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domingo, 24 de dezembro de 2023

arte

 Outro dia eu contei sobre uma vez que uma cigana leu minha mão e me disse que eu tenho mãos de cura, que deveria ser médica, ao que eu respondi que o que eu queria era curar as pessoas com a minha ARTE.
Um hater me mandou uma mensagem questionando "que arte que eu faço" que teria o poder de curar alguém, e outras tantas pessoas me disseram que eu sou minha maior obra de arte, e que as "curei".
A arte esteve comigo desde antes de eu saber que ela existia. A arte da escrita, acima de todas. Primeiro como leitora, e depois como escritora. Ela me fez encontrar meu lugar no mundo. Me ofereceu conforto, compreensão, companhia... me fez sentir inteligente quando a escola dizia que eu era burra por não florescer num sistema engessado. E depois todas as outras formas de arte foram surgindo, me cativando e ganhando espaço na minha vida. Eu sobrevivi 28 anos porque a arte existe em mim. Através dela eu pude me expressar, me entender, manter minha sanidade...
Nunca gostei de discutir "o que é arte". Acho este um debate irrelevante e pretensioso. Cada pessoa sente as coisas de uma maneira. O que me afeta, pode não afetar o outro. O que me arrebata, seja pela mensagem ou pela estética, pode fazer o outro bocejar de tanto tédio.
Desenho é arte, pintura é arte, música é arte, cinema é arte, fotografia é arte, escrita é arte, Romero Britto é arte, ler mãos é arte, sexo é arte, o corpo humano é arte. Eu sou arte. A arte não precisa agradar a todos, não precisa ser universalmente conhecida, aceita ou rejeitada, para ser ou não arte. Não precisa ser experimentada por ninguém além de seu autor para ser arte - A arte engavetada ainda é arte. O que você não entende ou não gosta, não deixa de ser arte!
Eu me sinto compreendida quando as pessoas me dizem que eu sou arte, poesia. E sempre que eu recebo mensagens dizendo que eu fiz parte da "cura" de alguém, sinto que não estou aqui à toa. Fico contente de o meu corpo ter se tornado a minha principal ferramenta de expressão, porque, ao menos nessa existência, onde eu for, ele vai estar comigo. Eu não preciso de muito mais que isso.

Texto de 24 de dezembro de 2018

sábado, 11 de novembro de 2023

leitura: pequena coreografia do adeus


Título: Pequena Coreografia do Adeus
Autora: Aline Bei
Editora: Companhia das Letras
Ano de lançamento: 2021
Número de páginas: 282
Lido em: novembro de 2023
Comprar na Amazon

"A queda ensina mais do que o voo"...

