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segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

leitura: paciência



Título: Paciência
Autor: Daniel Clowes
Editora: Nemo
Ano de lançamento: 2017
Número de páginas: 181
Lido em: 31-12-23 a 01-01-24

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"Ela é a última pessoa em quem vou encostar. Pode ser que ainda tenha algum pedacinho, alguma célula
dela na minha pele."

Paciência, de Daniel Clowes, foi um presente que ganhei de aniversário e que me acompanhou nessa virada de ano solitária. Já li algumas obras do Clowes, sendo "Ghost World" uma das minhas graphic novels preferidas da vida. Além disso, sou apaixonada por enredos que envolvem viagem no tempo e paradoxos, e essa é a premissa dessa graphic novel, então eu já esperava que seria uma leitura do meu agrado. Eu tento não criar tanta expectativa sobre histórias com viagem no tempo, porque é algo muito difícil de conduzir sem deixar furos ou se tornar algo altamente previsível, mas sendo Clowes, não consegui evitar criar expectativas, porém posso dizer que mesmo com a expectativa elevada, ela ainda conseguiu me surpreender positivamente.
A história começa no ano de 2012, quando Jack Barlow e sua esposa, Paciência, descobrem que terão um filho. Eles ficam muito felizes com a notícia, mas por outro lado, sendo bastante pobres e vivendo num momento de crise financeira nacional, eles começam a entrar em desespero por todas as demandas financeiras que ter um bebê exige. Paciência está desempregada e Jack encara um trabalho com salário ínfimo e sem perspectiva de conseguir algo melhor, já que não concluiu os estudos. Ele tenta manter uma fachada de esperança para não preocupar a esposa, mas as preocupações financeiras fazem com que eles fiquem introspectivos, mantendo seus pensamentos de insuficiência para si mesmos, ao invés de tentarem resolver os problemas juntos. Eles vivem nessa dualidade: enquanto Jack se acha pouco para Paciência, Paciência se acha pouco para Jack. 
Aliás, comunicação não é o forte do casal. Paciência dá sinais de ter um passado tenebroso e que ainda lhe assombra, mas nas poucas vezes em que ela tenta se abrir, Jack não quer falar sobre, achando que é melhorar deixar o passado no passado, para que ela não fique mais chateada.
Um dia, ao voltar do serviço, Jack encontra Paciência morta. A polícia logo o coloca como o principal e único suspeito do crime e ele é jogado na cadeia, onde fica por 10 meses, passando pelas mãos de advogados públicos incompetentes. Até que um dia o libertam e informam que encontraram fibras e DNA de outra pessoa na cena do crime. Com o tempo que passou, o caso esfriou e é arquivado.
Jack decide investigar por conta própria e viaja até a cidade de onde Paciência veio, seis anos antes, para tentar descobrir mais sobre sua vida e talvez encontrar suspeitos ou a pessoa que a assassinou. Paciência não tinha família viva além de uma irmã de criação que é uma viciada em drogas e tem pouco de concreto para oferecer para Jack além do nome de um ex-namorado, "Andy". Jack procura muito por esse ex-namorado, mas não encontra rastros dele.
Então somos levados para o ano de 2029, num mundo futurístico, onde Jack, agora na casa dos 50 anos, foi incapaz de superar a morte de sua esposa e filho, continua amargurado e buscando pistas para solucionar o crime. Toda a vida de Jack gira em torno do que aconteceu. A única coisa na qual ele pensa além do passado com Paciência e em seu assassinato, é na vida que poderia ter tido ao lado dela e do filho. Ele não tem amigos e não se envolveu novamente com nenhuma mulher. Ao longo dos anos ele apenas nutriu sua obsessão e rancor pelo que aconteceu.
Até que ele conhece uma prostituta e lhe conta sua história. Ela então lhe conta sobre Bernie, um cara que é tão obcecado quanto ele pela morte de alguém do passado e que vive falando sobre viagem no tempo. Isso entra na mente de Jack, e como todas suas tentativas de investigação deram em nada, ele decide ir atrás de Bernie para tentar voltar no tempo e impedir a morte de Paciência e seu filho.
Após vigiar e seguir Bernie, Jack descobre que o homem construiu um dispositivo e fez um elixir capaz de enviá-lo ao passado. Ele então rouba tal tecnologia de Bernie e embarca em sua jornada para salvar sua esposa e seu filho. Sua primeira parada é em 2006, seis anos antes do crime. Jack vai para a cidade onde Paciência cresceu e começa a observar sua vida, tentando descobrir mais sobre ela e sobre as pessoas com quem ela convive, tentando descobrir quem a assassinou.
Nessa busca, ele acaba descobrindo coisas sobre sua esposa que nunca havia imaginado, e apesar de tentar não interagir com ninguém do passado e deixar as coisas seguirem o curso natural para que eles se encontrem e se casem, Jack acaba se envolvendo mais do que deveria nos eventos, o que pode gerar consequências no futuro que ele conheceu ao lado de Paciência...
Como disse, criar uma história sobre viagem no tempo não é uma tarefa fácil. Muitas pessoas que tentaram, no cinema ou na literatura, esbarraram em clichês ou meteram os pés pelas mãos, criando  roteiros cheios de furos e confusão. Daniel Clowes, no entanto, conseguiu conduzir e amarrar a história muito bem. Apesar da complexidade do tema, ele produziu uma narrativa clara, envolvente e sagaz, que aborda a dor do luto, a revolta pelas desigualdades sociais e, claro, a dificuldade de viajar para o passado sem criar uma profecia autorealizável. Além disso, também explora os impactos da viagem no tempo para o corpo humano, uma vez que somos sacos de células. Nesse sentido, é especialmente interessante acompanhar uma história do gênero por quadrinhos, já que nessa mídia não existe limitação nenhuma para efeitos especiais, desde que a pessoa responsável pela arte tenha talento e imaginação, e esse é o caso em  "Paciência". As artes são muito bonitas e detalhadas (até nos planos de fundo), com cores vibrantes na era mais futurística e com ambientação saudosista quando o personagem viaja mais para o passado. Nos momentos em que fica evidente os danos físicos da viagem no tempo, temos uma explosão psicodélica de formas e cores que tomam conta das páginas de forma extraordinária.
Como era de se esperar de Daniel Clowes também, apesar da crueldade explícita e do tom sombrio dos personagens, temos diversos momentos de humor ácido e linguagem muito desbocada. No entanto, vale ressaltar que em muitos momentos há uma apelação contra o corpo gordo. São muitos os momentos de estigamatização do corpo gordo e gordofobia recreativa. Tem vários personagens gordos e Jack ataca a aparência de todos eles.

