessoas.
Existem exceções, é claro, mas é muito mais provável uma pessoa mais velha ter estabilidade financeira do que uma mais nova. E mesmo quando a pessoa jovem pensa que ela também está usando e ganhando algo, ela está sendo mais usada e perdendo muito mais do que a pessoa mais velha.
É claro que *entre adultos* pode acontecer uma relação natural e saudável mesmo com uma grande diferença de idade. O amor pode nos surpreender. Mas são poucos os casos com a chamada "age gap" que não terminam em abusos e tragédias. Temos muitos mais exemplos negativos do que positivos, tanto na vida de pessoas anônimas, quanto na vida de pessoas públicas. Um caso brasileiro bem conhecido é o de Eloá, que em 2008 foi assassinada por seu então ex-namorado. Eloá tinha 15 anos e seu assassino tinha 22 anos. É muito fácil recordar de casos semelhantes envolvendo adolescentes e ex-namorados maiores de idade que cometeram tais crimes após o término do relacionamento.  
Recentemente Demi Lovato lançou a música "29", expondo sua experiência de ter se "relacionado", quando tinha 17 anos com um homem de 29 anos. Na letra ela reflete sobre como uma adolescente de 17 não é plenamente capaz de consentir a uma relação com essa diferença de idade e deixa claro o papel de PODER que ele exerceu em sua vida. Antes de Demi, esse mesmo homem já havia se "relacionado" com Mandy Moore quando ela tinha 15 anos e ele 20 (e depois inclusive espalhou que havia tirado a virgindade dela, como se isso fosse uma conquista) e com Lindsay Lohan, quando ela tinha 17 e ele 24.
O caso de Evan Rachel Wood é outro que nos mostra a realidade desse tipo de relação. Wood tinha 18 anos quando começou a se relacionar com Marilyn Manson, que tinha 37 anos. Há alguns anos ela tem exposto os abusos que sofreu, desde ser "marcada" (através de escarificação), distanciada de familiares, impedida de usar anticoncepcional, ser forçada a cozinhar após um aborto, a estupro. A vida e a carreira dela foram severamente afetadas por todas essas situações, e ainda assim o público prefere ficar ao lado de Manson.
Ao se relacionar com uma pessoa mais velha, além da diferença de idade e de níveis de experiência, tanto meninas quanto meninos, em diferentes graus e formas, ainda terão que lidar com o machismo de toda a sociedade. Enquanto meninas são culpabilizadas por essas "relações" e abusos, acusadas de "terem provocado" pessoas mais velhas, em especial, homens mais velhos, meninos terão os abusos sofridos anulados. Qualquer tentativa de expor abusos de cunho sexual, será silenciada pela percepção social de que meninos serem "sexualmente iniciados" por mulheres mais velhas é sorte. Meninos que sofrem abusos de homens e meninas que sofrem abusos de mulheres passam ainda pelas ideias preconceituosas, limitadas e estigmatizante de uma sociedade heteronormativa. Enquanto meninos abusados por mulheres têm sua "masculinidade" glorificada, meninos abusados por homens têm sua sexualidade questionada ou colocada como fator gerador de tal violência, fazendo com que poucos garotos nessa situação exponham os abusos sofridos.
Apesar dos recortes possíveis, quando a pessoa "mais jovem" (maior de idade) da vez é só "mais uma" numa longa lista, quando existe um padrão bem definido, e se relacionar com pessoas bem mais jovens é uma REGRA nas relações de uma pessoa mais velha, há de se pensar no porquê. Isso é nítido quando observamos homens ricos e poderosos, como por exemplo Leonardo DiCaprio e Johnny Depp, estampados pela grande mídia ostentando uma mulher mais jovem por ano. Ao observarmos a forma com que cada uma dessas mulheres é descartada e coletivamente exposta, torturada, reduzida a pó publicamente após o término. Quanto mais velhos eles ficam, mais jovens exigem que seus pares sejam, e embora "as escolhidas" sejam maiores de idade, sempre têm uma aparência e às vezes até uma "postura" de adolescente, deixando assim claro que a imagem que os atrai é essa, e o que os impede de se relacionar com adolescentes de fato não é a moral e sim o medo do cancelamento e das consequências legais. 
Muitas pessoas têm a juventude consumida como um produto por pessoas mais velhas. Essas pessoas sugam a juventude dos outros para se sentirem elas mesmas mais jovens e cada vez mais poderosas. Usam jovens como força braçal, como troféu, como objeto sexual ou como suporte afetivo para alimentar o próprio ego. E no fim, quando a pessoa já não é TÃO jovem, quando teve toda sua juventude retirada de si a força, ela é descartada. Trocada por uma pessoa MAIS jovem. Porque ninguém é jovem para sempre, e a ideia de juventude reforçada pela mídia dura tanto quanto um sopro.