Essa é uma das muitas frases impactantes desse livro tão inovador de Aline Bei, que de forma magistral lapida um romance em formato de poesia. Quem não gosta da estrutura da poesia e está preso à prosa, seja pelo aspecto visual ou pela diferença de ritmo, pode estranhar ou até mesmo não dar uma chance à obra de Bei, mas qualquer pessoa com um pingo de sensibilidade que se permitir ler este livro vai ficar extasiada por seu talento e por sua força narrativa.
"Pequena Coreografia do Adeus" nos apresenta, em primeira pessoa, a história de Júlia, desde sua infância, à sua adolescência e começo da vida adulta. Enquanto criança, Júlia vive com sua mãe, Vera, e seu pai, Sérgio, que arrastam uma relação infeliz e por vezes psicologicamente violenta. Vera é uma mulher que veio de um contexto de violência e abandono familiar e carrega um enorme descontentamento pelo rumo que sua vida tomou. Ao longo dos anos, levando consigo as mágoas pela própria mãe e pelo casamento miserável, Vera teve seus sonhos aniquilados e desconta suas frustrações e rancores agredindo a filha, Júlia, tanto fisicamente, quanto psicologicamente. Ela se justifica repetidamente dizendo que sua mãe "era muito pior do que ela", mas Júlia sabe que ser "menos pior" do que alguém ruim não é o suficiente, e logo surge a dúvida, para nós, leitores: será Júlia capaz de quebrar esse ciclo e ser MELHOR do que sua mãe?
Todos os dias a menina leva surras cada vez mais pesadas, enquanto seu pai assiste em silêncio, omisso ao que acontece dentro de sua casa. Seu pai é um homem órfão, que também tem pouco repertório afetivo e não sabe expressar seus sentimentos. Até que um dia ele decide, sem muitos rodeios, abandonar a esposa, dizendo que "ninguém a aguenta". Porém, ao abandonar Vera, Sérgio acaba, por tabela, abandonando Júlia à própria sorte em uma casa onde ela é abertamente vitimizada. A filha até pede para morar com o pai, mas ele rejeita veementemente a ideia. Júlia entende que enquanto seu pai abandonou sua mãe de uma vez, a abandona em pequenas doses.
Pessoalmente, acredito que uma pessoa que se omite nessas situações, é tão ruim quanto quem pratica as agressões, mas é muito comum, na nossa sociedade, em casos de divórcio, a integridade da criança não ser levada em consideração, como se um casamento fosse apenas sobre um casal. Um casamento que gera filhos, é sobre eles também! Como um pai ou uma mãe pode virar as costas e deixar para trás um filho ou uma filha sofrendo abusos? Como em muitos momentos desse livro, eu me identifiquei profundamente com Júlia. Senti isso na pele. Meu pai "não suportava a minha mãe", falava que ela era a pior pessoa do mundo, mas me deixou com ela. Como meu pai, o pai de Júlia pensou apenas nos próprios incomodos e problemas.
Com o abandono do marido, Vera se torna mais amargurada e mais agressiva, exceto a noite, quando busca afeto na filha para silenciar sua solidão. Júlia aproveita o que pode quando sua mãe abaixa a guarda, porém, na maior parte do tempo, a menina fica sozinha com suas dores e só tem seu diário e um pouco de música para lhe acolher. Júlia não consegue se ajustar na escola, especialmente após o divórcio dos pais, pois além de ser "diferente", passa a reproduzir a violência que sofre, agredindo suas colegas. Em uma ocasião, chega a quebrar o nariz de uma menina. Para "ensinar" à Júlia que "quebrar coisas tem consequências", Vera lhe dá uma surra e quebra todos seus pertences. A lição que Júlia tira disso, é que "quebrar coisas tem suas consequências apenas dependendo de quem você é". 
Apesar da agressividade, Júlia é querida por professores, que diferente de seus pais veem seu potencial criativo, sua sensibilidade e sua inteligência. A diretora então sugere que Júlia comece a praticar balé para ter onde alocar suas emoções e energias. A garota fica muito feliz com a ideia, pois ama música e vê muita beleza na dança, mas não é bem aceita pelas outras meninas e nem pela professora de dança e novamente é rejeitada, recebendo o rótulo de inadequada e sendo jogada na solidão.
A história de Júlia é pesada e triste. É, por fim, um perfeito retrato de filhos de pais disfuncionais, de pais divorciados e de famílias presas em ciclos de violência; pinta fielmente a solidão e a impotência de algumas crianças frente a pais que abusam de "autoridade". Contudo, Aline Bei consegue contar essa história de forma quase leve. Não é uma leitura que gera agonia, apesar de gerar revolta e muito impacto com frases muito marcantes e análises sociais certeiras. É realmente como assistir ao mais sensível balé de palavras. O que me impressiona e me encanta, é que apesar de toda a violência e solidão a qual foi exposta, o que gerou muita revolta justificada, uma inadequação e sentimento de desconfiança natural, Júlia consegue, SIM, se tornar uma pessoa boa, empática e sensível. Uma pessoa que oferece muito mais aos pais do que eles merecem.
Eu me identifico muito com a Júlia em diversas questões. São tantos detalhes que a autora inseriu nessa história que eu também vivi, tantas situações que eu jamais pensei que outras pessoas tivessem passado, que me senti até mesmo invadida, como se ela tivesse tirado confissões de mim e usado em sua obra. Fico pensando se essa é a vivência da autora, apesar de haver uma afirmação de praxe de que tudo aquilo é ficção. Para mim é muito estranho alguém relatar tudo isso de forma tão precisa sem ter vivido isso. Talvez porque minha escrita é muito focada em mim mesma... 
Eu só não gostei do final. Queria ter visto mais essa pessoa que a Júlia se tornou e quem ela ainda poderia se tornar... mas isso não importa. A trajetória é o que importa. Foi uma experiência incrível ler esse livro, foi muito enriquecedor para mim, não só enquanto leitora, mas também enquanto escritora. Confesso que senti um pouco de inveja da genialidade de Aline Bei! Para algumas pessoas isso pode soar horrível, mas na minha linguagem, isso é uma forma de expressar minha admiração. Espero um dia conseguir escrever tão bem, criar uma história tão boa e inteligente (e ir além das minhas próprias vivências). 

