sábado, 13 de maio de 2017

panorama

Minha vida está fora de controle. E o meu quarto, um espelho da minha confusão interna, está decadente: garrafas vazias de vodka tombadas no chão, livros abertos fora da estante, sapatos sem par espalhados aqui e ali, lixo fora da lixeira — que transbordou três semanas atrás —, cheiro de cigarro velho e suor acumulado e sangue coagulado e comida podre em pratos quase intocados; roupa suja no meio da roupa limpa, emboladas em cima da minha cama.
Quando eu vou dormir coloco o bolo de roupas na cadeira. Quando acordo eu jogo tudo na cama de novo  (e quando foi a última vez que troquei esse lençol?!). As que caem no chão, ficam. Isso quando não estou bêbada demais e durmo, desconfortável, sobre as roupas já amarrotadas.
Tem uma lâmina na minha janela. Eu ia jogá-la pela janela, mas não queria que o cachorro se cortasse nela. Não o suporto, é bem verdade, mas evito ao máximo confusões. A invisibilidade me cai bem.
Minha estante, ah!, minha estante, a menina dos meus olhos... Meus livros estão empoeirados e com teias de aranhas. Eu olho para ela todos os dias, quando acordo ainda bêbada e enjoada, crescentemente angustiada, e digo: Cíntia, dá um jeito nisso! Cíntia, faz alguma coisa! Cíntia, que vergonha!
É uma vergonha.
Quando eu piso no meu chão descalça, sinto a sujeira grudar na sola dos meus pés. E eu não gosto de chinelos. Meus cabelos caem loucamente e ficam espalhados por todos os móveis, sobre todos os livros, sobre todas as roupas, e voam pela janela. Ele cai aos tufos. Quando eu passo a mão no fruto da minha vaidade lembro que estou ficando careca. É o estresse, é a vergonha. É a genética.
Faz alguma coisa, Cíntia! — meus amigos dizem também.
Você é tão inteligente, Cíntia. Inteligente demais para se restringir ao universo do seu quarto, Cíntia! Se você começar a tatuar eu te dou as tintas, Cíntia! o Sillas oferta. Se você se inscrever no ENEM eu pago sua inscrição, Cíntia! a Giuliane exige. Se você quiser eu limpo o seu quarto, Cíntia! minha mãe propõe. Só você pode se ajudar, Cíntia! todos dizem em coro, repetidamente, por horas e horas a fio, sem pausa nem para retomar o fôlego. Eu desisto, Cíntia, faça o que você quiser. É a sua vida, Cíntia. Deus deu uma para cada um cuidar da sua, Cíntia. Você fica nessa porque quer, Cíntia! Cíntia!!!!! Acorda, Cíntia!
Meus amigos querem vir me visitar, estão preocupados. Mas eu não deixo. Meu quarto está uma bagunça. Tenho vergonha. É a bagunça de dentro que transbordou — quantas semanas atrás?...




quinta-feira, 4 de maio de 2017

Apático

Para você eu dei tudo. 
Tudo que eu sabia ser, 
Tudo que eu aprendi a ser, 
Tudo que eu sempre quis ser 
E pensei que nunca seria. 
Entreguei meu corpo 
E minha mente nas suas mãos: 
E nós só transamos uma vez.
Agora eu fico com as 
Promessas vazias,
Velhos hábitos,
Novas marcas,
Inventivos métodos de auto-tortura 
... E um silêncio sem fim que 
Martela na minha cabeça;
Que faz descompassar o meu coração...
Eu fico com o gosto do cigarro na boca. 
Com o cheiro do vômito
Após uma bebedeira para 
Calar o meu corpo que inquieta 
Ao pensar em você. 
Fico com a mancha do sangue, 
Do meu sangue, que verte sem cessar 
Pela ferida aberta 
Porque você é o único. 
Fico com lembranças
— Que serão borradas pelo tempo.

Eu não fiz nada para merecer tanta apatia!