quarta-feira, 23 de novembro de 2022

natalina

Fazia um bom tempo que eu não me animava a tirar o pó dos meus enfeites preferidos e montar uma árvore de natal.
Essa época costumava ser uma injeção de ânimo para mim, mesmo que isso tivesse suas limitações práticas e viesse com um prazo de validade. Eu amo coisas coloridas, vibrantes, que piscam. Amo rituais. Gostava muito de montar minhas próprias árvores (uma no quarto e uma na sala) e encher a casa de enfeites. Também adorava ficar sentada num banco de praça, observando as pesssoas passando e sendo também iluminadas pelos pisca-piscas pendurados em árvores reais. As pessoas se tornavam parte da decoração. Eu ficava ali por horas, num universo particular, sentindo o cheiro das árvores piscando, observando suas folhas caindo numa dança sob o reflexo colorido das luzinhas. Sentindo a brisa de natal penetrando minha alma...
Nos últimos anos, nada. Eu fiquei só admirando de relance as luzinhas e enfeites das lojas. Nem os espaços públicos tiveram grandes decorações. Faltou ânimo em todos, até nas luzinhas meio queimadas...
Porém, confesso: não era só das decorações que eu gostava. Eu amava todo o conceito de união, amor, compaixão e magia que essa época costumava trazer nas pessoas, mesmo que isso fosse momentâneo e não se estendesse a mim, que quase sempre passo o natal sozinha. Eu amava o cheiro da comida natalina e de roupa nova. Amava a ideia da troca de presentes.
Gostar de natal é apenas mais uma das minhas contradições: uma ateia anticapitalista apaixonada pela IDEIA do natal! Bem, apesar de todas as ideologias forjadas na base da racionalidade e até certa amargura, eu também cresci numa cultura cheia de filmes natalinos falando da magia dessa noite. Também me sinto inundada por esse conceito, mesmo que seja algo tão distante da minha realidade. Não tenho vergonha de admitir que choro assistindo O Natal Encantado da Bela e a Fera. Que gargalho assistindo Esqueceram de Mim.
Eu não tenho nenhuma expectativa de uma noite de natal encantada... me sinto tão longe dos meus sonhos e ideais. Mas esse ano comecei a sentir cheiro de natal já em agosto, como antigamente, e decidi montar uma árvore. E fazer isso foi como resgatar um pedacinho bom de mim mesma.