Leitura recomendada!

sexta-feira, 30 de junho de 2023

não era amor

Juliana
se matou
por Rafael

10 anos atrás
Juliana se matou
Na minha frente.

Se matou por Rafael
Na minha frente...

Muita coisa passou por Juliana
Antes de Rafael, é verdade....

Quando criança, Juliana
Foi abusada pelo próprio avô
E ganhou mais de 10 personalidades

Ao se olhar no espelho
Ela nunca sabia quem encontraria.

Então chegou Rafael—
Tão controlado, com sua fala macia
Tão inofensivo, com seus olhos tristes
Tão profundo, com sua alma torturada
Tão culto, com seu violino afinado...

Parecia a calmaria 
Depois da tempestade
Parecia um porto seguro
....Para Juliana 

Mas a verdade estava bem longe
Do quadro pintado
Rafael tinha uma máscara
Grudada no rosto
Tão realista
Que enganava todas as Julianas

Ele estralava os dedos e lá ia
As Julianas
Com seus rabos abanando.

Depois Juliana voltava...
Um emaranhado de Julianas
Com os olhos vermelhos de tanto chorar...

Num momento de descontrole
O espelho se partia
Uma personalidade refletida
Em cada caco......

Em cada caco que
Rasgava sua pele

.... Uma personalidade dentro
De cada gota de sangue
Pingando no chão branco.

O que fez Juliana se matar
Foi amar Rafael

Ela o amava tanto
Que o amava com cada uma
De suas personalidades...

O que todas elas tinham em comum
Era o amor por Rafael

Rafael, que tinha um segredo:
Com suas roupas limpas,
Seu diploma, seu livros
E sua juventude
Rafael era sujo como o avô de Juliana
Ele também gostava de crianças

Juliana não se importou
Desde que Rafael também gostasse dela
... De ao menos uma de suas tantas versões 

Ele gostava de Juliana
Nas horas em que comia
Em segredo 
Cada personalidade

Eram muitas Julianas dedicadas
A servi-lo.

Depois ele voltava para seu violino
E Juliana não existia;
Nenhuma delas...

Juliana esperava afeto de Rafael,
Que maltratava conscientemente 
Todas as suas versões.

Juliana se matou por Rafael.
Deixou sua mãe por Rafael.
Deixou seu pai por Rafael.
Deixou seu irmão por Rafael.
Juliana se matou na minha frente
Por Rafael.

10 anos atrás
Juliana se matou
Não por amor
Mas por Rafael 

Na minha frente...

terça-feira, 25 de abril de 2023

borboleta sem asas

Nascida e criada
Em uma redoma acolchoada,
Muito cedo
Tive minhas asas amputadas.

Surgida para o entretenimento alheio,
Logo descobri o que já era meu
E tudo o que nunca poderia ser.

Não há liberdade,
Há só o pesar.
Fui dotada de asas,
Mas delas não pude aproveitar...

