domingo, 4 de dezembro de 2016

CAPÍTULO 2: THE GROWNUP

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Título: The Grownup 
Título alternativo: What Do You Do? | Título nacional: O Adulto
Autora: Gillian Flynn
Gênero: Suspense/Terror
Editora: W&N 
Ano: 2015
Número de páginas: 79
Onde comprei: Book Depository

Preço: US$3.75







   Sharp Objects, da Gillian Flynn, me fez valorizar um gênero literário que nunca dei muita atenção, o thriller, e me fez recuperar a vontade de ler. Me fez lembrar o que é pegar um livro e não conseguir deixá-lo de lado nem para comer ou dormir. O que é ficar lendo uma páginas após a outra de forma frenética, louca para saber o final (louca para ler a página final antes de chegar lá!).
   Assim sendo, logo fui atrás de outros livros dela. Li os outros dois publicados até o momento, e quando, tristonha, pensei que era isso, descobri The Grownup, que não é realmente um "livro", e sim um conto, que foi publicado anteriormente em uma coletânea organizada pelo George R. R. Martin, com o título "What do You Do?" ("o que você faz?".  Essa é uma questão que a narradora se coloca diversas vezes ao longo da leitura).
   Mesmo o conto tendo sido publicado solo por motivos comerciais (tem muita gente esperando um novo livro dessa mulher!), eu estou satisfeita, pois assim soube dele. 
   A história é narrada por uma mulher, cujo nome não é relevado, que é uma batedora de punheta profissional. Ao longo de três anos, segundo seus cálculos, ela bateu cerca de 23.546 punhetas. E não qualquer punheta, A Punheta. Uma punheta boa o bastante para que ela tivesse uma agenda cheia o ano inteiro, exceto pelas duas semanas na qual saía de férias.
   Até que ela começa a sofrer com a síndrome do túnel carpal, o que a obriga a deixar a profissão. É aí que ela recebe a proposta de trabalhar como leitora de auras no mesmo estabelecimento onde bateu punheta por 3 anos. 
   Graças a sua mãe, que nas palavras da própria narrada, era uma mulher preguiçosa, que mendigava na rua o suficiente para sobreviver, ela ganhou a habilidade de ler pessoas, saber o que elas querem, e o que dizer para conseguir o que quiser delas. Nas ruas ela conseguia distinguir os "Tonys", que são pessoas que não sabem dizer não. O título é dado por causa de seu pai, que se chamava Tony e não sabia dizer não, "exceto, é claro, quando a esposa pediu que ele não fosse embora".
   A narradora, apelidada de Nerdy, é uma mulher que gosta de se gabar de sua inteligência, perspicácia e apetite por livros. Ela reconhece, e aqui entra a identificação, que não é tão inteligente, simplesmente convive com pessoas que são menos inteligentes do que ela, e se preocupa com o dia em que tiver que conversar com pessoas realmente inteligentes, que saberão que ela é entediante, uma farsa.
   Mesmo após se aposentar ela mantém alguns clientes favoritos, entre eles um homem que também gosta de ler, e que lhe recomenda livros toda a vez que aparece para uma punheta. Ela chama isso de uma espécie de "clube do livro". 
   Um dia, após bater uma punheta, Nerdy conhece Susan, uma mulher que está visivelmente sob alguma espécie de sofrimento emocional. Nerdy, de forma cautelosa, tenta arrancar da mulher o que lhe aflige. Após uma breve leitura da mulher, aposta que há algum problema na casa, mais especificamente com o marido ou um filho. Cética, Susan se recompõe e vai embora, mas volta dias depois, revelando que realmente tem um problema em casa: Miles, seu enteado, que cria desde os 4 anos de idade, e que agora tem 15, a assusta. Ele é violento, ela diz, e obscuro. O pai do garoto, um homem ausente, não quer nem ouvir falar sobre isso, pois acha que é implicância de sua esposa.  Nerdy internamente atribui o comportamento de Miles à idade e a mudança repentina, já que a família de Susan acaba de comprar uma nova casa. Porém, vê na situação a oportunidade perfeita de carreira, e se dispõe a fazer uma limpeza espiritual na casa de Susan. 