quarta-feira, 5 de outubro de 2022

uma flor murcha no concreto da cidade

Eu cheguei nesse ponto da vida que parece que tudo se resume a bebês. Para todos os lados que eu olho, vejo bebês ou alguém falando sobre bebês. Na mídia, nas redes, nas rodinhas de conversa:  bebês. Alguns se programando para tê-los, outros se esquivando de tal possibilidade com todas as forças.
Quase todas as conversas que tenho com os meus irmãos, recém-chegados aos 30, terminam na expectativa de trazermos mais bebês para nossa família e nessa corrida contra o tempo.
Para eles é quase uma questão de linhagem. Quase uma obrigação moral de manter o nome Lira vivo.
Para mim é algo mais... 
......
Eu vejo um grande relógio pendurado na parede da minha mente. Os ponteiros correndo e mudando de posição freneticamente. Ouço o tic tac tic tac tic tac dentro de mim 24 horas por dia e me sinto murchando a cada tic, apodrecendo a cada tac.
Tento não pensar em nada disso, mas o relógio está sempre ali, tic tac em movimento, um lembrete ambulante me mantendo agitada, insone, impotente... e paradoxalmente, estática, em posição de espera. Paralisada pela iminência de cada segundo e o que a soma de todos eles pode me trazer. Loucura, esterilidade, fatalidade.
A última conversa que tive (ou melhor, participei) sobre bebês, terminou com um soco no meu peito, quando ouvi a profecia: "acho que a Cíntia não vai ter filhos".
"Não diga isso", ouvi minha própria voz rebater sem forças... "Se esse for o caso, eu vou ser infeliz para sempre".
.... Sempre quis um filho. Mas eu seria uma boa mãe? O que eu poderia oferecer aos 15? O que eu poderia oferecer aos 25? O que eu posso oferecer agora?
32 anos, quase 33. Eu nunca pensei que chegaria até aqui. Com todo o meu coração, eu achei que morreria extremamente jovem. Me conformei com não ter nada naqueles pretensos breves anos. Porém, contra a minha vontade, os anos foram se acumulando,  e já não tem sido breve há algum tempo. O peso de não ter nada, que era suportável, agora me esmaga.
É angustiante pensar em ser infeliz para sempre, mas me consolo: quanto mais pode durar o meu "para sempre"?
Independente das ironias da vida, provavelmente tenho menos tempo de vida para viver do que de vida vivida.
Cada dia que eu vivo dessa forma, é um dia a menos para ser a mãe desse ser que eu sempre quis. Cada minuto que passa, esse bebê fica um pouco mais fora do meu alcance.
Não sinto orgulho real de ainda estar viva, "vivendo" da forma que eu "vivo". Eu sinto que ainda estar aqui, mas distante de tudo que eu sempre quis, é o meu castigo por ter tentado tanto morrer. É o maior foda-se que a vida me deu, uma forma impiedosa de mostrar quem é que manda nessa porra (!).
Eu não quis, não planejei, mas fiquei aqui.
Estou aqui... ?
Existo trancada em uma caixa de vidro disposta no meio de uma multidão que se renova a todo momento. Daqui de dentro eu vejo as pessoas e elas me assistem de relance enquanto transitam, indo de um lado para o outro, ora sozinhas, ora em pares, ora em grupos... carregando amores, carregando flores, carregando dores impermanentes. Carregando bebês.
Atrás do vidro eu olho fixamente para cada um desses bebês.
Quem observa meu olhar demorado e por vezes inexpressivo pode pensar que eu odeio esses seres que choram e riem, que babam e se agitam entre braços e babados e brinquedos. Por fora eu não sei expressar muito. Por dentro, eu sou tomada ao mesmo tempo por um amor e uma tristeza que me rasga, que me afeta de tal forma que eu penso novamente que a morte é a minha única salvação. 
Por instinto eles também me olham, mas com seus olhos inocentes, provavelmente não entendem o afeto que o meu sorriso sutil e triste lhes oferta.
Coloco os óculos escuros e choro escondida atrás das lentes e da minha falta de expressão. A violência da minha mãe me fez aprender a chorar em silêncio e eu nunca desperdicei esse dom.
A violência da minha mãe é o que me fez questionar, por muitos anos, se eu seria uma boa mãe.
Eu seria uma boa mãe?
Eu seria uma boa mãe, meu bem?
O meu bem, numa sombria tentativa de conter a urgência dos meus desejos (ou exigências?), disse de muitas formas que não. Eu não seria uma boa mãe. Ao mesmo tempo, balançava na minha frente a possibilidade de me dar um filho, como um adestrador balançando uma recompensa na frente de um cachorro, usando meu desejo (ou exigência?) como ferramenta de controle. Se eu fosse uma boa menina, ele me daria um filho. Algum dia.
Ele regou e nutriu essas sementes com tanta dedicação, que cresceu uma floresta dentro de mim.
Eu estou perdida na mágoa dessa floresta, regando novas sementes de dúvidas e desesperos com as minhas lágrimas.
.........
As pessoas passam, os bebês passam. Às vezes acenam. Seguem.
Aqui dentro eu estou sempre sozinha, me debatendo com essa dor que nunca cessa.
Os dias passam e eu vejo tudo de longe, sonhando sonhos impossíveis, me sentindo cada dia mais intocada e morta.
Eu seria uma boa mãe, meu bem?
Eu queria tentar ser.

