sábado, 23 de setembro de 2017

o livro

   Sabe aquele livro que você me recomendou? Eu o comprei. Não foi barato, não. E tem a crise. Mas comprei, e comecei a ler assim que chegou...  até os Correios colaborou, chegou em 2 dias! 
   Eu sei que você já sabe disso, mas não consegui pensar em melhor forma de começar a escrever isso aqui (vamos fingir que você não sabia).
  Alguns diriam que só comprei para te impressionar, mas a verdade é que o seu intelecto (ou curiosidade ou esforço ou como você queira chamar) me instiga. Eu ainda vou lamber o seu cérebro. ...
   Você fala algumas coisas extraordinárias e referencia clássicos que não li (por preguiça ideológica) e filósofos que não conheço (estava ocupada durante as aulas, escrevendo poesia ruim) — mas até que te acompanho bem, não acha? Talvez um dia eu chegue lá.
   O livro me incomoda em alguns pontos, você já sabe. Mas notei que às vezes o que me incomoda é justamente o que tenho em comum com o autor. Quando eu o odeio, estou odiando meu próprio comportamento. Você estava certo quando disse que esse livro tem a ver com aquela crônica sobre minhas "aventuras amorosas". Por outro lado, devo admitir que apesar das torcidas de nariz ocasionais diante das muitas colocações altamente machistas, que eu concordei em contextualizar, me pego rindo de verdade em algumas partes, e sentindo um nó no estômago em outras. Ele sabia dar umas porretadas bem dadas. O filho da puta era bom no que fazia.
   Fiz orelhas bem pequenininhas — tenho essa mania — nas beiradas dos meus poemas preferidos, para comentar com você depois, um dia, de preferência pessoalmente. Te imagino sentado, analisando as páginas marcadas, e eu espiando sobre o seu ombro, para ver em qual página você está. Você os leria, por indulgência, e poderíamos comentar algo sobre esse e aquele poema. Você poderia me perguntar por quê gostei desse e não daquele. Poderia me mostrar os seus preferidos.
   Sei que se eu for ali na nossa janelinha, que por sinal acabou de apitar, e te disser o nome dos meus preferidos, você não lembrará deles, não de cor, e poderá até procurar no google, como numa missão de reconhecimento, mas não seria a mesma coisa. Deve ser essa minha fase, em que o virtual anda alterando o sabor (ou a cor?) das coisas.
   Esse livro tem tanto do que nós já conversamos, e algumas coisas que não conversamos ainda, mas que soa como coisas que diríamos — diremos. Esse tipo de sincronicidade me atordoa!
   Por que começamos a falar desse velho safado, mesmo?... Seja pelo que for, agora eu fico aqui lendo e te vendo, também, em muitos dos poemas. Os que têm mais humor do que safadeza. Tiago, sinto te informar, mas eu acho que ele não gostaria de você. Você ouve Bob Dylan alto.
   Eu sempre fui mais Baez do que Dylan, para ser sincera. Afora o machismo (você deve estar cansado das minhas acusações de machismo nas artes, mas podemos concordar com a inevitabilidade de tal hábito?), uma vez meu avô, que tem uma coleção extensa de VINIS, me prometeu a discografia do Dylan, o que me empolgou muito. Me imaginei com vários discos de vinil, e estava pronta para comprar um toca disco. E no fim, o que recebi? Não, ele não me deu discos de vinil, e sim um CD pirata com músicas do Dylan! Que afronta! Que broxante! Desde então eu não quis mais ouvir Bob fucking Dylan. Isso faz uns 4 anos.
   E agora estou aqui, com o livro que você recomendou na minha frente, escrevendo para você, e ouvindo Bob Dylan. One More Cup of Coffee. Eu não tomo café. Você não toma cerveja. Eu acho que quando nos encontrarmos, teremos que nos contentar com chá. Você gosta de chá, Tiago?
  ... Você fica me perguntando se gostei ou não do livro, como quem teme ter feito uma recomendação que não agradou. E eu digo que quero terminar de ler antes de opinar.
   É que hoje em dia eu leio mais devagar. O tempo é curto, e além de ler, eu tenho que dividi-lo entre ouvir as mesmas músicas repetidamente, reassistir seriados velhos que ainda me causam sensações oportunas, e lavar meus cabelos.
   Aliás, eu também deveria usar um pouco do meu tempo para ir ao mercado e riscar os itens da minha lista de compras. Só que a lista está me servindo de marca-página sempre que eu sou forçada a deixar o livro de lado.
   E talvez esse tipo de livro seja melhor apreciado em pequenas doses, de qualquer forma.
   Se você quer tanto saber: sim, eu gostei do livro! Gostei, porque às vezes não gostei. Gostei porque às vezes ele foi completamente indigesto e grotesco. Gostei porque ele socou minha cara e espremeu meu coração entre suas pequenas páginas. Essas reações adversas são a prova de que algo presta. Por alguns momentos a indignação e repulsa nos balançam e nutrem dentro de nós essa coisinha chamada vida.
   

   Eu sempre tenho perguntas para te fazer, então aqui vai mais uma, para encerrar: você acha que eu me excedo no uso dos travessões?

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Restos

Cíntia.


Quantas vezes


você chorou


na sua vida

Trancada entre 4 paredes


De quartos que não têm fechadura?

Admirando o teto
a parede
o chão
a janela

o céu lá fora
longe,
tão longe
... fora






do seu alcance?







Quantas vezes você não conseguiu ver as estrelas
por que os seus olhos estavam cegos 

de tristeza
inchados
e molhados?

Quantas vezes você embaçou os seus óculos
E respingou suas lentes
com essas lágrimas
espessas

que ninguém vê além de você

e seus amigos mortos?

A Juliana bem te disse

"Você anda muito chorona"

Mas isso foi antes, quando ela estava viva



Cíntia

você realmente
achou
por um segundo

que você poderia ter aquele cara?
ele é inteligente
e sensível
ele tem olhos de criança
e barba de homem
e você sabe muito bem
que esses caras
Cíntia
eles admiram sua inteligência
e te querem sempre
como
amiga.

