"Querido Deus"

Querido Deus

CÍNTIA LIRA

   Seu nome, apenas um detalhe, constantemente esquecido por ela e pelas pessoas. Gostava de ser chamada de Renata, Camila, Mariane ou qualquer nome que não fosse seu. Nascida em uma tarde 
fria e escura de outono, carregou na alma esse clima, ao longo de seus apáticos dezessete anos. Não importava o ambiente, seu mundo era sombrio.
   Tivesse crescido em um lar aquecido pelo amor poderia buscar uma luz, mas não havia sido assim. Seu pai era uma pessoa que ela não conseguia reconhecer ao olhar, e sua mãe estava perdida em algum lugar.
   Via as constantes manchetes, atrocidades, sendo tratadas como coisas banais, espetáculos mórbidos a saciar as necessidades das pessoas. Assassinato, pedofilia, latrocínio, ônibus sendo incendiado, amor obsessivo com final trágico. Notícias cruéis que a abalavam, por mais que ela negasse.
   Dizem que espalhamos pelo mundo exatamente aquilo que recebemos, e era isso que ela fazia. Com o olhar frio, espalhava por todos os cantos onde passava um pouco de seu desprezo, por si mesma e pelo mundo. Poucos percebem que tudo isso é parte de um sádico ciclo.
   Sem motivos para mudar, a garota sem nome seguia. Não esperava um príncipe encantado para acabar com seus medos e sim a morte, o fim. Não que fosse um exemplo de religiosidade, porém, não duvidava da existência de um Deus. Mais cedo ou mais tarde, Ele deveria agir. Ela ansiava por isso.
   Via o rosto de cada vítima mostrada nos noticiários. A cada novo rosto ferido, sua amargura aumentava. Estava farta de tanta hipocrisia e impunidade. O mundo estava desestruturado, ela não
conseguia prever onde aquilo iria acabar, e isso a assustava.
   Como uma criança que escreve uma carta ao Papai Noel, ela se ajoelhou com humildade ao lado de sua cama, uniu as mãos, fechou os olhos e deixou sair de seus lábios uma última prece.
   — Querido Deus, faça com que todos morram — em seu pedido, o desespero e a angústia eram palpáveis. Junto às palavras, lágrimas. 
   Então aconteceu. Os humanos morreram. Seria difícil explicar o que realmente aconteceu. Foi como se, em um só fôlego, o ar fosse arrancado dos pulmões dos seres humanos que, um a um, caíam, já sem vida. Não houve dor, nem para os mais pecadores, nenhum ato de crueldade, nenhuma salvação. Todos tinham responsabilidade pelo que se tornara o mundo; mesmo os bebês, com seu carma de outras vidas. A desordem e o caos permeavam a espécie desde o primeiro homem e a 
primeira mulher. Tantas chances não mudaram o comportamento humano.
   Perdida no mundo, a mãe da garota caiu, vendo à sua frente a imagem de sua filha. O pai, estranho que era a seus olhos, também caiu, sem nada ver além de seus erros.
   Ela, por sua vez, caiu. Finalmente em paz, em um emaranhado de cores e um profundo silêncio, sem nada ter para entender. Naquele momento, nenhuma bala era perdida, nada poderia atingi-la; nenhuma dor sentida. Do mundo, era a última a se despedir. Por alguns instantes, apreciou a calmaria, logo quebrada pelo canto de um pássaro que voava ao longe. Depois não ouviu mais nada e assim seria para sempre. 
   Sem humanos, sem tecnologia e poluição, o mundo estava livre mais uma vez. Tudo agora era dos animais, da calma do vento, das cores do arco-íris e do brilho das estrelas; das árvores e das águas, que corriam nos rios, agora cristalinos, purificados pelas mãos límpidas de Deus.
   Renovado, sem riscos de destruição pela mão insana do homem, o mundo voltara a ser belo e majestoso. O pedido angustiado fora atendido.

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