Tirando isso, foi uma leitura muito interessante e divertida, que também me gerou alguma reflexão: será que se esse crime não tivesse acontecido, Jack e Paciência teriam realmente ficado juntos e sido "felizes para sempre" como ele fantasiou por anos? A conexão deles me parecia tão fraca. Eles eram claramente codependentes, mas ao mesmo tempo não se abriam muito um para o outro. Não se conheciam profundamente. É possível realmente amar alguém que não conhecemos? Acredito que esse é um clássico caso onde os sentimentos são amplificados pela perda, e que beira mais obsessão do que amor. Não que seja uma obsessão injustificada, afinal, ele perdeu a esposa e o filho, independente do que viesse a acontrecer entre eles no futuro. Mas no fim das contas, o Jack do futuro conheceu mais de Paciência do que o Jack que a perdeu no começo da história algum dia conheceria.
Por fim, o motivo do crime não foi super elaborado e nem o final que eu esperava, mas me agradou. Fez sentido para a história. E o final do personagem Jack também foi muito legal e fechou bem a história.

Leitura recomendada! 

* Uma pequena crítica que eu tenho, é para a tradução e revisão de texto, que em determinados momentos deixou a desejar, especialmente quando li um "ciclano" ao invés de "sicrano". Em escrita informal, amadora ou em tradução gratuita, eu não ligo para como as pessoas escrevem e considero que o importante é se fazer entender. Mas uma tradução e publicação desse porte merecia mais atenção e cuidado.