Cresci vendo meus semelhantes voar
E minha vida requintada
Muitos suspiros roubar.

Estrela de público cativo,
Borboleta sem asas...

Vendo tudo a um canto,
Minha dor eu cultivei.
Hoje sou tão-somente uma sombra;
Primitiva, indigna do palácio do meu rei.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

de são miguel paulista à liberdade

Sou livre, escolho meus caminhos. Mas, por onde caminharei?

Desvio da pessoa em situação de rua, desvio do pastor. Desvio de uma prostituta, desvio do amor. Desvio da polícia, por quem tenho verdadeiro pavor... Desvio do garoto que vende balas e do homem que compra ouro. Desvio do pedido de oferta ao final da missa, na qual entrei por engano — procurando paz, fugindo dos meus demônios. Desvio do Senhor.
Desvio, e me sobram poucas opções. Sou livre, mas não tenho onde ir. Fico estática, então.
A constatação traz tormento... como as previsões. De que elas servem, quando acompanhadas por inação?
Dá pra mudar o destino? Um desastre, previsto e evitado, o que impede que aconteça em outro momento, fazendo as mesmas previstas vítimas? Desvio do perigo ao ouvir previsões, e por que não: desvio das predições!
– A inevitabilidade é uma vadia cruel! – de repente meu pensamento toma voz, a qual se mostra alta demais. Todos ficam calados, inclusive o padre, a madre, o raio que me parta! Olham-me, pasmos. Bato na boca três vezes, peço perdão para a multidão. Desvio, sempre que possível, ao ridículo do padrão. Ao insulto cristão! Desvio também do conceito pagão.
Plim, plim, plim! O padre bate seu sininho.
Meu pecado já foi cometido, quando eu nem sabia da existência do pecado. Há salvação para inocente pecador? Arderei no inferno como Judas, o traidor? Minha pele descolará dos ossos, fazendo-me arder em tremor? Afundarei, amaldiçoando o calor!
– Saudai-vos uns aos outros em Cristo Jesus! – ele diz.
Não me toquem os estranhos, ou gritarei até perder a voz. Cairei, convulsa, cavando minha própria cova.
Eles obedecem a todos os comandos e caminham como cordeiros, é realmente embaraçoso. Se Deus está em nós, não é preciso seguir multidões para encontrá-lo! Mas sigo por garantia... e nada encontro. Nada encontro, tampouco, em mim.
Pobre do meu destino! Vazia de Deus, absolutamente nada me espera, faça vida ou faça morte.
Dou asas a sorte, equilibrando-me em alta ponte... sem fios, sem proteção. Estou na Liberdade, mas esta não encontro, não.
O vento bate em meu rosto, me despenteia, e sinto vida, ainda que passageira. 
A vontade de contrariar o destino é grande. Carros passam com fervor e sem cessar. A multidão, apática, espera um escândalo, uma grande notícia, qualquer coisa que transforme esse domingo miserável em algo fantástico, memorável. Mas hesito, me contenho.
O desejo pelo fim não é tão grande, penso, para dar, de graça, tão tolo espetáculo. Respiro fundo, suportando a poluição, retendo em meus pulmões os artifícios da população.
O céu mostra tormenta. Cinza, nebuloso. Olho para cima, olho para baixo: o desatino é não poder cair para cima, eternidade adentro. O desatino, o cruel desalento é não ter asas, ser tão humanamente humana.
O vento bate nas minhas costas, parecendo querer me jogar ponte abaixo. Uma mulher me olha com antipatia, eu devolvo um gesto de rebeldia.
Ela parte com sua criança. Eu fico. 
As bancas clandestinas declaram o fim de um longo dia... os ambulantes recolhem suas coisas, prevendo a força tática... Com desgosto dobram suas mesas e pegam o metrô: destino Corinthians-Itaquera.
.........
Se todos os dias aqui são iguais, cabe apenas a mim fazer a diferença. O vento não bate novamente, mas meu corpo despenca. Na queda, meu caderno de escritos se abre. As folhas voam, e o meu corpo no chão bate. Um carro vem a oitenta quilômetros por hora, passando sobre mim, como se eu fosse nada. Ele não liga, continua em sua rota inalterada.
Parecia, mas ainda não era o fim. Por meus pecados eu teria de pagar, isso não ficaria assim! Meu sangue e meu corpo são engolidos pelo asfalto, me tornando parte da cidade: minha mãe, contra quem tanto lutei, sendo a filha rebelde de tão grande família, me aceita de volta em seu útero infernal. 
Condenada, as pessoas que ali passam ainda ouvem meu padecimento. 
Eu sou livre, mas não tenho por onde andar... Desvio de mim mesma.