Você é como Bukowski

sabe?

você sente nojo dele
porque é como ele.

Você sabe

Para você estão designados os putos
os impuros
os fetichistas
os caras
com sorriso de lobo

eles vão te foder por trás

você achou mesmo?



você....................




que é como Bukowski


deixou-se iludir

por um instante


que poderia alcançar essa miragem?

um garoto calmo

limpo;




vocês dois numa cama, vestidos
com música flutuando sobre vocês
apenas se encarando, aprendendo
cada detalhe do rosto um do outro


com as pontas dos dez dedos?
você sabe melhor do que isso
você deveria saber

eles vão te foder por trás
te tocando o mínimo possível

vão pedir para mijar na sua boca
para chupar o seu cu
ou para lamber os seus pés
eles vão pedir coisas

e vão te foder por trás

porque ninguém quer fazer amor 
olhando para a sua cara 

ninguém quer olhar dentro dos seus olhos

ninguém quer encarar esse vazio.

eles vão te foder por trás
escondidos dos amigos

Claro que não, cara
eu não fodo gordas
Vão te foder pelas costas
dos amigos


e ir embora

depois que gozarem
em cima


da sua alma.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Salina

Você está certo em tudo o que diz.
Suas palavras não são novas,
Mas fazem todo sentido
Se vomitadas por outra pessoa, 
Fariam sentido nenhum
Até me permito chorar diante de tanta coerência
Só que eu choro por tantas palavras, 
Com tanta frequência, que fico descreditada
Choro quase sempre, mesmo sem motivos
Às vezes o choro vem numa torrente de palavras
Que saem ao mesmo tempo da minha cabeça
E do meu músculo cardíaco
Às vezes é como um vulcão em erupção, 
Mas as lavas são vermelhas, seis litros delas
Tem vezes que vem de forma tão estranha;
Um líquido viscoso e translúcido 
Escorrendo pelas minhas pernas
E às vezes é a receita tradicional;
Água, sais minerais, proteínas e gordura.
Fluidos lacrimais.
Essas lágrimas que eu sempre imagino meio amareladas
Mas são mesmo transparentes 
(não o suficiente)
Eu queria que você visse as minhas lágrimas
E fizesse algum sentido delas.
Eu tenho esse desejo latente
De que alguém se aproxime de mim
E beije o meu rosto molhado-salgado,
Sorvendo toda a tristeza que escapa pelos meus olhos.

domingo, 17 de setembro de 2017

eu quero te beijar debaixo de uma árvore

   Difícil, né?
   Ler as pessoas. Saber o que elas estão pensando — ou, antes, sentindo. Especialmente na impossibilidade de demorar o olhar nelas, analisando detalhadamente o que o corpo geralmente fala e passa batido: os olhos, que quase sempre gritam; uma leve curvatura do canto da boca, formando um meio sorriso (ou um esboço de escárnio?); sobrancelhas erguidas repentinamente diante de alguma frase especialmente brilhante ou dolorosamente estúpida; uma língua lambendo, ligeiramente, lábios que preferem calar; uma respiração mais demorada, ou retida de forma tão brusca, que parece que o oxigênio da Terra foi temporariamente suspenso. Dedos sendo levados à testa ou à orelha, esfregando-as para esconder o embaraço. Pernas que não aquietam.
   Eu me jogo em incertezas e sonho acordada por horas a fio, derretendo sob o telhado de barro do meu quarto, onde o sol bate incessantemente. Concluo: te beijar não seria terrível.
  E se eu te encurralasse, pressionando seu corpo contra uma árvore, meus lábios vermelhos, com bochechas rosadas para combinar? 
   É claro que eu teria vergonha. Mas decidi, agora que já tenho 27 anos, que chegou a hora de ser atrevida-vida-vida-vida.
   E repentinamente lembro de um beijo; um beijo roubado, um beijo amargo — tinha gosto de angústia. 
   Decido: não quero te roubar um beijo, quero ofertá-lo. Fica a seu critério.
  Então, diante da árvore, eu não te encurralo. Te ofereço lábios entreabertos, gloss com glitter, sabor menta. 
   (Você não entende a oferta e eu quebro o momento. Tudo em nome do livre-arbítrio!) Tá vendo essa boca aqui? Ela foi feita para beijar. Eu acho que a sua também foi
   Que graça teria?, alguns perguntariam. Onde fica o elemento surpresa?
   O elemento surpresa, meus caros, não está na resposta de se ele aceitaria meu beijo ou não. Isso é pura agonia. A verdadeira surpresa está em qual seria o gosto desse beijo. Em qual seria a textura dessa língua se enfiando na minha boca. Em quanto tempo duraria a troca de saliva, e que tipo de sensações transcorreriam por nossos corpos. Onde nossas mãos pousariam? Está em quantas vezes repetiríamos essa dança, e se, ao fim, ficaríamos querendo mais.
   Mas é difícil ler as pessoas. Livros são mais fáceis.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