Tic tac tic tac tic tac

domingo, 15 de maio de 2022

Anderson

Você morreu.
Acabou. Você acabou.
Era para eu estar feliz? Aliviada? Me sentindo vingada? Eu não estou sentindo nada de bom. O que sinto é a raiva crescendo em mim, se espalhando dentro de mim, tomando conta dos meus movimentos. Meus músculos se contraindo, meus punhos cerrando, meu coração acelerando mais e mais e mais, ... Sinto o nojo e o ódio exercendo sua força violenta na minha alma, me estraçalhando um pouco mais, me tornando menos humana. Lágrimas grossas inundam meu rosto.
Nunca pensei muito na sua morte. Você esteve perto dela algumas vezes ao longo dos anos, mas o pensamento de você morrer nunca me foi realmente reconfortante. A morte sempre pareceu tão pouco — mesmo as formas mais brutais de morte! Parecia mais justo você continuar vivo, sujo, fraco, chafurdando em decadência e dor. Vivendo um reflexo do que me fez, do que me tornou.
Eu te odeio, Andy.
Houve um tempo que eu te amei. Te amei com a pureza de uma criança, com a devoção de uma sobrinha para o seu tio preferido, mas você destruiu o amor, você me destruiu. Você profanou meu corpo, marcou minha alma, matou minhas possibilidades. Mudou o rumo da minha vida inteira. Tudo que eu tenho, tudo que eu sou, tudo que eu amo, está manchado pelo que você me fez. Tudo que eu não tenho, foi você que me roubou. Você roubou uma criança de 6 anos de ter uma vida saudável e plena. Você esvaziou minha alma de tudo que era bom e no lugar colocou apenas podridão. Você me roubou minha família, que preferiu ficar ao seu lado e acreditar que eu sou mentirosa e torpe. Você me roubou a possibilidade de construir uma nova família, longe de você, porque me deixou louca, sem nada para oferecer para uma criança, para alguém. Você, com a sua imundície, nunca está realmente longe de mim.
Nunca pensei muito sobre sua morte, mas muitas vezes pensei em te ferir. Parada e muito quieta, por anos tenho perdido meu tempo mergulhada no mesmo devaneio. Nele eu vou atrás de você com um pedaço de pau, e, aproveitando do seu estado físico lastimável, te acerto repetidamente e sem piedade, fazendo a madeira subir e descer com vigor, atingindo seu corpo, dilacerando sua pele, quebrando seus ossos enquanto te ouço implorando que eu pare e sinto o seu sangue jorrar e espirrar em mim. Mas eu ignoro suas súplicas e continuo até você apagar. A energia desse devaneio é tão forte, que quando volto a mim, sinto cansaço pelo esforço físico de te agredir.
Eu sempre pensei em tornar esse devaneio uma realidade.
Agora você me roubou até essa possibilidade.
Morrer engasgado com um pedaço de pizza é pouco. É aleatório e misericordioso. Saber da sua morte é pouco. Eu queria ter causado sua morte, eu queria ter te assistido morrer. 
Você morrer não é suficiente. Nada seria suficiente.
Hoje, como tantas vezes, eu estou chorando sozinha. As pessoas choram por você. Minha mãe chora por você, meus avós choram por você. Choram sobre o seu corpo. Ninguém chora por mim. Não tem ninguém para me abraçar e me aquecer. 
Não estou chorando por você. Estou chorando por mim. Pela Cíntia de 6 anos, sendo manipulada e violada por você. Pela Cíntia de 15 anos, sendo desacreditada por sua própria mãe após tentar se matar. Pela Cíntia de 21 anos... suja como você, entorpecida de álcool e cocaína como você. Pela Cíntia de 32 anos, que te odeia, que tem te odiado uma vida inteira, mas sente esse vínculo eterno com você.
Eu te odeio. Te odeio, mas meu ódio vai te manter vivo. Quem te ama vai morrer. As pessoas vão te esquecer. Essa é a verdadeira morte, ser enterrado e esquecido! Exceto que eu não vou te esquecer. Você vai permanecer em mim da forma mais vil. Nos meus pesadelos, nos meus pensamentos, nas lembranças que me tomam de súbito e corrompem meus melhores momentos... na minha auto-destruição, no meu fracasso!
Você não vai morrer de fato, até que eu morra e seja esquecida por todos. Porque você roubou minha vida, e mesmo quando eu morrer, você vai continuar vivo na minha história. Quando pensarem em mim, sua existência vai estar atada à minha.
Não existe justiça possível.
Você não morreu.
Você não acabou. Você acabou comigo antes mesmo de eu começar.