Texto de 03 de outubro de 2009.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

sua amiga

Você me pede perdão
E me oferece sua amizade...

Sua amiga?
Como eu posso ser sua amiga?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando eu sinto seu cheiro
Antes mesmo de te ver chegando?

Como eu posso ser sua amiga,
Se quando te vejo
Caminhando na minha direção 
Eu tenho o impulso de correr até você
Te agarrar
Rasgar as suas roupas

Possuir e ser possuída
No meio da multidão?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando a sua energia 
Esparrama cores vivas
Sobre o cinza dessa cidade 
E sobre o meu próprio mundo cinza?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando a sua voz
Silencia os barulhos violentos
Da Metrópole 
E acalma mais meu coração
Do que qualquer música que eu já ouvi?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando as suas palavras
Exercem maior fascínio
Sobre a minha mente
Do que a soma de todas as palavras
Que li nas páginas dos meus livros preferidos?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando o calor que irradia da sua pele
Aquece a minha pele fria
Melhor do que o sol do meio-dia?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando o seu abraço me conforta
Mais do que a minha casa,
Mais do que todos os museus que já visitei,
Mais do que a minha própria carcaça?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando um mero roçar de pernas
Incendeia o meu corpo inteiro,

Dentro
Fora
E de tal maneira 
Que minhas células parecem
Querer abandonar meu corpo
Em busca do seu?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando eu sinto a minha alma
Sendo atraída pela sua
E os meus dedos imploram contato
Com os seus?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando noite após noite,
Eu fantasio com o peso do seu corpo
Sobre o meu corpo,
Se de pernas abertas
Eu lembro do seu olhar sobre
O meu rosto?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando eu sonho com você
E ouço meu próprio gemido
Recitando o seu nome?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando ao acordar
Eu sinto meu estômago revirar de tristeza
Por você não estar ao meu lado?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando nós viramos as costas
Após o beijo de despedida e
Ainda de pernas bambas,
Eu começo a contar os dias
Os minutos
E os segundos 
Para te ver novamente?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando o meu coração 
Está em chamas
Ardendo
De amor
Por você?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando eu quero ser mais
Do que sua amiga?

Como eu posso ser sua amiga,
Quando eu sei como é ser mais
Do que sua amiga?

Me diga,
Como eu posso ser sua amiga?

(21 de novembro de 2019)

domingo, 3 de julho de 2022

indecência

O vestido vermelho
é alguns números menor
do que o meu tamanho
 
Me emprestaram
e eu não devolvi

Ele entra;
Nas fotos parece perfeito
Pessoalmente, não me cai tão bem...

Ele fica repuxando
Me enforca, mesmo;

Quando eu ando ele sobe
É muito apertado
Na barriga
Minhas coxas ficam perigosamente à mostra
Qualquer ventinho mostra minha bunda

Minha avó até perguntou
Cíntia,
Você está sem calcinha?