intocável

   Toda madrugada, antes de dormir, eu fico na minha cama, em meio ao escuro e o silêncio, fingindo que não estou sozinha. Fingindo que tem dois braços me aninhando; um coração batendo ao alcance do meu ouvido, meu rosto colado na pele nua e morna. O cheiro de vida emanando dela. Uma respiração tranquila pairando sobre mim... Nossas pernas estão sempre entrelaçadas. Eu o abraço com força, como um náufrago se agarrando a uma boia.
   E de tanto imaginar, chego a sentir a pressão desse corpo contra o meu. Ele dorme, eu me contento em ficar ali parada entre braços que me querem.
   Às vezes acordo desse delírio auto-induzido e choro de solidão. Lágrimas tão grossas que mal parecem líquidas, e soluços altos, convulsos, que ecoam pelo meu quarto, pela casa inteira, que talvez ouçam até da rua (...) mas ninguém se manifesta.
   Já fui menos piegas. (Será?). É a idade (alguns diriam). As necessidades passam a ser diferentes (interrogação). 
  Não, eu sempre tive necessidades, mesmo negando tê-las. Elas se manifestavam nas vezes em que eu tinha que me forçar a não tocar a pele exposta de pessoas com os braços erguidos no metrô. Em todas as vezes que eu de fato forcei contato físico com desconhecidos, deixando minha mão escorregar no ferro do ônibus para tocar a de alguém, quando abri mais as pernas no assento, para encostá-la na da pessoa ao lado, nas vezes que coloquei o braço mais para a direita para ultrapassar a linha entre o meu espaço e o espaço do meu colega de sala... E poder dizer, foi sem querer. Dessa forma eu não tinha que admitir para ninguém que precisava de coisas que não podia ter, coisas que sou incapaz de me permitir sem abandonar o nível mínimo de conforto que mantenho. Assim eu podia continuar sendo a pessoa durona que muitos imaginavam. Sozinha por escolha. Ligeiramente autista.
   É um paradoxo. Mas já ouvi que sou paradoxal. Inteligente demais para ser tão burra.
  Nos meus piores momentos, quando duas forças dentro de mim se atraem e se repelem ao mesmo tempo, fazendo-me sentir como se estivessem rasgando a minha alma, eu penso em correr para esses braços que me aninham todas as noites, chorar nesse peito cujas pintas e pêlos eu conheço de cor, deixar que o cheiro de vida que vem desse corpo anestesie o processo magnético que destroça as minhas entranhas. 
   Mas a fantasia não é suficiente. De dia, especialmente, é tudo brutalmente real.
  Eu corro, buscando quem entenda, quem se importe, e não encontro ninguém. Não encontro nada além da fidelidade dos objetos cortantes.  Meu ser implora por contato físico, por um toque. O que está ao meu alcance, porém, é a sensação da pele se abrindo sob a pressão afiada da lâmina. 
  

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

perfeita?


   Outro dia desses sonhei que escrevia um post dizendo o quanto minha vida estava perfeita.

   Confesso que às vezes, quando me sinto bem, fico maquinando o post que vou escrever, enumerando todas minhas pequenas evoluções dos últimos dois anos*, porém boto mais fé na tristeza do que na felicidade. Ambos são sintomas passageiros na VIDA das pessoas, mas na minha vidinha a tristeza é mais fiel do que aquilo que chamo de alegria. Não ouso dizer que já me senti feliz. Estive contente muitas vezes. Amei pessoas, senti borboletas no estômago, vibrei quando o J'onn J'onzz voltou para a Liga da Justiça, e pizza sempre me deixa com uma sensação de esperança; felicidade me parece um pouco mais do que essas coisas.
   Contudo, os últimos meses têm sido de certa euforia.  Senti o click dentro de mim. Voltei a escrever, voltei a desenhar, voltei a amar certas pessoas, voltei a ter vaidade; ou seja, voltei a ser um ser humano (será?). 
   O problema é que eu sei que tudo isso é passageiro, e que no meu caso tende a passar tão rápido que chego a ficar tonta quando finalmente passa.

* Eu fui editar esse post, que se não me falha a memória, é de 2016, e ele ficou como se tivesse sido publicado em 11/09/2017. Esse post nunca foi finalizado e não sei porque acabou publicado, em primeiro lugar. Ele é estranho, incompleto, mas gosto dele por algum motivo. Outdated but fuck it.

sábado, 13 de maio de 2017

panorama

Minha vida está fora de controle. E o meu quarto, um espelho da minha confusão interna, está decadente: garrafas vazias tombadas no chão, livros abertos fora da estante, sapatos sem par espalhados aqui e ali, lixo fora da lixeira — que transbordou três semanas atrás —, cheiro de cigarro velho e suor acumulado e sangue coagulado e comida podre em pratos quase intocados; roupa suja no meio da roupa limpa, emboladas em cima da minha cama.
Quando eu vou dormir coloco o bolo de roupas na cadeira. Quando acordo eu jogo tudo na cama de novo  (e quando foi a última vez que troquei esse lençol?!). As que caem no chão, ficam. Isso quando não estou bêbada demais e durmo, desconfortável, sobre as roupas já amarrotadas.
Tem uma lâmina na minha janela. Eu ia jogá-la pela janela, mas não queria que o cachorro se cortasse nela. Não o suporto, é bem verdade, mas evito ao máximo confusões. A invisibilidade me cai bem.
Minha estante, ah!, minha estante, a menina dos meus olhos... Meus livros estão empoeirados e com teias de aranhas. Eu olho para ela todos os dias, quando acordo ainda bêbada e enjoada, crescentemente angustiada, e digo: Cíntia, dá um jeito nisso! Cíntia, faz alguma coisa! Cíntia, que vergonha!
É uma vergonha.
Quando eu piso no meu chão descalça, sinto a sujeira grudar na sola dos meus pés. E eu não gosto de chinelos. Meus cabelos caem loucamente e ficam espalhados por todos os móveis, sobre todos os livros, sobre todas as roupas, e voam pela janela. Ele cai aos tufos. Quando eu passo a mão no fruto da minha vaidade lembro que estou ficando careca. É o estresse, é a vergonha. É a genética.
Faz alguma coisa, Cíntia! — meus amigos dizem também.
Você é tão inteligente, Cíntia. Inteligente demais para se restringir ao universo do seu quarto, Cíntia! Se você começar a tatuar eu te dou as tintas, Cíntia! o Sillas oferta. Se você se inscrever no ENEM eu pago sua inscrição, Cíntia! a Giuliane exige. Se você quiser eu limpo o seu quarto, Cíntia! minha mãe propõe. Só você pode se ajudar, Cíntia! todos dizem em coro, repetidamente, por horas e horas a fio, sem pausa nem para retomar o fôlego. Eu desisto, Cíntia, faça o que você quiser. É a sua vida, Cíntia. Deus deu uma para cada um cuidar da sua, Cíntia. Você fica nessa porque quer, Cíntia! Cíntia!!!!! Acorda, Cíntia!
Meus amigos querem vir me visitar, estão preocupados. Mas eu não deixo. Meu quarto está uma bagunça. Tenho vergonha. É a bagunça de dentro que transbordou — quantas semanas atrás?...