segunda-feira, 28 de outubro de 2019

ruan, bukowski e cigarros

   Eu esbarrei num poema do Bukowski. Esbarrei no meu maço de cigarros. Esbarrei em você. É sempre assim, lembra?
   "Cíntia, chega de falar de Ruan, Bukowski e Cigarros! Porra!"
   Esbarrei numa garrafa de cachaça, ouvindo a playlist que fiz com músicas que contam nossa história, ou ao menos, a minha versão da nossa história.
   O poema do velho falava sobre partidas e chegadas e partidas. 
   Confesso que olho seu perfil de vez em quando, mas não há nada o que ver, ele está trancado. Você é tão misterioso, ui.
   Eu havia deletado todas suas fotos e todas nossas conversas do meu celular, apaguei seu e-mail dos meus contatos, mesmo sabendo-o de cor, e pensei que estava livre, sem acesso a você, assim eu poderia fingir que nós nunca acontecemos, que eu nunca te amei; aí meu celular quebrou, e eu voltei a utilizar um aparelho antigo. Abrindo a galeria do mesmo: fotos suas. Prints nossos, de momentos mais doces. Dei de cara com o poema que você me escreveu, que me deixou de pernas bambas. Eu tive que me apoiar numa mesa quando li suas palavras naquele dia, Ruan. Depois fiquei com a calcinha molhada no metrô, roçando minhas coxas disfarçadamente, mordiscando meus lábios para tentar represar todas aquelas sensações; o misto de tesão, preocupação e ternura.
   Foi como uma porrada no estômago ver fotos da sua barriga, das suas pintas, dos seus pés calçando coturnos, dos seus pêlos, mas principalmente, do seu pau. Esse pau aí, sobre o qual você se sentia inseguro, e eu endeusei tanto, que você ficou confiante o suficiente para mostrar para outras mulheres, para usar em outras mulheres. Eu até poderia viver com isso, mas o fato de você ter parado de usá-lo para o meu prazer realmente foi demais para mim.
   Te odeio! Todo dia acordo e tento me convencer de que te odeio. Mas não, eu ainda amo seu olhar de tormenta e o tom da sua pele. Ainda amo suas mãos e seus dedos, e seus dedos segurando cigarros e sua boca, e sua boca soltando fumaça de forma ensaiada, te fazendo parecer um bad boy de um filme adolescente qualquer, e não o big shot da sua série de motociclistas favorita.
   Eu te disse adeus, você me disse adeus, eu voltei. Voltei duas vezes, três... voltei tantas vezes, que perdi as contas! Acho que você também perdeu as contas de quantas vezes disse que nunca mais me aceitaria de volta, e aceitou. Perdemos as contas de quantas vezes agimos feito personagens de um romance decadente, apegados a um amor canalha, ou mero desejo destrutivo. Mas da última vez que te disse adeus, você não retribuiu. Você pensou que eu voltaria. Bem, Ruan, eu não voltei. Meu adeus foi sincero, Ruan. E você não retribuiu ao meu adeus, Ruan! Pro inferno, você e seu maldito pau! Esse pau, que para dificultar mais as coisas, tem veias saltadas e uma pinta, bem do jeito que eu gosto.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

