segunda-feira, 9 de março de 2015

cartão vermelho

          Uns anos atrás tive um amigo. Thiago. Provavelmente o melhor amigo que já tive - definitivamente o mais compatível.  Depressivo, auto-estima baixa, extremamente nerd. A gente podia conversar por horas, sobre qualquer coisa e manter um nível incrível de intensidade e conexão... de auto destruição ao que comemos no almoço, qualquer assunto virava uma bíblia entre nós. Rimos juntos, choramos juntos. Ele dizia: "você é a minha Gilmore da vida real". 
        Estranho como começou. Foi tão fácil, tão imediato. Eu o via constantemente na comunidade "Condenados", do orkut... acho que o título deixa bem claro qual era o tema de tal comunidade - mas não tinha coragem de conversar com ele. O achava muito intelectual,  tanto que tinha medo de me aproximar e mostrar minha inferioridade. Um dia nos esbarramos em um tópico e trocamos algumas palavras. Assim, coisa boba. E nos adicionamos (não lembro se tomei coragem, ou se fui pega de surpresa). No dia 14 de janeiro de 2007 trocamos as primeiras palavras pra valer, quando eu elogiei a foto da afilhada dele (uma menininha incrivelmente linda, de olhos azuis intensos), e não paramos de trocar mensagens, então, pelos próximos... 2 anos? Logo era impossível acessar a internet e não ir correndo checar se havia novas mensagens dele... e sempre havia, no mínimo, 10. Eu respondia com 15. Ele respondia com 20. E assim seguíamos o dia, conversando por horas.
           É claro que a certo ponto desenvolvi uma queda por ele. Assim eu era... era só me dar um pouco de moral, e a paixonite era instantânea. E o Thiago me dava MUITA moral. Mas, o que dizer? Ele estava na Paraíba, eu em São Paulo. Obviamente, havia também o fato de eu ser uma criatura horrível e estar mais apaixonada por outra pessoa. 
           Eu era a amiga imaginária dele, como ele às vezes colocava. Um personagem saído de um cartoon. 
          O melhor amigo dele jamais poderia saber as coisas que ele me contava, o fato de ele ser depressivo, o fato de ele ter um fake e manter tais assuntos em comunidades, e especialmente comigo. Isso porque o amigo dele é um modelo profissional, machão, que odeia demonstrações de fraqueza. E o Thiago, além de idolatrá-lo, sentia um forte complexo de inferioridade e, assim como eu sinto por muitas pessoas, inveja. 
         Em 2010 ele arrumou uma namorada. Não tardou, mudou comigo. Apagou meus depoimentos, e os que me mandara, as mensagens se tornaram menos frequentes, os assuntos mais ralos, as brigas começaram a se apilhar - nunca suportei ser jogada pra escanteio, e realmente odiei o fato de ele achar que era desrespeitoso à namorada dele manter o mesmo nível de amizade que tinha comigo. Esperava que nosso laço fosse... como dissemos, certa vez, inexorável, e que a namorada dele pudesse entender nosso vínculo inocente. E nunca passou disso. Nunca deixei escapar nem mesmo uma linha sobre sentir algo a mais por ele, e mesmo que eu sentisse, não era tão forte a ponto de eu sonhar em estragar nossa amizade, que significava tanto pra mim! O Thiago foi a minha fortaleza por muito tempo, e de certa forma sei que fui a dele. Eu sentia que não podia viver sem falar com ele por um dia, que ele era a muleta que me sustentava. Mas se eu era amputada de uma perna, ele era da outra, e assim nos sustentávamos, unidos. Esperava, no mínimo, um pouco mais de consideração.
          Entendia que ele sempre se achou incapaz de conseguir uma namorada. Já tinha visto isso acontecer antes... homens, especialmente, mudando da água pro vinho ou, no caso, saindo da mais profunda depressão para o estado de permanente euforia. E ainda entendo que quando uma coisa dessas acontece pra um cara que sempre se achou feio, sem atrativos, ele não mede esforços para manter a relação. O único jeito de um relacionamento acabar em casos assim, é se a mulher der um fora. E não torcia, naquele momento, que isso acontecesse com meu melhor amigo. Mas não podia evitar a tristeza, o sentimento de rejeição. Sofri muito com o distanciamento. Mas um dia decidi que não valia mais a pena. Nunca consegui lidar com essas situações... qual o problema em querer ser importante, querer ser prioridade na vida de alguém? QUAL O PROBLEMA EM ESPERAR QUE AS PESSOAS RETRIBUAM SEUS SENTIMENTOS NA MESMA PROPORÇÃO? Num momento de impulsividade escrevi ao Thiago. Estou magoada por significar tão pouco na sua vida, e se for pra ser dessa forma, não quero mais sua amizade. Vou esperar você ler isso, e se quiser, responder, e te excluirei da minha vida.
          Mas o Thiago, devo dizer, é muito mais orgulhoso do que eu. Quando uma das partes coloca um ponto final, pra ele era sem volta. Sabia disso por fato, pois ele mesmo me disse em diversas situações.
          Não sei se ele chegou a ler a mensagem. No dia seguinte, quando abri o Orkut, minha conta tinha sido deletada por postar "ofensa religiosa". O começo do fim do Orkut também. Nunca mais criei uma conta, não sei se o Thiago pensou que simplesmente sumi, ou se leu e resolveu não se importar. Nenhum e-mail, nada.
          Quando entrei pra faculdade pela primeira vez, em 2011, enviei a ele um e-mail contando, agradecendo, pois se sobrevivi aos anos que fomos amigos, foi justamente porque o tive na minha vida. E fora ele quem me incentivara a voltar para a escola, anos antes. Ele nunca respondeu.
            Há uns dois anos o encontrei no facebook. Costumo fuçar a vida de todo mundo que um dia amei, que um dia me foi importante. É engraçado pensar que todos eles estão ótimos. Eram todos depressivos, com tendências suicidas - pois nunca consegui fazer amizade com pessoas que secretamente ou abertamente não se odiassem. E hoje, estão bem. Família, amigos... é claro que há aquela parte do facebook onde a maioria das pessoas fingem ser felizes, mas vejo em todos eles genuína mudança. E dói bem lá no fundo saber que eles não pensam em mim nem por um momento, talvez nem lembrem da minha existência. Sou agora uma sombra que os segue, observadora, sem ser notada.
            Mas tentei adicionar o Thiago, uma das raras ocasiões em que pisei no meu próprio orgulho. Ele nem aceitou, nem rejeitou, mas sei que me viu, pois quando cancelei a solicitação de amizade, com um sentimento de humilhação, ele bloqueou a opção de ser adicionado.
           Hoje parte de mim deseja que ele sofra novamente. Que seja abandonado e se veja na mesma situação que estava em 2007. Que então lembre de mim, que em tantos momentos estive lá para ele. Penso: será que então ele me adicionaria?