terça-feira, 18 de abril de 2017

estou bem

Psiquiatra: Você está com uma cara ótima.
Eu (por dentro): só se for a cara mesmo! Aprendi a disfarçar.
Psiquiatra: você está bem?
Eu: não. Esses dias foram difíceis.
Psiquiatra: Por que?
Eu: Muita ansiedade, muita angústia. Tenho bebido.
Psiquiatra: você não estava bebendo antes, né?
Eu: não.
Psiquiatra: tem se cortado?
Eu: sim.
Psiquiatra: onde?
Eu: Coxas e barriga.
Psiquiatra: e o que é isso nos seus braços?
Eu: queimaduras de cigarro. Comecei a fumar.
Psiquiatra (rindo): Nossa, sério? Por que?
Eu: Porque ando muito ansiosa, angustiada.
Psiquiatra: Mas tudo bem, fumar não é tão ruim assim...
Eu: eu tenho asma!
Psiquiatra: Eita, Cíntia!
Eu: tenho pensado muito em suicídio.
Psiquiatra: É? Todos os dias?
Eu: Sim
Psiquiatra: e como é isso?
Eu: eu fico pensando em formas 100% garantidas de morrer, procurando métodos.
Psiquiatra: Por exemplo?
Eu: São coisas meio hardcore... enfiar uma faca no coração! Li sobre pessoas que fizeram isso... (...)
Psiquiatra: Onde você consegue leitura sobre esse tipo de coisa?
Eu: No google. Pesquiso em inglês. Li sobre um cara que deu 5 facadas no próprio peito.
Psiquiatra: Imagina que terrível...
Eu: imagina o desespero que isso requer... Meu único medo é falhar e ficar pior do que agora.
Psiquiatra: É o que geralmente acontece. Mas você não vai se matar, não é?
Eu: talvez não com facadas no peito, mas no final sim!
Psiquiatra: Por que?
Eu: Porque não existe futuro pra mim!
Psiquiatra: Por que diz isso?
Eu: se eu não morrer vou acabar uma moradora de rua!
Psiquiatra: Não vai. Você tem família, apoio da equipe do posto. O que está ruim?
Eu: TUDO.
Psiquiatra: essa resposta é muito fácil.
Eu: É tudo. minha vida profissional, amorosa e com família e amigos, é tudo uma bosta!
Psiquiatra: e você pensa em matar alguém?
Eu: sim... muita gente.
Psiquiatra (rindo): quem você mataria?
Eu: é sério... não é engraçado.
Psiquiatra: eu sei, por isso...
Eu: ... Queria matar todos que me ofendem.
Psiquiatra: e isso acontece sempre?
Eu: Sim.
Psiquiatra: como te ofendem?
Eu: não valorizando meus sentimentos! Mataria meu ex-psiquiatra, e depois me mataria! (...)
Psiquiatra: bom, Cíntia, é ótimo te ver tão bem! Até a próxima consulta!

quarta-feira, 12 de abril de 2017

nada muda



VÍSCERAS

Dispenso a racionalidade,
Sou ser passional!
Contigo sou plena
Sou mais do que potencial...
Me torno real
Visível
Audível
Palpável
Sensível
Contigo na cama sou mais que mulher,
Sou Energia Vital
Criatura Transcendental
Espírito Animal
Tudo que existe e transborda
E derrama e se espalha
E pega fogo e explode,
Sem contenção e sem volta
Ao estado original.
Dispenso a racionalidade!
Sou ser passional!

domingo, 9 de abril de 2017

mensagem entregue ao destinatário

Eu sinceramente não aguento mais ser ignorada por você, sabe? Eu sei o que você vai dizer: que não tem mais tanto tempo quanto antes para dar atenção, mas eu não estou pedindo para você me dar atenção 24h por dia, para falar comigo em todo segundo que estiver acordado... porém eu realmente acho que se você quisesse, você poderia dedicar mais do que 1 minuto por dia, que é o que tem dedicado há semanas. Eu não entrei no Tinder buscando alguém para me ignorar, isso eu tenho aos montes por parte de colegas distantes, família e até amigos bem próximos. Eu entrei lá buscando intimidade e calor humano, alguém com quem eu pudesse falar, abraçar, ver, beijar, contar, ligar, rir, chamar para um rolê espontâneo... Justamente o que nunca tive. Isso está minando minha auto-confiança, que você mesmo ajudou a construir ao longo dos dois meses que nos conhecemos. Um cara como você, que se mostrou tão sexual simplesmente não pararia de falar de forma tão brusca. E eu acho que foge da compreensão de qualquer pessoa sensata o que você tem feito... você está conversando com alguém mais interessante? Acabou o encanto? O tesão? A intensidade do que estava rolando te assustou o suficiente para você pisar nos freios dessa forma? Porque mesmo sendo uma pessoa fodida eu não tive dificuldade de me entregar A VOCÊ, mas isso tem que ser recíproco, não pode seguir sendo uma coisa unilateral, com monólogos da minha parte. Você é basicamente a minha Rosa. Tem milhares da sua espécie por aí, mas não tem nenhum exatamente igual a você, porque VOCÊ que me cativou, porque é VOCÊ que eu quero. Mas assim como a Rosa, você se colocou sob uma redoma que eu não posso penetrar. Você me perguntou um tempo atrás se eu teria maturidade e estabilidade emocional para ter o tipo de relação que VOCÊ queria, e eu acredito veementemente que estou tendo essa maturidade e essa estabilidade, mas você não. Você falou sobre responsabilidade emocional, mas não está sendo responsável comigo. Você falou sobre cuidar de quem eu sou contigo, mas não está cuidando. Diz que é recíproco, mas não oferece reciprocidade. Você disse muitas coisas. E eu amo palavras, elas são peça fundamental na vida, e você usá-las tão bem tanto de forma escrita quanto falada, foi o que me encantou por você. Mas no fim do dia, o que conta MESMO são atos. Eu sou sua putinha enquanto você quiser. Mas sexualmente. Fora desse contexto eu sou uma mulher intelectualmente compatível a você, e é isso que torna tudo tão incrível. Nós dois somos extremamente inteligentes. Mas você não está me tratando como se eu fosse inteligente, embora diga que sou. A primeira coisa escancarada desde o princípio no meu perfil, e que você disse ser instigante, é justamente que EU NÃO QUERO JOGOS MENTAIS. Não sou feita pra eles, simplesmente não tenho emocional PRA ISSO. Eu preciso que você pegue todo esse carinho, respeito e tesão que diz sentir, e decida o que você quer. Porque eu sei exatamente o que eu quero: você. Mas não dá para eu ficar dando sem receber. Não é justo. Eu não preciso de proposta de compromisso, preciso de honestidade. Para consigo e para comigo. Sempre partindo DOS DOIS LADOS!