 Ela propõe um total de 12 visitas, a 2.000 dólares cada, contando que com o tempo o comportamento de Miles amenizará, e Susan pensará que foi graças às limpezas. Entretanto, Susan quer uma solução mais rápida.
   Nerdy visita a casa pela primeira vez, e aqui o livro se transforma em outra coisa, um terror gótico. A casa, por fora, é uma construção vitoriana, e a narração de Nerdy, abalada pela estética do local, é de causar arrepios. Por dentro, no entanto, a casa foi completamente renovada, o que a tranquiliza um pouco.
   Nerdy passa a maior parte das visitas, nas quais não tem ninguém na casa, lendo na enorme biblioteca da família, mas também faz minuciosa limpeza a base de ervas, sonhando que em breve Susan a recomendará para diversas amigas ricas, que também contratarão seus serviços, e ela será uma leitora de auras de luxo.
   Até que coisas bizarras começam a acontecer. Primeiro, ao limpar o chão, Nerdy corta o dedo, apesar de não ter nada afiado ali para explicar isso. Um dia, enquanto ferve água para a limpeza, Miles chega às suas costas e lhe diz que ela deve deixar de ir à casa, ou morrerá. Ela logo descobre que uma das babás da família sofreu um terrível acidente e foi hospitalizada. Susan indica que o responsável pelo acidente foi Miles. Ela passa a temer o garoto, que vomita em sua bolsa. 
   Intrigada, Nerdy decide verificar na internet se há algum histórico da casa, e descobre que o dono original da mansão, Patrick Carterhook, tinha um filho, que assim como Miles, defecava e vomitava nos pertences da família, e inclusive mandou uma babá para o hospital após um incidente. E, pior, descobre que esse jovem assassinou toda a família enquanto eles dormiam, e se matou em seguida.
   Agora crente de que a mansão é assombrada e que a história está sendo reencenada, Nerdy, apesar de seu espírito vigarista, decide alertar Susan e dizer que não pode ajudá-la no fim das contas, e que ela deveria ir embora da casa.
   Temos, então, um bom plot twist, mas o final, em si, deixou muito a desejar. A história tem basicamente três partes, a primeira é divertida, aborda a vida de trapaças da narradora, e a escrita da Flynn é no mínimo instigante. A forma como ela descreve as coisas são divertidamente absurdas, algo que me agrada, pois acaba me tirando da zona de  conforto que a maioria dos autores me joga, quando tentam se levar muito a sério. A segunda parte é o verdadeiro suspense, na qual eu comecei a analisar os personagens para tentar descobrir o que de fato estava acontecendo. Muitos suspeitos e um clima de terror que me empolgou bastante, já que não sou facilmente amedrontada. E a terceira, após o plot twist, na qual acredito que a autora se perdeu tentando criar um final que não fosse clichê. O tiro saiu pela culatra, e ele soou simplesmente broxante, embora tenha conseguido desfazer minha visão da personagem central, por quem eu estava nutrindo respeito. Ela não é, afinal, tão esperta.
  Por se tratar de um conto, os personagens não se desenvolvem tanto quanto poderiam, e algumas situações em potencial são desperdiçadas, bem como personagens são citados e não têm utilidade alguma para a história. OK, a autora consegue brincar com as sensações e o raciocínio do leitor, mas no fim não nos serve de nada, porque não chegamos a lugar nenhum. 
   Entendo que essa provavelmente foi a intenção. No fim o leitor É a narradora, nos sentimos como ela.
    O ponto positivo, ao menos para mim, é que a Flynn conseguiu, nas duas primeiras partes, criar o tipo de clima que me fez me apaixonar por ela em primeiro lugar. Ela é uma excelente escritora, sabe brincar com as palavras como ninguém. 
   Agradeço por mais uma personagem feminina escrachada, boca suja, provavelmente beberrona, e completamente viciante. O que mais me prende a um livro é conseguir me identificar com ao menos um personagem, e ela sempre consegue criar mulheres que cheguem mais perto de quem eu sou.
   Também adoro a capacidade dela de criar crianças bizarras. É algo totalmente King, mas com uma abordagem mais crua.
   Se a história fosse mais longa, teria sido fantástica. Quem sabe um dia...


   Leria de novo? SIM
   Nota 4 (de 5)