garantia

No começo da minha adolescência eu entrava em muitas brigas na escola. Todos os dias eu saía na mão com alguém para me defender das humilhações que sofria. Nunca batia em alguém só por bater, eu simplesmente exigia respeito com os meus punhos.
Mas tinha um detalhe: eu só batia em meninos. Nunca fui capaz de bater em uma mulher na minha vida.
Tinha uma garota em especial que eu não suportava. Tudo nela me irritava profundamente, me fazia sentir inferior, e ela provavelmente sentia meu complexo de inferioridade, pois frequentemente me provocava e me ridicularizava na frente das pessoas. Eu ia para cima dela, o suficiente para ela se calar e sair correndo para se esconder, mas nunca tive coragem de agredi-la. Um dia ela me xingou, e de forma quase automática eu a ameacei, disse que se ela não calasse a boca eu iria quebrar a cara dela. Nesse dia ela não correu, não se escondeu — pelo contrário, ela me olhou com um sorriso na cara e disse, na frente de toda a sala: "Vai nada! Você sempre diz que vai me bater e não bate. Você não tem coragem. Eu não tenho mais medo de você". Eu fiquei mortificada por alguns momentos, depois senti o ódio e a vergonha correndo pelo meu corpo. Eu não era de nada e ela sabia. Ela sabia que podia pisar em mim o quanto quisesse, pois sairia impune.
Toda vez que eu volto para ele depois da humilhação e do adeus, eu lembro dessa garota e daquele misto de ódio e vergonha tomando conta de mim.

domingo, 11 de agosto de 2019

daddy issues

Vou confessar que morro de inveja de quem tem pai e mãe para comemorar dia dos pais e dia das mães (nem que seja apenas um dos dois). Não especificamente pai e mãe de sangue ou pai e mãe perante a lei, mas qualquer figura que tenha desempenhado esse papel, que tenha cuidado delas. Pessoas com quem elas podem contar.
Eu me sinto ingrata às vezes — me fazem sentir ingrata:  assim como tantos, o pai de dois dos meus irmãos mais novos os abandonou quando eles eram bebês. Um deles chegou aos 16 anos sem sequer lembrar do rosto do próprio pai. Nunca tiveram amparo financeiro, que o dirá emocional, e isso reflete na vida deles de forma palpável.
O meu pai, por outro lado, não me abandonou no sentido de sumir no mundo. Ele me deu um teto, me deu comida, me deu acesso à escola, à internet, me deu várias coisas ao longo dos anos, mas não me deu gestos de carinho, palavras de apoio, afagos. Eu lembro muito bem como é o rosto dele, especialmente porque parece muito com o meu. Ele sempre me olhou de cima, com dureza, e às vezes, quando me olho no espelho, eu vejo esse mesmo olhar frio me encarando. O meu pai não me abandonou, mas também não esteve presente: "meu nome é trabalho", ele costuma dizer, e continua, "o negócio é ganhar dinheiro, não tenho tempo para esses sentimentalismos baratos".
"Poderia ser pior", então eu não posso reclamar. É o que dizem.
Quando eu tentei suicídio pela última vez, eu desmaiei e fiquei assim por mais de 24 horas. Acordei fisicamente destruída. Não conseguia focar minha visão, não conseguia sustentar meu corpo de pé, meu coração parecia que iria explodir dentro do meu peito, e minha pele queimava. Eu pedi ajuda, e a primeira coisa que ouvi foi um "não acredito que vou ter que passar por isso de novo". Fui enfiada dentro de um carro, e da minha casa até o hospital ouvi palavras difíceis de digerir, sobre como eu o estava atrapalhando. Fui deixada no hospital como uma "coisa". Ali fiquei, dopada e sozinha, cambaleando na cadeira, e quando o hospital me mandou embora, eu não tinha como voltar para casa, pois não conseguia andar sem me desequilibrar. Até o momento, essa é a lembrança mais marcante que eu tenho do meu pai.
Poderia ser pior.
Nem sempre foi assim, eu tenho que admitir. Teve um período da minha vida em que ele não dizia APENAS coisas duras. Quando eu era criança e ele ainda podia me controlar, ditar quando eu podia falar ou não, e o que eu podia falar ou não, havia uma mescla de momentos de tempestade e momentos de calmaria. Tenho algumas boas lembranças; elas só não são o suficiente para eu me sentir "filha" de alguém. Não são fortes o bastante para apagar a minha dor, ou ao menos amenizá-la.
Ano passado o meu pai me chamou de puta. 
Ano passado o meu pai me deu um surra. Socou minha cara e o meu estômago, e embora eu tenha, por instinto, revidado os socos, hoje, toda vez que eu ouço os passos dele se aproximando, eu sinto medo. Sinto a adrenalina crescendo dentro de mim, um desespero se espalhando pelas minhas células. Involuntariamente prendo minha respiração e cerro os punhos, esperando  pelo pior. E quando ele passa sem falar comigo, sem notar minha existência, eu respiro aliviada, mas começo a tremer de corpo e alma. Nesses momentos eu sinto como se eu fosse desmoronar. Demora algum tempo até o meu coração voltar ao seu estado normal.
Mas poderia ser pior, e assim sendo, eu sou uma ingrata.