sexta-feira, 24 de março de 2017

amor³

  You're no good for me 
But baby I want you, I want you

  Eu fui, por muitos e muitos anos, viciada em me apaixonar. Até os 22 anos eu simplesmente não consigo me lembrar de uma fase na qual não estivesse apaixonada por alguém.
  A primeira vez que eu me apaixonei por um garoto eu devia ter uns 7 anos. O nome dele era Francis. A mãe dele cuidava de mim e dos meus irmãos às vezes. Lembro que a minha mãe nos acordava muito cedo para nos levar até a casa deles, que ficava na igreja que frequentávamos... Quase posso tocar as manhãs frias, o vapor saindo das nossas bocas durante a caminhada, o sono. E sinto o cheiro de xixi — eu fiz xixi na cama com frequência até os 8 ou 9 anos. Disfarçava enfiando as cobertas no meio das pernas na esperança de que ela absorvesse aquela coisa molhada e fria e minha mãe não notasse. Mas fazer o quê com o cheiro? Na maior parte do tempo, eu acho que as pessoas fingiam não perceber, por pena.
  O Francis era um bom garoto. Educado, não falava palavrão, e só uma vez mostrou o dedo, mas não o do meio, o indicador. Aquele ato foi, porém, digno da reprovação de sua mãe. O que vale, concordaram minha mãe e a dele, é a intenção. Ele era mais velho, como sempre. Moreno, cabelos negros, e se fecho os olhos ainda lembro do seu rosto.
  Ele me ensinou a fazer bolinhas de chiclete. Quando eu cresci mais um pouco, a aposta de todos era que seríamos namorados um dia. Ele corava quando eu entrava na igreja. Olhava atentamente quando eu cantava (se eu pudesse ser uma flor no jardim de Deus...♫), e uma vez ele sentou no banco bem atrás de mim e passou o culto todo mexendo nos meus cabelos. A sensação era tão boa que eu acabei dormindo.
  Uma vez eu estava pendurando umas calcinhas no varal e minha mãe disse: "sabia que o Francis está namorando com a Débora?". Derrubei a calcinha, magoada e surpresa, porque a Débora era a minha melhor amiga. Ela também era morena, de cabelos cacheadinhos, e também cantava um hino na igreja (Deus não gosta de moleque malcrioso ♫), seria tão típico que até eu, então com 10 anos, teria entendido a probabilidade! Mas era mentira. Era mentira.
  Mas eu fui embora. Será que continuou sendo mentira?
  Mesmo com o coração povoado, o Francis era o Senhor supremo deste. Mas fui obrigada a seguir em frente, porque lhe escrevi uma carta após mudar para a casa do meu pai, e não sei se ele recebeu, se ele leu, só sei que não respondeu. 
  Depois teve o Tony. Toni. ToNYYYYY! Antonio Ricardo Pongeluppi!, a quem amei com loucura por boa parte da minha adolescência. O conheci aos 11 aos, ele era filho do então sócio do meu pai. Tinha 17 anos, fora do meu alcance em todos os sentidos. 
  O Tony não era um bom garoto. Ele flertava com todas as meninas e mulheres — inclusive com a minha melhor amiga à época, que nunca me deixa esquecer — e dizia coisas grosseiras com frequência. Ele gostava de jogar paciência no computador, ouvia Jorge Aragão (dizem que os dedos sentem sabor, quem vai saber? ♫) e odiava que eu escrevesse seu nome com y. Uma vez eu escrevi repetidamente em um caderno: TONY EU TE AMO TONY EU TE AMO TONY EU TE AMO TONY.... TONY! E lhe entreguei o caderno. Deixei apenas a última folha disponível para resposta. E a resposta veio: Toni é com I, sua burra! 
  Eu corri, dramática como a personagem de um filme, e me joguei no chão, numa sala cheia de manequins pelados e sacos de roupas. Chorei, chorei, chorei calculadamente, até que ele apareceu, comendo uma coxinha, e se agachou ao meu lado. Riu um pouco, pediu desculpa embaraçado; seguimos em frente.
  Uma vez eu roubei o boné do Tony e o lavei, utilizando meia caixa de sabão em pó e um litro de amaciante, para que ficasse perfeito. No dia seguinte lhe entreguei o boné. Um dia depois ele chegou com o boné imundo, todo gotejado de tinta. Foi uma afronta direta. Chorei de novo! Ele não pediu desculpa.