quinta-feira, 4 de maio de 2017

Apático

Para você eu dei tudo. 
Tudo que eu sabia ser, 
Tudo que eu aprendi a ser, 
Tudo que eu sempre quis ser 
E pensei que nunca seria. 
Entreguei meu corpo 
E minha mente nas suas mãos: 
E nós só transamos uma vez.
Agora eu fico com as 
Promessas vazias,
Velhos hábitos,
Novas marcas,
Inventivos métodos de auto-tortura 
... E um silêncio sem fim que 
Martela na minha cabeça;
Que faz descompassar o meu coração...
Eu fico com o gosto do cigarro na boca. 
Com o cheiro do vômito
Após uma bebedeira para 
Calar o meu corpo que inquieta 
Ao pensar em você. 
Fico com a mancha do sangue, 
Do meu sangue, que verte sem cessar 
Pela ferida aberta 
Porque você é o único. 
Fico com lembranças
— Que serão borradas pelo tempo.

Eu não fiz nada para merecer tanta apatia!

terça-feira, 18 de abril de 2017

estou bem

Psiquiatra: Você está com uma cara ótima.
Eu (por dentro): só se for a cara mesmo! Aprendi a disfarçar.
Psiquiatra: você está bem?
Eu: não. Esses dias foram difíceis.
Psiquiatra: Por que?
Eu: Muita ansiedade, muita angústia. Tenho bebido.
Psiquiatra: você não estava bebendo antes, né?
Eu: não.
Psiquiatra: tem se cortado?
Eu: sim.
Psiquiatra: onde?
Eu: Coxas e barriga.
Psiquiatra: e o que é isso nos seus braços?
Eu: queimaduras de cigarro. Comecei a fumar.
Psiquiatra (rindo): Nossa, sério? Por que?
Eu: Porque ando muito ansiosa, angustiada.
Psiquiatra: Mas tudo bem, fumar não é tão ruim assim...
Eu: eu tenho asma!
Psiquiatra: Eita, Cíntia!
Eu: tenho pensado muito em suicídio.
Psiquiatra: É? Todos os dias?
Eu: Sim
Psiquiatra: e como é isso?
Eu: eu fico pensando em formas 100% garantidas de morrer, procurando métodos.
Psiquiatra: Por exemplo?
Eu: São coisas meio hardcore... enfiar uma faca no coração! Li sobre pessoas que fizeram isso... (...)
Psiquiatra: Onde você consegue leitura sobre esse tipo de coisa?
Eu: No google. Pesquiso em inglês. Li sobre um cara que deu 5 facadas no próprio peito.
Psiquiatra: Imagina que terrível...
Eu: imagina o desespero que isso requer... Meu único medo é falhar e ficar pior do que agora.
Psiquiatra: É o que geralmente acontece. Mas você não vai se matar, não é?
Eu: talvez não com facadas no peito, mas no final sim!
Psiquiatra: Por que?
Eu: Porque não existe futuro pra mim!
Psiquiatra: Por que diz isso?
Eu: se eu não morrer vou acabar uma moradora de rua!
Psiquiatra: Não vai. Você tem família, apoio da equipe do posto. O que está ruim?
Eu: TUDO.
Psiquiatra: essa resposta é muito fácil.
Eu: É tudo. minha vida profissional, amorosa e com família e amigos, é tudo uma bosta!
Psiquiatra: e você pensa em matar alguém?
Eu: sim... muita gente.
Psiquiatra (rindo): quem você mataria?
Eu: é sério... não é engraçado.
Psiquiatra: eu sei, por isso...
Eu: ... Queria matar todos que me ofendem.
Psiquiatra: e isso acontece sempre?
Eu: Sim.
Psiquiatra: como te ofendem?
Eu: não valorizando meus sentimentos! Mataria meu ex-psiquiatra, e depois me mataria! (...)
Psiquiatra: bom, Cíntia, é ótimo te ver tão bem! Até a próxima consulta!

quarta-feira, 12 de abril de 2017

nada muda



VÍSCERAS

Dispenso a racionalidade,
Sou ser passional!
Contigo sou plena
Sou mais do que potencial...
Me torno real
Visível
Audível
Palpável
Sensível
Contigo na cama sou mais que mulher,
Sou Energia Vital
Criatura Transcendental
Espírito Animal
Tudo que existe e transborda
E derrama e se espalha
E pega fogo e explode,
Sem contenção e sem volta
Ao estado original.
Dispenso a racionalidade!
Sou ser passional!