Feliz dia dos pais.


terça-feira, 7 de maio de 2019

a solidão da pessoa gorda


   Quando se fala em solidão da pessoa gorda, a primeira, e geralmente única coisa que abordam, é a afetividade no sentido romântico. Esse é um aspecto urgente e cruel da nossa solidão, mas não é o único, especialmente para quem foi uma criança e/ou adolescente gorde.
   Tudo começa dentro de casa, com a rejeição de pais ou responsáveis que ridicularizam crianças gordas sempre que têm uma chance, fazendo-as sentir culpa ao comer, desencorajando-as em todos os sentidos, mas especialmente, reafirmando a lógica do "você não tem corpo para isso" e "a culpa é sua, que não se esforça para emagrecer", ou ainda, comparando-as a todo momento com outras crianças, seja irmãos, primos ou colegas. Isso não só afeta a auto-estima estética e intelectual dessas crianças e adolescentes, como gera o sentimento de competição e até mesmo rancor em relação a quem está sendo usado como "exemplo", levando a rivalidade permanente entre irmãs/irmãos e primas/os.
   É muito triste quando as pessoas que mais deveriam te amar, incentivar e proteger, te negam afeto e só têm coisas ruins para dizer sobre você e o seu corpo. Isso gera uma distância emocional que com o tempo é impossível de transpor, o que causa isolamento familiar e afeta toda a vida desses indivíduos, em particular a forma como se relacionam com as outras pessoas e com o mundo.
   Para além disso, uma criança gorda é excluída de brincadeiras e repelida de grupinhos, seja na escola ou em ambientes recreativos. E mesmo crianças sofrem com a falta de acessibilidade. Enquanto criança gorda, muitas vezes me impediram de usar brinquedos de festas ou parques porque "não suportariam meu peso", ou porque de fato meu corpo não se encaixava nos mesmos. Então eu ficava de lado, enquanto as outras crianças brincavam e criavam laços.
   Isso sem contar as piadas e agressões físicas. Crianças muitas vezes conseguem ser mais cruéis do que adultos, ainda mais porque têm permissão social para sê-lo. Os adultos veem o comportamento tóxico de crianças, e ao invés de repreender, acham "engraçadinho", "bonitinho", "coisa de criança".
   Não sendo ensinadas a respeitar as diferenças, crianças entram na adolescência sem um pingo de empatia.
   Adolescente gorda, eu fui rejeitada não apenas por pessoas que eu tinha interesse romântico, mas também pelas pessoas que me criavam, pela minha família estendida, e pelos grupos de meninas. Tive que atravessar todas as mudanças do meu corpo e da minha psique sozinha, tentando descobrir o que era normal e o que não era, e como me portar diante de tais mudanças.
   Eu era a única gorda em uma sala cheia de meninas que praticavam a feminilidade padrão, e para piorar, era dois anos mais velha do que elas. Em alguns momentos elas até me permitiam fazer parte do grupo, mas no primeiro desentendimento que tinha (mesmo quando eu não estava envolvida na briga), eu era a primeira a ser excluída, ou obrigada a tomar partido, sob pressão, pois independente de quem eu escolhesse, seria "punida" quando elas voltassem a se falar.