  O pai do Tony me chamava de nora, e apesar dos desaforos, a coisa se estendeu por muitos anos. Uma vez eu estava subindo as escadas, na época em que usava sainha de putinha, e quando olhei pra trás ele estava lá embaixo, olhando de forma muito interessada. Ele disfarçou só um pouco. Eu arrumei a sainha só um pouco. Ficamos calados por um momento, e ele subiu atrás de mim. Gostei, e ainda gosto, de saber que a minha bunda e minhas coxas lhe causaram, naquele momento, interesse.
  Porém, certa vez o ouvi dizer: "ela é bonita--- se fosse magra eu pegava!". Vem me pegar, Tony. Não, brincadeira, não vem não. Vi sua foto recentemente, e você está feio. Feio, Tony, você está feio, apesar de ser magro! Eu não te pegaria, Tony!
  Uma eternidade se passou, muitos caras passaram, e surgiu o Marcelo. A mais perfeita miragem. O Marcelo, o enigma. Marcelo, eu nem sei se você era um bom menino ou não. Porque quando te conheci você já era homem.
  De abraços demorados e pernas roçando sob a mesa e poemas e viagens e idiomas e  carreira e Caetano Veloso (caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento ♫). O Marcelo era como o meu xixi: quente na hora, mas frio, muito frio após alguns minutos. O Marcelo, que me analisou e me diagnosticou e faturou com a minha dor e o meu amor. Manipulador, certamente. Homem, quando eu era uma menina perdida. Homens, lá dentro do coração, são piores do que garotos. São mais calculistas. Meninos fazem sem querer, homens pensam e fazem mesmo assim.
  Muitos caras passaram pelo meu coração e pela minha mente e pelas minhas pernas em dias e dias de febre constante, de insônia, de ansiedade. Francis, William, Johnny, Tony, Leonardo, Bruno, Israel, Felipe, Thiago, Rafael, Leandro, Daniel, Evandro, Wanderlei, Diego, Miguel, Caetano, Robson, Anderson, Alexandre, ... e tantos outros. Namorados de amigas, colegas de escola, professores, médicos, amigos meus, alguns maduros o suficiente, outros não... Pego meus diários e eles gotejam lágrimas, sangue e nomes, nomes, histórias semi-falsificadas, lembranças que escorregaram da minha memória para os meus olhos para os meus dedos, para a minha ...........
  E de tantos rostos e tantos nomes, são dois os caras que se destacam. Dois sonhos de uma noite de verão, um até mesmo sem nome. O que sonhei, o que ainda sonho.
  Eu estava em uma época selvagem e decidi fazer uma visita a minha amiga Adore, levar-lhe comida, pois ela resmungava que estava passando fome (o que não era bem verdade). O problema: não me ocorreu que o metrô fechava a meia-noite, e fui expulsa da estação no meio do trajeto, indo parar em um dos lugares mais sujos e perigosos de São Paulo... a Luz.
  Sentei ali na calçada, esperando que desse o horário da porra reabrir, e um cara sentou ao meu lado, disse que era perigoso eu ficar sozinha, que ele me faria companhia (e veio a calhar quando uma barata me atacou).
  Não lembro de sua aparência. Não exatamente. Fica um registro abstrato na memória. Ele também havia sido expulso do metrô, me informou, e logo perguntou o que eu tinha nas sacolas. Lhe disse que tinha comida, perguntei se ele queria. Recusou o pão porque não tinha nada para colocar no meio. Não era um sem teto, apenas um corinthiano de corpo e alma, desses que conseguem falar sobre qualquer coisa, em qualquer lugar, fazer o que quiserem sem inibição.
  Por algum motivo ele foi parar no meu colo. Deitado nas minhas pernas, os braços sob a cabeça, exigindo carinho com sua fala mansa. E foi tão fácil oferecer-lhe afagos, que eu cedi. Toquei seu rosto, milímetro por milímetro, e pousei uma mão sobre o seu coração, sentindo-o palpitar, sentindo seu ritmo. Ele abraçou minha cintura, ainda deitado sobre mim, falando, falando, muito perto da minha vagina.
  Dormiu um pouco e eu o observei dormindo como se nos conhecêssemos, como se estivéssemos apaixonados. Ele quis me deixar dormir também, mas eu, vítima da insônia e da desconfiança, não precisava.