domingo, 9 de abril de 2017

mensagem entregue ao destinatário

Eu sinceramente não aguento mais ser ignorada por você, sabe? Eu sei o que você vai dizer: que não tem mais tanto tempo quanto antes para dar atenção, mas eu não estou pedindo para você me dar atenção 24h por dia, para falar comigo em todo segundo que estiver acordado... porém eu realmente acho que se você quisesse, você poderia dedicar mais do que 1 minuto por dia, que é o que tem dedicado há semanas. Eu não entrei no Tinder buscando alguém para me ignorar, isso eu tenho aos montes por parte de colegas distantes, família e até amigos bem próximos. Eu entrei lá buscando intimidade e calor humano, alguém com quem eu pudesse falar, abraçar, ver, beijar, contar, ligar, rir, chamar para um rolê espontâneo... Justamente o que nunca tive. Isso está minando minha auto-confiança, que você mesmo ajudou a construir ao longo dos dois meses que nos conhecemos. Um cara como você, que se mostrou tão sexual simplesmente não pararia de falar de forma tão brusca. E eu acho que foge da compreensão de qualquer pessoa sensata o que você tem feito... você está conversando com alguém mais interessante? Acabou o encanto? O tesão? A intensidade do que estava rolando te assustou o suficiente para você pisar nos freios dessa forma? Porque mesmo sendo uma pessoa fodida eu não tive dificuldade de me entregar A VOCÊ, mas isso tem que ser recíproco, não pode seguir sendo uma coisa unilateral, com monólogos da minha parte. Você é basicamente a minha Rosa. Tem milhares da sua espécie por aí, mas não tem nenhum exatamente igual a você, porque VOCÊ que me cativou, porque é VOCÊ que eu quero. Mas assim como a Rosa, você se colocou sob uma redoma que eu não posso penetrar. Você me perguntou um tempo atrás se eu teria maturidade e estabilidade emocional para ter o tipo de relação que VOCÊ queria, e eu acredito veementemente que estou tendo essa maturidade e essa estabilidade, mas você não. Você falou sobre responsabilidade emocional, mas não está sendo responsável comigo. Você falou sobre cuidar de quem eu sou contigo, mas não está cuidando. Diz que é recíproco, mas não oferece reciprocidade. Você disse muitas coisas. E eu amo palavras, elas são peça fundamental na vida, e você usá-las tão bem tanto de forma escrita quanto falada, foi o que me encantou por você. Mas no fim do dia, o que conta MESMO são atos. Eu sou sua putinha enquanto você quiser. Mas sexualmente. Fora desse contexto eu sou uma mulher intelectualmente compatível a você, e é isso que torna tudo tão incrível. Nós dois somos extremamente inteligentes. Mas você não está me tratando como se eu fosse inteligente, embora diga que sou. A primeira coisa escancarada desde o princípio no meu perfil, e que você disse ser instigante, é justamente que EU NÃO QUERO JOGOS MENTAIS. Não sou feita pra eles, simplesmente não tenho emocional PRA ISSO. Eu preciso que você pegue todo esse carinho, respeito e tesão que diz sentir, e decida o que você quer. Porque eu sei exatamente o que eu quero: você. Mas não dá para eu ficar dando sem receber. Não é justo. Eu não preciso de proposta de compromisso, preciso de honestidade. Para consigo e para comigo. Sempre partindo DOS DOIS LADOS!