   Eu era a pessoa que as ajudava nos deveres de casa, cedia minha casa para elas ficarem com meninos que haviam me rejeitado (e elas sabiam), e até vigiava o portão para garantir que suas mães não as pegasse fazendo isso. Eu era a pessoa que escrevia poemas apaixonados para elas entregarem para os namorados. Eu tirava fotos delas, nunca aparecendo nas mesmas. Era a pessoa que ouvia e nunca era ouvida. Nunca fui a melhor amiga. Nunca era convidada para as festinhas e passeios, nunca era escolhida nas atividades de educação física.   Mesmo depois, já no fim da adolescência, ou mesmo nos primeiros anos da vida adulta, eu era a pessoa que garotas usavam para se sentir melhor sobre seus próprios corpos, para silenciar suas inseguranças. As observava se olhando no espelho, erguendo a blusa e apertando gorduras inexistentes, enquanto diziam "nossa, eu estou tão gorda! Olha isso!", e então me olhavam furtivamente. E, inevitavelmente, quando eu as irritava de alguma forma, ouvia que elas nunca gostaram de mim mesmo, e que eu não passava de uma "gordona do caralho". Isso fez com que eu me distanciasse de mulheres.
   Ao longo da vida tive vários amigos homens, e vale ressaltar que só tenho irmãos. Me masculinizei para "ser um dos caras", e assim ser aceita. Mas tais amizades também me traziam solidão, pois as vivências divergiam muito. Eles não eram capazes de entender muitas das coisas que eu vivia. Além disso, os via idealizando mulheres magras, padrão, "femininas", tudo que eu não era, sabendo que aquele era o pensamento coletivo, o que reforçava a minha certeza de que eu nunca seria amada, por não ser como essas garotas que eles queriam. Também era excluída de situações que eu não era "masculinizada o suficiente" para participar, e os via frequentemente constrangidos quando alguém achava que tínhamos envolvimento amoroso ou sexual.
   Há também a solidão de nunca ver pessoas como nós nos ambientes que frequentamos, ou mesmo na mídia. Não porque existam poucas pessoas gordas no mundo, mas porque somos invisibilizados, expulsos dos ambientes, e dessa forma poucos ousam sequer sair de casa para ocupar tais espaços.
   Essa dinâmica nunca muda. Os anos passam, as figuras mudam, mas a forma que a pessoa gorda é tratada por quem a rodeia permanece.
   No ambiente de trabalho, quando conseguimos emprego, temos que lidar com superiores hierárquicos e colegas de trabalho que continuam nos usando para se sentir melhor consigo mesmos, e agora, não podendo usar de violência física para nos agredir, abusam de um comportamento passivo-agressivo e criam um meio tóxico, sempre dando dicas de dieta, fazendo "piadas" e recriminando nossos corpos. Se reclamamos, estamos exagerando.
   Não encontramos apoio familiar, nem de amigos, e muito menos apoio profissional, já que psicólogos também recriminam nossos corpos.
   Uma pessoa gorda tem, por fim, toda espécie de afeto negado, ou no mínimo limitado. A solidão da pessoa gorda é a solidão no sentido mais pleno da palavra. É tão grande, que se torna tangível... fisicamente dolorosa.