  E quando o metrô reabriu, simplesmente seguimos rumos separados sem ao menos um beijo. Qual era seu nome?! Não me lembro! Queria lembrar. Queria ter repetido o ritual. Queria tê-lo conhecido. Queria ter sentido seu coração mais vezes. Mas talvez ele só esteja na minha cabeça agora, 6 anos depois,  sendo digno de nota nesta pequena divagação sobre meus amores, porque permaneceu um desconhecido.
  E, por fim, teve o Jonathan. O meu amor bandido, o cara que me apresentou à cocaína.
  A faculdade estava insuportável. A sala inteira me odiava, e eu odiava a sala inteira. Cabulei aula e desci antes do meu ponto, indo parar no Cemitério da Saudade. Era uma das primeiras da série de visitas que eu prestaria ao local... Estava sentada ali, ao lado do portão dos fundos, pensando na vida, quando o Jonathan chega e pergunta se pode sentar por ali. Respondo que sim, claro. O observo... Ele tira um pino de cocaína, cheira um pouco. Olha para mim e pergunta: "quer?". Frustrada, deprimida, curiosa, respondo que sim. Ele fica de joelhos e se aproxima de mim, assim, engatinhando. Coloca um pouco do pó na lateral da mão e a estende, me passa o canudo, e eu, sem ter certeza de como, fiquei também de joelhos e mandei o pózinho amarelado pra dentro do meu sistema pela primeira vez na vida. Agora mesmo posso sentir a sensação da porra no meu cérebro fodido pela depressão e os remédios psiquiátricos! A calmaria, ao contrário do que a maioria das pessoas sentem. Meu corpo ficando dormente nos lugares certos.
  Fiquei dependente do Jonathan e do pó na mesma proporção.
  Ele era um bom garoto. Fala baixa, rejeitado pela família, carinhoso e me deixava ficar encostada nele por horas.
  Ele me roubou uma vez. Pediu meu MP3 emprestado, disse que levaria na boca para arrumar pó pra gente, que no dia seguinte arrumaria dinheiro para resgatar o aparelho. Ele foi — com o meu bilhete — e não voltou. Eu fiquei sem pó, sem MP3, sem bilhete e sem Jonathan. Fiquei foi com um olho roxo e inchado. Liguei para a casa dele, fiz cena, fui chamada de vagabunda por sua irmã. Mas eu até que gosto de ser chamada de vagabunda, no contexto de uma mulher que não se valoriza.
  Alguns dias depois ele aparece no cemitério. Eu estou tomando black stone com gelo quase derretido, que carreguei em uma lata de leite, da minha casa até o cemitério. Eu, puta da vida, ele, sorridente e tranquilo como sempre. Safado. Diz que eu estou bonita. Me derreto. Diz que eu sou muito chique, tomando whisky enquanto ele não tem dinheiro para tomar pinga. Lhe ofereço meu whisky. Ele aceita... Ele aceita a garrafa toda. Diz que levará a garrafa na boca para conseguir pó pra gente, e que dessa vez voltará. Eu cedo. Leva. Leva a minha garrafa de whisky, leva a minha mochila também, leva o meu coração, toma aqui!
  Mas dessa vez ele volta. E me diz: "eu disse que ia voltar!". Diz que conseguiu dois pinos, mas eu sei que tem mais escondido. Não importa, dois pinos estão de bom tamanho, e dessa vez ele voltou! Eu fico tão comovida com o fato de ele ter voltado, que o seguro pelo queixo, o faço olhar para mim e lhe beijo a boca, com carinho e ardência ao mesmo tempo. E aquele... Ah, aquele é o beijo que eu vou levar para sempre na memória como o meu primeiro beijo, mesmo não tendo sido o primeiro! 
  Nos beijamos e cheiramos, cheiramos e nos beijamos. Ele pede para eu chupá-lo, eu me nego (e agora me arrependo).
  Mas o Jonathan estava mais propenso a ir do que a ficar. E um dia foi. Não o vi mais, não de verdade, apenas em delírio de benflogin. Ei, Jonathan! Me espera! Ei! Opa, desculpa, pensei que fosse outra pessoa. E não era ninguém.
  Se eu pudesse ter uma pessoa, com todos os dramas e pequenos abusos e delinquência, seria o Jonathan. Porque de todos os caras que eu amei, o Jonathan é o mais EU que já existiu. Fodido como eu. Auto-destrutivo como eu. Tão morto quanto eu. Eu só queria ficar encostada nele por horas. Cheirar com ele por horas. Beijá-lo por horas. Repetir tudo por horas. Até morrermos.