Eu fico desconfortável no vestido
Como uma pessoa que está dentro
de algo que não é seu 

Roubei o vestido, não é meu
Eu posso esticá-lo,
posso cortá-lo
E transformá-lo
Mas não seria a mesma coisa
Eu o estragaria
O desbotaria
Desalinharia suas fibras

Arriscaria perder
A essência
Escolho, então, a indecência 

Andando por aí com a bunda de fora

Dia desses, entre juras de amor,
meu bem me disse:
"O pronome possessivo
cai tão bem sobre você!
Veste como aquele seu vestido
vermelho: minha!"

"Muito sua!", respondi

Não disse mentira
É o mais próximo da verdade que se chega

Ainda assim, senti a inquietação
No meu estômago
E um nó na garganta
Me sufocando tal qual o vestido

Esse pronome
Vindo da boca dele
Entra em mim
Mas não me cai bem

Me emprestaram
Esse Homem
E dessa vez eu vou ter que devolver
O que me foi emprestado

Nem eu sou tão indecente!

Ele engatou, numa voz de sono, 
Já sumindo 
"Para de falar isso...
Nisso eu acredito que sou seu dono,
e as coisas podem ficar mais complicadas"

Reafirmei:
"Você é!"

Ele dormiu
Eu não dormi

Eu posso esticar,
Prolongar,
Posso me enganar
Para manter a ilusão;

Perderíamos a essência.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

eu te amo tanto...


Tanto,
que quando penso em você,
me escapa:
"eu te amo tanto..."
Minha voz ecoando no vazio
Eu espero que as palavras te alcancem
Eu espero que o sentimento te alcance

Eu aqui
E você
Onde?
Nem sei mais onde
Não sei por onde
Seus pés caminham 
Não sei onde te encontrar

Mesmo sem saber onde você está
Mesmo que eu nunca mais te encontre

No meio da multidão

Eu te amo tanto...

Não escolhi te amar
Eu nunca escolhi te amar!
Se eu tivesse escolha
Escolheria não te amar

Escolheria nunca ter
Olhado para você...

Te amar é como cair
Num poço sem fundo
Te amar é cair

Na solidão
De não saber mais quem eu sou...

Te amar reduziu tudo que eu era
Te amar drena toda a minha força

Quando penso em você
Eu me sinto fraca

Cabeça leve
Uma lágrima escorrendo num fio contínuo
Pernas trêmulas
Meu corpo em queda livre

Na agônia do meu amor
Penso que vou morrer
... Mas não morro

Te amar é pior do que morrer

Te amar é ser violentamente
Tirada de órbita
Te amar é ser destroçada 
Por um buraco negro
Te amar é como se perder 
No espaço sideral
Sumir sem deixar rastros
Te amar é ser esquecida...

E eu te amo tanto...

Tanto, que às vezes escapa:
"eu te amo tanto, tanto..."
Minha voz abafada 
Pelos gritos do mundo...

Eu espero que as palavras te alcancem
Eu espero que esse amor te alcance

Mas tudo se perde
Na imensidão do Universo
Na imensidão da minha mágoa
.... Eu te amo tanto....

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

ninho

Depois do riso
Do afeto
E do gozo
Eu pensei que sua partida
Me deixaria triste

Pensei que meu coração pesaria,
Como em todas as nossas despedidas,
Sufocado pela saudade instantânea
Pensei que as lágrimas rolariam
Pela distância crescendo
Entre nossos corpos

Com surpresa,
Quando você partiu
— Um piscar de olho
E um te amo suspenso no ar —
Eu não senti vazio
Eu não senti tristeza
Eu não chorei

Meu bem, não disfarço
Eu queria que você ficasse mais
Queria que ficasse para sempre
Aninhado no espaço entre os meus braços

Mas dessa vez
Enquanto você caminhava
Se afastando lentamente
Eu soube que você não iria longe
Nunca mais você vai estar longe
Porque você está dentro
Você está aqui para ficar

De repente a tempestade 
No meu coração deu trégua
Um arco-íris surgiu no meu horizonte
A gritaria na minha mente foi silenciada
Cantaram os pássaros

A paz reinou
Dentro de mim

Te observando trilhar o seu caminho,
Eu soube que aquilo não era um adeus,
Era um volto logo.
Não era um se cuida,
Era um te cuido
De onde eu estiver

terça-feira, 28 de setembro de 2021

...

