sexta-feira, 11 de setembro de 2015

de encontro ao coração


       Last night I felt
real arms around me
no hope, no harm
just another false alarm
 

     Consigo perceber o que as pessoas sentem por mim, e os meus próprios sentimentos, através de abraços. Seguindo esse princípio, hoje posso dizer que não existe ninguém que me ame, ao menos entre os que convivo pessoalmente, e também não existe ninguém que eu ame. Quando as abraço, é mutualmente breve. Consigo sentir o espaço entre nós, a ausência de energia e sincronia. É um gesto que não significa nada, uma coisa automática para elas, e desconfortável para mim.
     Detesto pessoas que cumprimentam estranhos com abraços (frouxos) e beijos (de mentira) — aquelas tentativas patéticas, em que duas pessoas fingem que estão beijando uma à outra no rosto, quando na verdade nem fazem menção de beijar, muito menos se relam...
     Sempre que possível, quando sou apresentada a alguém, estendo logo a mão para um ligeiro e impessoal aperto de mão, isso quando não balanço a cabeça numa demonstração implícita de que vi a pessoa, e não precisamos de maiores proximidades. Não sei se meu irmão está certo e eu realmente tenho um leve grau de autismo, ou se sou apenas um extraterrestre preso num corpo humano. Vocês me digam.
     Não é como se eu não gostasse de abraços. Ontem, enquanto tentava dormir, fui invadida por recordações de abraços que compartilhei, muitos incrivelmente toscos, outros completamente perfeitos, e percebi que há anos não sou realmente abraçada... e tampouco abraço de verdade. 
     Lembrando de três pessoas em especial, senti algo quente e gostoso dentro de mim, mesmo diante da certeza de que nunca mais as verei, e que talvez nunca mais seja abraçada daquela forma. Eis a questão: um abraço de verdade é aquele em que duas pessoas colam seus corpos e se apertam de tal forma, que o tempo para. O mundo deixa de girar por alguns minutos (sim, esses abraços são geralmente longos), as pessoas ao redor paralisam, e tudo é sobre essas duas pessoas se abraçando. Dentro de seus corpos suas células dançam, atraídas como ímãs, a temperatura aumenta, os corações entram em sincronia. Ou seja, considero o abraço um ato muito mais relevante e íntimo do que um beijo ou mesmo o sexo. Não posso dizer que tive experiências sexuais tão gratificantes e memoráveis quanto abraçar essas três pessoas!
     Poderia ser uma tentativa de fazer poesia, mas prometo que não é. Apenas...  é assim que me recordo desses abraços. Não foram gestos românticos. Foram maiores que isso. Mesmo agora, tantos anos depois, não consigo pensar neles como lembranças pequenas e distantes. Fechando meus olhos, ali no escuro, consegui sentir como se eles estivessem me envolvendo novamente. E agora não consigo desejar outra coisa que não seja um abraço desses, essa proximidade louca e impossível de descrever. É como ser tocada na alma.