Ei, Jonathan. Cadê você, porra? Foda-se a sua família de merda! EU te amo!

sábado, 18 de março de 2017

Confiar

Confiar
Confiar
Confiar
Seferrar


Meus amigos são assim: eles dizem que eu sou talentosa — deveria expôr mais a minha arte. Que eu sou inteligente — deveria dar vazão aos meus pensamentos.

Mas...

Se eu sou tão talentosa, por que não dão a mínima para as minhas expressões artísticas?
Se eu sou tão inteligente, por que me tratam como se eu fosse idiota?

As palavras são preciosas demais para serem desperdiçadas em elogios vãos. Pra quê o discurso? Antes, não digam nada. 



Hoje a agonia me atingiu com os dois pés no peito. 

Sou inteligente o bastante para captar mentiras.

ConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarseferrarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarseferrarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarseferrarseferrarseferrarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarseferrarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarseferrarconfiarconfiarconfiarseferrarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarseferrarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarseferrarconfiarConfiarconfiarseferrarconfiarconfiarConfiarconfiarconfiarconfiarseferrarConfiarconfiarconfiarconfiarpraquê

Eu estou cansada de ser manipulada.

Sou inteligente o bastante para captar mentiras



Mas burra o suficiente para engoli-las mesmo assim! A seco!

terça-feira, 14 de março de 2017

Preterida

  Eu tenho 5 relógios. Nenhum deles funciona.
  Eu compro e uso por um tempo... não, na verdade, eu coloco. Mas quando chego ao meu destino, a primeira coisa que faço é tirá-lo. Um amigo me perguntou, depois de eu esquecer meu relógio na casa dele pela terceira vez: "por que você coloca relógio, hein?"
  Sou obcecada pelo tempo. O tempo que já foi, o tempo que desperdiço, o tempo que ainda me resta. O tempo que eu poderia encurtar. Mas não faço nada sobre nada.
  Não gosto de chegar atrasada; mas já fui melhor nisso. Perdi minha pontualidade britânica. Eu programo o horário que devo acordar, quanto tempo posso ficar no banho (é sempre aí que a coisa desanda), quanto tempo tenho para me arrumar (sempre na correria) e quanto tempo levará o trajeto (o ônibus sempre atrasa). Antes eu chegava horas mais cedo, hoje eu chego em cima da hora. Quando não me atraso - mas sempre mando mensagem avisando.
  Acontece que a empolgação já não é a mesma. Quando você chega horas antes para um compromisso, e a pessoa chega horas depois em relação ao horário combinado, você começa a perceber que não há tanta vontade assim... Que você não está na cabeça da pessoa tanto quanto ela está na sua. Que ela tem controle, você não tem. Bate a desilusão.
  Eu queria ser prioritária na vida de alguém. Ser a primeira coisa na cabeça de alguém um momento antes de ela abrir os olhos de manhã, e ser a última um momento antes de ela cair no torpor. Ser a primeira escolha, ser a preferida. O que recebo, entretanto, é, repetidamente, uma indiferença sadia o suficiente para manter no ar a noção de que eu sou a louca, de que eu cobro demais. Insana. Compulsiva.
 O tempo: as pessoas não valorizam o meu. Eu valorizo o delas desmarcando compromissos - sempre com certa antecedência.
  Ademais, eu odeio o barulho insistente dos relógios. Tick tack me enlouquece.
  Ia sugerir que alguém criasse um relógio que não fizessem barulho, mas lembrei que eles existem. Os relógios digitais, que não parecem completamente relógios, que não cumprem completamente seu papel. Os números estão ali, mas não estão. E eu estou aqui, mas não estou. Não sou completamente. Não sou suficiente. 
  Sou um relógio que não funciona.
  E estou atrasada.
      

domingo, 12 de março de 2017

Para lembrar

"Não existe uma putinha igual você... você é A Putinha. Minha. Toda, somente, plena e completamente minha. Minha menina, minha princesa, minha mulher, minha putinha."