Eu não te largo
E você não me larga

Dessa vez vai dar certo
Dessa vez vamos ser maduros
Vamos refrear sentimentos
Vamos ser mais amigos

Nessa obsessão disfarçada de amor
Nós não somos amigos
Nem somos amantes

Nós somos destino
Que não se contém
E nem nunca se cumpre

Somos a onda
Sendo arrastada pelo vento
Somos o dia de sol
Que vira tempestade
E deixa desabrigados

Nós somos crime
Passional
Somos doença
Contagiosa
E sem cura

Somos o sonho
Que vira pesadelo
E o corpo não desperta

Somos a urgência
Da fome
Da dor
Da falta de ar

Nós somos fantasmas
Em galerias
Em cruzamentos
Em restaurantes japoneses

Somos arte abstrata
Nos muros de avenidas
Nas paredes de estações
Em camas de motéis........

........ Eu não te largo
E você não me larga
Não me larga

sábado, 17 de abril de 2021

duas formas de amar

Uma pancada, Um beijo Quando eu perco o fôlego Ela me segura num abraço Nossos corpos unidos Nossas respirações buscando sincronia

Suas mãos pousam sobre o meu peito Um beijo Uma pancada, Um beijo Em meio à multidão Ele sussurra no meu ouvido "Um dia eu vou te fazer chorar" Sua voz sombria e triste, Sexy Depois me beija Eu lhe beijo Ele não sabe que já me fez chorar Uma pancada Uma pancada, Um beijo Estou aos pés dela A sola de seu sapato Pressiona minha cara contra o chão Eu sinto a pressão Minha mente está em todo lugar Busco o rosto dele. Uma pancada, Um beijo Estendida sobre a cama Dois, três beijos Vinte beijos, cinquenta beijos Se espalhando por todo o meu corpo Que se contorce Minha mente está focada Meu riso exagerado ecoa pelo quarto Uma pancada, Um beijo O toque dela é gentil Uma pancada, Um beijo O toque dele é gentil Uma pancada, Um beijo Olhando nos meus olhos Ele diz que me ama Mas que isso não vai durar Ele diz que me ama Menos do que eu mereço Por alguns momentos eu fico no lugar nenhum Desvio o olhar do dele Meus olhos ardem Uma pancada, Um beijo Estou ao lado dele Ele acaricia meus cabelos Meu rosto Até cair no sono Sinto o calor de sua mão Sobre a minha cabeça Sinto a pressão O assisto dormir Acompanho sua respiração Digo "eu te amo" Ele não ouve Uma pancada, Um beijo Ela diz que me adora Sua voz diz que ela me adora Seu olhar diz que ela me adora Ela me adora Um beijo

terça-feira, 26 de novembro de 2019

ei, você

Por que você não gosta de mim
Assim?

Eu gosto de você.
Às vezes quase nada.
Às vezes só um pouco.
Às vezes mais do que eu dou conta...

Seja como for, você está
Sempre dentro,

...
Mesmo quando
Às vezes
Você consegue
Fingir que eu não existo.

Eu digo a mim mesma:
Chega! Agora chega!

Acabou.

Mas acabou nada.
Eu continuo...
... como uma coisa que continua
Porque não consegue parar.
Uma avalanche
Ou algo do tipo.

Ela não consegue parar.
Nem eu.

Eu fico martelando a mesma tecla
Até que a letra tenha desaparecido
Até que ela esteja escorregadia
Até que ela quebre.

E eu acho que você sabe
E eu acho que você nota
E eu acho que você tira proveito

Você, com a sua tecla inteira
A letra aí
Anti-derrapante...

... Intacta.

Por que você não gosta de mim 
Assim,
Como eu gosto de você?
Por quê?