sexta-feira, 24 de março de 2017

amor³

  You're no good for me 
But baby I want you, I want you

  Eu fui, por muitos e muitos anos, viciada em me apaixonar. Até os 22 anos eu simplesmente não consigo me lembrar de uma fase na qual não estivesse apaixonada por alguém.
  A primeira vez que eu me apaixonei por um garoto eu devia ter uns 7 anos. O nome dele era Francis. A mãe dele cuidava de mim e dos meus irmãos às vezes. Lembro que a minha mãe nos acordava muito cedo para nos levar até a casa deles, que ficava na igreja que frequentávamos... Quase posso tocar as manhãs frias, o vapor saindo das nossas bocas durante a caminhada, o sono. E sinto o cheiro de xixi — eu fiz xixi na cama com frequência até os 8 ou 9 anos. Disfarçava enfiando as cobertas no meio das pernas na esperança de que ela absorvesse aquela coisa molhada e fria e minha mãe não notasse. Mas fazer o quê com o cheiro? Na maior parte do tempo, eu acho que as pessoas fingiam não perceber, por pena.
  O Francis era um bom garoto. Educado, não falava palavrão, e só uma vez mostrou o dedo, mas não o do meio, o indicador. Aquele ato foi, porém, digno da reprovação de sua mãe. O que vale, concordaram minha mãe e a dele, é a intenção. Ele era mais velho, como sempre. Moreno, cabelos negros, e se fecho os olhos ainda lembro do seu rosto.
  Ele me ensinou a fazer bolinhas de chiclete. Quando eu cresci mais um pouco, a aposta de todos era que seríamos namorados um dia. Ele corava quando eu entrava na igreja. Olhava atentamente quando eu cantava (se eu pudesse ser uma flor no jardim de Deus...♫), e uma vez ele sentou no banco bem atrás de mim e passou o culto todo mexendo nos meus cabelos. A sensação era tão boa que eu acabei dormindo.
  Uma vez eu estava pendurando umas calcinhas no varal e minha mãe disse: "sabia que o Francis está namorando com a Débora?". Derrubei a calcinha, magoada e surpresa, porque a Débora era a minha melhor amiga. Ela também era morena, de cabelos cacheadinhos, e também cantava um hino na igreja (Deus não gosta de moleque malcrioso ♫), seria tão típico que até eu, então com 10 anos, teria entendido a probabilidade! Mas era mentira. Era mentira.
  Mas eu fui embora. Será que continuou sendo mentira?
  Mesmo com o coração povoado, o Francis era o Senhor supremo deste. Mas fui obrigada a seguir em frente, porque lhe escrevi uma carta após mudar para a casa do meu pai, e não sei se ele recebeu, se ele leu, só sei que não respondeu. 
  Depois teve o Tony. Toni. ToNYYYYY! Antonio Ricardo Pongeluppi!, a quem amei com loucura por boa parte da minha adolescência. O conheci aos 11 aos, ele era filho do então sócio do meu pai. Tinha 17 anos, fora do meu alcance em todos os sentidos. 
  O Tony não era um bom garoto. Ele flertava com todas as meninas e mulheres — inclusive com a minha melhor amiga à época, que nunca me deixa esquecer — e dizia coisas grosseiras com frequência. Ele gostava de jogar paciência no computador, ouvia Jorge Aragão (dizem que os dedos sentem sabor, quem vai saber? ♫) e odiava que eu escrevesse seu nome com y. Uma vez eu escrevi repetidamente em um caderno: TONY EU TE AMO TONY EU TE AMO TONY EU TE AMO TONY.... TONY! E lhe entreguei o caderno. Deixei apenas a última folha disponível para resposta. E a resposta veio: Toni é com I, sua burra! 
  Eu corri, dramática como a personagem de um filme, e me joguei no chão, numa sala cheia de manequins pelados e sacos de roupas. Chorei, chorei, chorei calculadamente, até que ele apareceu, comendo uma coxinha, e se agachou ao meu lado. Riu um pouco, pediu desculpa embaraçado; seguimos em frente.
  Uma vez eu roubei o boné do Tony e o lavei, utilizando meia caixa de sabão em pó e um litro de amaciante, para que ficasse perfeito. No dia seguinte lhe entreguei o boné. Um dia depois ele chegou com o boné imundo, todo gotejado de tinta. Foi uma afronta direta. Chorei de novo! Ele não pediu desculpa.
  O pai do Tony me chamava de nora, e apesar dos desaforos, a coisa se estendeu por muitos anos. Uma vez eu estava subindo as escadas, na época em que usava sainha de putinha, e quando olhei pra trás ele estava lá embaixo, olhando de forma muito interessada. Ele disfarçou só um pouco. Eu arrumei a sainha só um pouco. Ficamos calados por um momento, e ele subiu atrás de mim. Gostei, e ainda gosto, de saber que a minha bunda e minhas coxas lhe causaram, naquele momento, interesse.
  Porém, certa vez o ouvi dizer: "ela é bonita--- se fosse magra eu pegava!". Vem me pegar, Tony. Não, brincadeira, não vem não. Vi sua foto recentemente, e você está feio. Feio, Tony, você está feio, apesar de ser magro! Eu não te pegaria, Tony!
  Uma eternidade se passou, muitos caras passaram, e surgiu o Marcelo. A mais perfeita miragem. O Marcelo, o enigma. Marcelo, eu nem sei se você era um bom menino ou não. Porque quando te conheci você já era homem.
  De abraços demorados e pernas roçando sob a mesa e poemas e viagens e idiomas e  carreira e Caetano Veloso (caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento ♫). O Marcelo era como o meu xixi: quente na hora, mas frio, muito frio após alguns minutos. O Marcelo, que me analisou e me diagnosticou e faturou com a minha dor e o meu amor. Manipulador, certamente. Homem, quando eu era uma menina perdida. Homens, lá dentro do coração, são piores do que garotos. São mais calculistas. Meninos fazem sem querer, homens pensam e fazem mesmo assim.
  Muitos caras passaram pelo meu coração e pela minha mente e pelas minhas pernas em dias e dias de febre constante, de insônia, de ansiedade. Francis, William, Johnny, Tony, Leonardo, Bruno, Israel, Felipe, Thiago, Rafael, Leandro, Daniel, Evandro, Wanderlei, Diego, Miguel, Caetano, Robson, Anderson, Alexandre, ... e tantos outros. Namorados de amigas, colegas de escola, professores, médicos, amigos meus, alguns maduros o suficiente, outros não... Pego meus diários e eles gotejam lágrimas, sangue e nomes, nomes, histórias semi-falsificadas, lembranças que escorregaram da minha memória para os meus olhos para os meus dedos, para a minha ...........
  E de tantos rostos e tantos nomes, são dois os caras que se destacam. Dois sonhos de uma noite de verão, um até mesmo sem nome. O que sonhei, o que ainda sonho.
  Eu estava em uma época selvagem e decidi fazer uma visita a minha amiga Adore, levar-lhe comida, pois ela resmungava que estava passando fome (o que não era bem verdade). O problema: não me ocorreu que o metrô fechava a meia-noite, e fui expulsa da estação no meio do trajeto, indo parar em um dos lugares mais sujos e perigosos de São Paulo... a Luz.
  Sentei ali na calçada, esperando que desse o horário da porra reabrir, e um cara sentou ao meu lado, disse que era perigoso eu ficar sozinha, que ele me faria companhia (e veio a calhar quando uma barata me atacou).
  Não lembro de sua aparência. Não exatamente. Fica um registro abstrato na memória. Ele também havia sido expulso do metrô, me informou, e logo perguntou o que eu tinha nas sacolas. Lhe disse que tinha comida, perguntei se ele queria. Recusou o pão porque não tinha nada para colocar no meio. Não era um sem teto, apenas um corinthiano de corpo e alma, desses que conseguem falar sobre qualquer coisa, em qualquer lugar, fazer o que quiserem sem inibição.
  Por algum motivo ele foi parar no meu colo. Deitado nas minhas pernas, os braços sob a cabeça, exigindo carinho com sua fala mansa. E foi tão fácil oferecer-lhe afagos, que eu cedi. Toquei seu rosto, milímetro por milímetro, e pousei uma mão sobre o seu coração, sentindo-o palpitar, sentindo seu ritmo. Ele abraçou minha cintura, ainda deitado sobre mim, falando, falando, muito perto da minha vagina.
  Dormiu um pouco e eu o observei dormindo como se nos conhecêssemos, como se estivéssemos apaixonados. Ele quis me deixar dormir também, mas eu, vítima da insônia e da desconfiança, não precisava.
  E quando o metrô reabriu, simplesmente seguimos rumos separados sem ao menos um beijo. Qual era seu nome?! Não me lembro! Queria lembrar. Queria ter repetido o ritual. Queria tê-lo conhecido. Queria ter sentido seu coração mais vezes. Mas talvez ele só esteja na minha cabeça agora, 6 anos depois,  sendo digno de nota nesta pequena divagação sobre meus amores, porque permaneceu um desconhecido.
  E, por fim, teve o Jonathan. O meu amor bandido, o cara que me apresentou à cocaína.
  A faculdade estava insuportável. A sala inteira me odiava, e eu odiava a sala inteira. Cabulei aula e desci antes do meu ponto, indo parar no Cemitério da Saudade. Era uma das primeiras da série de visitas que eu prestaria ao local... Estava sentada ali, ao lado do portão dos fundos, pensando na vida, quando o Jonathan chega e pergunta se pode sentar por ali. Respondo que sim, claro. O observo... Ele tira um pino de cocaína, cheira um pouco. Olha para mim e pergunta: "quer?". Frustrada, deprimida, curiosa, respondo que sim. Ele fica de joelhos e se aproxima de mim, assim, engatinhando. Coloca um pouco do pó na lateral da mão e a estende, me passa o canudo, e eu, sem ter certeza de como, fiquei também de joelhos e mandei o pózinho amarelado pra dentro do meu sistema pela primeira vez na vida. Agora mesmo posso sentir a sensação da porra no meu cérebro fodido pela depressão e os remédios psiquiátricos! A calmaria, ao contrário do que a maioria das pessoas sentem. Meu corpo ficando dormente nos lugares certos.
  Fiquei dependente do Jonathan e do pó na mesma proporção.
  Ele era um bom garoto. Fala baixa, rejeitado pela família, carinhoso e me deixava ficar encostada nele por horas.
  Ele me roubou uma vez. Pediu meu MP3 emprestado, disse que levaria na boca para arrumar pó pra gente, que no dia seguinte arrumaria dinheiro para resgatar o aparelho. Ele foi — com o meu bilhete — e não voltou. Eu fiquei sem pó, sem MP3, sem bilhete e sem Jonathan. Fiquei foi com um olho roxo e inchado. Liguei para a casa dele, fiz cena, fui chamada de vagabunda por sua irmã. Mas eu até que gosto de ser chamada de vagabunda, no contexto de uma mulher que não se valoriza.
  Alguns dias depois ele aparece no cemitério. Eu estou tomando black stone com gelo quase derretido, que carreguei em uma lata de leite, da minha casa até o cemitério. Eu, puta da vida, ele, sorridente e tranquilo como sempre. Safado. Diz que eu estou bonita. Me derreto. Diz que eu sou muito chique, tomando whisky enquanto ele não tem dinheiro para tomar pinga. Lhe ofereço meu whisky. Ele aceita... Ele aceita a garrafa toda. Diz que levará a garrafa na boca para conseguir pó pra gente, e que dessa vez voltará. Eu cedo. Leva. Leva a minha garrafa de whisky, leva a minha mochila também, leva o meu coração, toma aqui!
  Mas dessa vez ele volta. E me diz: "eu disse que ia voltar!". Diz que conseguiu dois pinos, mas eu sei que tem mais escondido. Não importa, dois pinos estão de bom tamanho, e dessa vez ele voltou! Eu fico tão comovida com o fato de ele ter voltado, que o seguro pelo queixo, o faço olhar para mim e lhe beijo a boca, com carinho e ardência ao mesmo tempo. E aquele... Ah, aquele é o beijo que eu vou levar para sempre na memória como o meu primeiro beijo, mesmo não tendo sido o primeiro! 
  Nos beijamos e cheiramos, cheiramos e nos beijamos. Ele pede para eu chupá-lo, eu me nego (e agora me arrependo).
  Mas o Jonathan estava mais propenso a ir do que a ficar. E um dia foi. Não o vi mais, não de verdade, apenas em delírio de benflogin. Ei, Jonathan! Me espera! Ei! Opa, desculpa, pensei que fosse outra pessoa. E não era ninguém.
  Se eu pudesse ter uma pessoa, com todos os dramas e pequenos abusos e delinquência, seria o Jonathan. Porque de todos os caras que eu amei, o Jonathan é o mais EU que já existiu. Fodido como eu. Auto-destrutivo como eu. Tão morto quanto eu. Eu só queria ficar encostada nele por horas. Cheirar com ele por horas. Beijá-lo por horas. Repetir tudo por horas. Até morrermos.