- E

  

quinta-feira, 9 de março de 2017

Vermelha

  Esta noite está tudo tão vermelho! A corda é vermelha com bolinhas brancas e pretas; o batom é vermelho-melancia, mas sem gosto, porque é velho; o fluido que escorre da minha carne mutilada é vermelho e grosso e quente; o meu rosto está vermelho também, pelo sentimento de inadequação. Até as unhas dos meus pés (desprezo os pés dos outros, mas tolero os meus) trajam vermelho-sangue.
  E o meu coração? Ele não é vermelho de verdade, mas bombeia sangue e se molha no sangue e engole o sangue, e no fim, quem é capaz de lhe tirar o vermelho? É possível, mas não vale o esforço. 
  A minha cabeça lateja, meu corpo treme, mas não é de frio. Me sinto sufocada e quente. Abro a janela. Há dentro de mim uma orquestra ou sinfonia, não sei a diferença, entoando o som mais tenebroso e vibrante que já senti:  tumTUMtumTUMtumTUMTUM, subindo e descendo  aceleradamente, insuportavelmente... 
  Tristíssimos bemóis. Isso me lembra Augusto dos Anjos, e eu choro sempre que leio Augusto dos Anjos. Qualquer um que tenha uma porra de uma alma chora lendo Augusto dos Anjos!

terça-feira, 7 de março de 2017

Molhada

  Há uma semana ele estava aqui no meu universo particular: no meu quarto, na minha cama, em mim todinha, mas principalmente dentro ..... da minha cabeça
  Nossos narizes roçavam e nossos lábios traçavam beijos nas pintas um do outro, acariciando, sugando, conhecendo, provando com inesperada doçura as coisas pouco óbvias... olhos, testa, canto da boca, queixo, cérebro
  Os meus  lábios, ao mesmo tempo tímidos e selvagens, desceram um pouco. E, por fim, completamente famintos, mais um pouco. 
  Se eu fechar os olhos consigo sentir o cheiro de sabonete, o cheiro de homem, o cheiro da respiração suave no meu rosto, enquanto ele falava sobre o meu cheiro de sorvete de morango, enquanto elogiava minha mente. ... E o cheiro de dama da noite entrando pela janela do meu quarto após ele partir.
  Sete dias atrás eu recebia de forma intensa a espécie de carícia e intimidade que ansiei a vida inteira... Ansiei, sim, criando personagens e vivendo através deles, mas sem esperar, de fato, que aquilo fosse possível na minha vida fora da ficção. 
  Mas e se for ficção? Eu escrevo e rasgo folhas do meu diário, temendo estar inventando partes, temendo nem ser real — um delírio poético, um sonho de minutos contados.
  E agora eu fico aqui, tentando reproduzir na minha pele a vibração que irradiava de sua pele. Percorro meu corpo com minhas próprias mãos, sentindo brevemente a textura das dele; mãos bonitas e firmes que sabem exatamente o que fazer, dedos perfeitos que eu lambi e chupei e quis engolir. Mas não foram os seus dedos o que eu engoli
  ... Engoli suas palavras aveludadas, engoli borboletas e vestígios de desejo que não soube expressar. Seus pelos e os meus cabelos embolados em uma coisa só
  .......................
  Embolados entre os dedos dele, puxando, puxando; a música certa no momento certo; o jorro posterior, me atingindo de forma muito abrupta, mas tão, tão gratificante, e tão, tão apetitosa.

  A solução para a crise hídrica de São Paulo se encontra entre as minhas pernas quando ele diz o meu nome. 


"Ah, Cíntia... Cíntia... A gente está só começando tudo isso"
   .
   
   

sexta-feira, 3 de março de 2017

Abertura


  Nós vivemos em um tempo — ou um mundo? — em que ser superficial é um requisito básico. O texto deve ser curto para prender a atenção, o tesão deve ser dosado para segurar o interesse, o sentimento, quando se permite, deve ser raso para que as pessoas não se afoguem nele... Porque elas só aprenderam a nadar em águas rasas; e a covardia, que por muitas vezes disfarçam com sabedoria, não lhes deixa arriscar nunca. 
   E eu... prefiro ser arrastada por uma correnteza do que viver a conta gotas. Não sei me limitar, me podar, me conter, só sei viver os sentimentos em sua plenitude, e sou frequentemente tomada pela insanidade dos mesmos. 
   Fingir desinteresse não é comigo. Eu gosto do que gosto, amo o que amo e odeio o que odeio com todas as forças que possuo... até que as forças se esgotem, e o querer e suas variantes deixem de existir naquela determinada forma. 
   Uma parte de mim sempre se perde também, mas sigo em frente e não me fecho de forma permanente nunca. Digo que é a última vez, mas sou incapaz de viver de forma tão cínica. Antes eu me mataria, e deixaria de sentir por completo.
  Pode me punir, me maltratar, me destroçar entre as mãos,  e sim, eu vou sofrer loucamente, mas eventualmente estarei insistindo, na esperança de que talvez seja diferente. 
   O livro está aberto, a janela está aberta, as pernas estão abertas, a mente também está. O coração nunca teve porta.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Do Diário, Do Desejo

   ... Outro dia desses o E acordou com um tesão animal, e disse que queria gozar me ouvindo. A princípio me neguei, porque sou péssima falando o que quer que seja; no telefone, um tanto mais. 
   Apesar disso, e do receio de ser ouvida pelos meus irmãos, recebi a ligação. Não falei muito: por mais que eu tentasse, era incapaz de articular o tesão que eu também sentia.
   O ouvi batendo uma, ofegando, gemendo, contando o que queria fazer comigo e me cobrando respostas... Vai me deixar gozar na sua boca? Vou. Vai ficar de quatro pra mim? Vou, e eventualmente gozando com a voz carregada. 
   É, sem dúvidas, o melhor som que já ouvi na vida. Não há música, barulho de folhas dançando nas árvores ou declaração de amor que se compare ao prazer de ouvir aquilo acontecendo.
   Não me senti suja, não surtei. Me senti, de fato, ótima. Cheia de uma vitalidade nunca antes experimentada. 
   Queria ter gravado aquela chamada para ouvi-lo gozando no meu ouvido 24 horas por dia, até o fim dos tempos, sabendo que naquele momento de êxtase, no meio de todo aquele ardor, enquanto o sangue circulava mais rápido por suas veias e a porra jorrava no chão, eu era a única coisa em sua mente.
   Sem mais uma palavra ele encerrou a ligação, e eu fiquei deitada ali, o seio de fora, o sexo latejando. 
   Mandei uma foto. 
   Eu, a putinha a quem ele recorre quando está com tesão. Sua puta. Sua fêmea. Ele é  o meu macho, vai cuidar de mim. De forma inédita, me senti mulher. 
   Ser mulher e ser puta são duas coisas intimamente interligadas... inseparáveis.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Até mais

Ele me disse que não tinha amigos, que não tinha amores e eu o odiei por isso. Eu era sua amiga, eu era o seu amor. Não. Eu fui omissa, fui covarde, imersa em meus próprios problemas. Ele encarou a verdade, sofreu as consequências e eu fiquei para trás.
Não tenho amigos, não tenho amores. Os meus amigos e os meus amores que me perdoem, mas essa é a verdade. São 27 anos nessa Terra sem nada e nem ninguém, sem afetos que durem o dia inteiro, nutrindo ódio e ressentimento por coisas que só existem na minha cabeça, dando porrada nas paredes, no ar, na minha própria cara!
Sou mais domesticada do que um animal. Você tenta domesticar o cachorro, mas ele foge. Você tenta domesticar o gato, mas ele escapa. Às vezes eles voltam, por fome ou por saudade, mas sentem a necessidade de estar lá fora em algum lugar, encarando outra coisa que não o teto.
Mas eu não. Eu posso encarar o teto por horas a fio, posso ficar deitada na minha cama por dias seguidos, com o gosto amargo dos dentes não escovados, com os cabelos despenteados, fedendo e sem ânimo para tomar banho. Sou pior do que um gato castrado! O gato ainda olha pela janela, desejando estar lá fora. O cachorro você prende, mas ele se solta.
A minha coleira, quando a colocaram, eu não liguei. Não me debati, não gritei. Eu aceitei. Com o passar do tempo ela se tornou parte vital do meu ser, e mesmo quando com o tempo ela se soltou de onde estava atada, eu a deixei permanecer no meu pescoço como um singelo lembrete das minhas limitações. As correntes que me prendem aqui são frágeis como seda, e eu não fujo nunca.
O que há de errado comigo sempre esteve errado e sempre estará. Eu posso mascarar por um tempo, mas a ferida está lá dentro, sempre sangrando. Nasci errada. Mesmo que eu não tivesse sofrido os traumas a que fui exposta, desde o berço eu era inadequada, e estaria, agora, na mesma posição que estou.  Sou maldita. Condenada.
E sei que as pessoas sentem, elas notam.
A neta ingrata,
a filha que nunca alcança o ideal,
a irmã problemática,
a sobrinha fracassada,
a prima desempregada, exemplo do que...
do que não ser.
A amiga distante, egoísta,
a amante histérica, paranoica.
A desconhecida que causa repulsa.
A paciente que causa raiva por ocupar um leito que poderia ser utilizado para quem está realmente doente.
Ocupo espaços que não me pertencem, consumo oxigênio que seria melhor gasto com outras pessoas.  Sou um desperdício de "vida", e nunca me deixarão esquecer disso.