Ei, Jonathan. Cadê você, porra? Foda-se a sua família de merda! EU te amo!

sábado, 18 de março de 2017

Confiar

Confiar
Confiar
Confiar
Seferrar


Meus amigos são assim: eles dizem que eu sou talentosa — deveria expôr mais a minha arte. Que eu sou inteligente — deveria dar vazão aos meus pensamentos.

Mas...

Se eu sou tão talentosa, por que não dão a mínima para as minhas expressões artísticas?
Se eu sou tão inteligente, por que me tratam como se eu fosse idiota?

As palavras são preciosas demais para serem desperdiçadas em elogios vãos. Pra quê o discurso? Antes, não digam nada. 



Hoje a agonia me atingiu com os dois pés no peito. 

Sou inteligente o bastante para captar mentiras.

ConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarseferrarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarseferrarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarseferrarseferrarseferrarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarseferrarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarseferrarconfiarconfiarconfiarseferrarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarseferrarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarseferrarconfiarConfiarconfiarseferrarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarseferrarConfiarconfiarconfiarconfiarpraquê

Eu estou cansada de ser manipulada.

Sou inteligente o bastante para captar mentiras



Mas burra o suficiente para engoli-las mesmo assim! A seco!

terça-feira, 14 de março de 2017

Preterida

  Eu tenho 5 relógios. Nenhum deles funciona.
  Eu compro e uso por um tempo... não, na verdade, eu coloco. Mas quando chego ao meu destino, a primeira coisa que faço é tirá-lo. Um amigo me perguntou, depois de eu esquecer meu relógio na casa dele pela terceira vez: "por que você coloca relógio, hein?"
  Sou obcecada pelo tempo. O tempo que já foi, o tempo que desperdiço, o tempo que ainda me resta. O tempo que eu poderia encurtar. Mas não faço nada sobre nada.
  Não gosto de chegar atrasada; mas já fui melhor nisso. Perdi minha pontualidade britânica. Eu programo o horário que devo acordar, quanto tempo posso ficar no banho (é sempre aí que a coisa desanda), quanto tempo tenho para me arrumar (sempre na correria) e quanto tempo levará o trajeto (o ônibus sempre atrasa). Antes eu chegava horas mais cedo, hoje eu chego em cima da hora. Quando não me atraso - mas sempre mando mensagem avisando.
  Acontece que a empolgação já não é a mesma. Quando você chega horas antes para um compromisso, e a pessoa chega horas depois em relação ao horário combinado, você começa a perceber que não há tanta vontade assim... Que você não está na cabeça da pessoa tanto quanto ela está na sua. Que ela tem controle, você não tem. Bate a desilusão.
  Eu queria ser prioritária na vida de alguém. Ser a primeira coisa na cabeça de alguém um momento antes de ela abrir os olhos de manhã, e ser a última um momento antes de ela cair no torpor. Ser a primeira escolha, ser a preferida. O que recebo, entretanto, é, repetidamente, uma indiferença sadia o suficiente para manter no ar a noção de que eu sou a louca, de que eu cobro demais. Insana. Compulsiva.
 O tempo: as pessoas não valorizam o meu. Eu valorizo o delas desmarcando compromissos - sempre com certa antecedência.
  Ademais, eu odeio o barulho insistente dos relógios. Tick tack me enlouquece.
  Ia sugerir que alguém criasse um relógio que não fizessem barulho, mas lembrei que eles existem. Os relógios digitais, que não parecem completamente relógios, que não cumprem completamente seu papel. Os números estão ali, mas não estão. E eu estou aqui, mas não estou. Não sou completamente. Não sou suficiente. 
  Sou um relógio que não funciona.
  E estou atrasada.
      

domingo, 12 de março de 2017

Para lembrar

"Não existe uma putinha igual você... você é A Putinha. Minha. Toda, somente, plena e completamente minha. Minha menina, minha princesa, minha mulher, minha putinha."

- E

  

quinta-feira, 9 de março de 2017

Vermelha

  Esta noite está tudo tão vermelho! A corda é vermelha com bolinhas brancas e pretas; o batom é vermelho-melancia, mas sem gosto, porque é velho; o fluido que escorre da minha carne mutilada é vermelho e grosso e quente; o meu rosto está vermelho também, pelo sentimento de inadequação. Até as unhas dos meus pés (desprezo os pés dos outros, mas tolero os meus) trajam vermelho-sangue.
  E o meu coração? Ele não é vermelho de verdade, mas bombeia sangue e se molha no sangue e engole o sangue, e no fim, quem é capaz de lhe tirar o vermelho? É possível, mas não vale o esforço. 
  A minha cabeça lateja, meu corpo treme, mas não é de frio. Me sinto sufocada e quente. Abro a janela. Há dentro de mim uma orquestra ou sinfonia, não sei a diferença, entoando o som mais tenebroso e vibrante que já senti:  tumTUMtumTUMtumTUMTUM, subindo e descendo  aceleradamente, insuportavelmente... 
  Tristíssimos bemóis. Isso me lembra Augusto dos Anjos, e eu choro sempre que leio Augusto dos Anjos. Qualquer um que tenha uma porra de uma alma chora lendo Augusto dos Anjos!

terça-feira, 7 de março de 2017

Molhada

  Há uma semana ele estava aqui no meu universo particular: no meu quarto, na minha cama, em mim todinha, mas principalmente dentro ..... da minha cabeça
  Nossos narizes roçavam e nossos lábios traçavam beijos nas pintas um do outro, acariciando, sugando, conhecendo, provando com inesperada doçura as coisas pouco óbvias... olhos, testa, canto da boca, queixo, cérebro
  Os meus  lábios, ao mesmo tempo tímidos e selvagens, desceram um pouco. E, por fim, completamente famintos, mais um pouco. 
  Se eu fechar os olhos consigo sentir o cheiro de sabonete, o cheiro de homem, o cheiro da respiração suave no meu rosto, enquanto ele falava sobre o meu cheiro de sorvete de morango, enquanto elogiava minha mente. ... E o cheiro de dama da noite entrando pela janela do meu quarto após ele partir.
  Sete dias atrás eu recebia de forma intensa a espécie de carícia e intimidade que ansiei a vida inteira... Ansiei, sim, criando personagens e vivendo através deles, mas sem esperar, de fato, que aquilo fosse possível na minha vida fora da ficção. 
  Mas e se for ficção? Eu escrevo e rasgo folhas do meu diário, temendo estar inventando partes, temendo nem ser real — um delírio poético, um sonho de minutos contados.
  E agora eu fico aqui, tentando reproduzir na minha pele a vibração que irradiava de sua pele. Percorro meu corpo com minhas próprias mãos, sentindo brevemente a textura das dele; mãos bonitas e firmes que sabem exatamente o que fazer, dedos perfeitos que eu lambi e chupei e quis engolir. Mas não foram os seus dedos o que eu engoli
  ... Engoli suas palavras aveludadas, engoli borboletas e vestígios de desejo que não soube expressar. Seus pelos e os meus cabelos embolados em uma coisa só
  .......................
  Embolados entre os dedos dele, puxando, puxando; a música certa no momento certo; o jorro posterior, me atingindo de forma muito abrupta, mas tão, tão gratificante, e tão, tão apetitosa.

  A solução para a crise hídrica de São Paulo se encontra entre as minhas pernas quando ele diz o meu nome. 


"Ah, Cíntia... Cíntia... A gente está só começando tudo isso"
   .
   
   

sexta-feira, 3 de março de 2017

Abertura


  Nós vivemos em um tempo — ou um mundo? — em que ser superficial é um requisito básico. O texto deve ser curto para prender a atenção, o tesão deve ser dosado para segurar o interesse, o sentimento, quando se permite, deve ser raso para que as pessoas não se afoguem nele... Porque elas só aprenderam a nadar em águas rasas; e a covardia, que por muitas vezes disfarçam com sabedoria, não lhes deixa arriscar nunca. 
   E eu... prefiro ser arrastada por uma correnteza do que viver a conta gotas. Não sei me limitar, me podar, me conter, só sei viver os sentimentos em sua plenitude, e sou frequentemente tomada pela insanidade dos mesmos. 
   Fingir desinteresse não é comigo. Eu gosto do que gosto, amo o que amo e odeio o que odeio com todas as forças que possuo... até que as forças se esgotem, e o querer e suas variantes deixem de existir naquela determinada forma. 
   Uma parte de mim sempre se perde também, mas sigo em frente e não me fecho de forma permanente nunca. Digo que é a última vez, mas sou incapaz de viver de forma tão cínica. Antes eu me mataria, e deixaria de sentir por completo.
  Pode me punir, me maltratar, me destroçar entre as mãos,  e sim, eu vou sofrer loucamente, mas eventualmente estarei insistindo, na esperança de que talvez seja diferente. 
   O livro está aberto, a janela está aberta, as pernas estão abertas, a mente também está. O coração nunca teve porta.