Vou dizer o final que eu esperava abaixo e isso pode ser um tipo de spoiler, então leia por sua conta e risco!
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Pensei que o prório Jack mais velho (que viajou no tempo) poderia acabar sendo o assassino por algum motivo. O próprio personagem levanta esse receio em determinado ponto da história

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

leitura: solitária

Título: Solitária
Autora: Eliana Alves Cruz
Editora: Companhia das Letras
Ano de lançamento: 2022
Número de páginas: 161
Lido em: novembro de 2023
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"É curioso reparar como algumas pessoas nesse mundo não têm direito à meninice. Quando ainda mal se sustentam em cima das pernas, são vistas como adultas; enquanto outras serão para sempre garotos e garotas."

Essa é uma boa frase para resumir "Solitária", que começa sua narrativa no sudeste, no fim dos anos 90, sob a perspectiva de Mabel, uma garotinha negra que um dia é levada por sua mãe, Eunice, para o luxuoso apartamento onde esta trabalha para uma família muito rica como doméstica. Ali Mabel é imediatamente confinada a um quartinho de empregada, pois sua presença é um incomodo para Lúcia e Tiago, os patrões de sua mãe. Logo nesse primeiro contato com essa família, Mabel conhece Irene, uma menina negra de 13 anos que foi trazida do interior para ser a babá de uma criança branca. Nesse mesmo dia, Mabel presencia um acidente envolvendo essa criança branca e vê Irene sendo punida pelo ocorrido, sabendo, mesmo em seus poucos anos, que aquela moça poderia ser sua irmã.
Quando a patroa de Eunice engravida, a presença de Mabel na casa passa a ser "tolerada", desde que ela "não faça barulho" e "não fique no caminho". Na verdade, Mabel começa a ser usada como força de trabalho, tendo que ajudar sua mãe nos afazeres domésticos e nos cuidados da filha dos patrões da mãe. Enquanto Mabel tem sua infância roubada e passa a dividir de forma permanente com a mãe o quartinho de empregada onde tudo é reduzido, Lúcia ganha "duas domésticas pelo preço de uma". Porém, assim como sua avó, uma mulher orgulhosa de suas raizes e insubordinada, à medida que Mabel vai crescendo, ela vai se revoltando contra aquela família e contra aquele sistema de servilidade ao qual sua mãe está presa e decide estudar e se tornar médica para tirá-las daquela situação. Os patrões de sua mãe tratam de forma desdenhosa o sonho de Mabel de se tornar médica, algo quase impensável para uma menina negra e filha de uma doméstica, mas a menina está  determinada e se empenha nesse objetivo. Enquanto se divide entre os afazeres domésticos, uma rotina rigorosa de estudos e seus dilemas de adolescente, Mabel cresce solitária entre as quatro paredes silenciosas do quartinho de empregada, tendo que arcar sozinha com as consequências dos seus atos, enquanto sua mãe se dedica não à criação dela, mas à da filha branca de sua patroa, uma menina tão mesquinha e mimada quanto seus pais, mas por quem Eunice tem muito amor.
A segunda parte do livro nos oferece a perspectiva de Eunice, uma mulher negra reduzida não aos seus sonhos, mas às suas responsabilidades. Uma mulher que se viu esposa e mãe muito cedo, como muitas antes de si, e que teve que se conformar com o sistema, abrindo mão de seu orgulho e de seus desejos para sustentar uma mãe idosa e doente e uma filha pequena, enquanto seu marido, um homem alcoólatra e por vezes agressivo, vencido pelo sistema, abandona não apenas a família, mas a si mesmo.
Eunice se anula em função dos patrões e pela moral machista da sociedade e se vê constantemente dividida entre o amor que sente pela filha e o amor que sente por Camila, a filha da patroa, já que a criou desde bebê. Mas quando os atos irresponsáveis de Camila culminam em uma grande tragédia, Eunice precisa tomar uma decisão.
Além de Mabel e Eunice, o livro também tem seu foco narrativo na família do porteiro Jurandir, que vive em um quartinho tão "inho" quanto o de Eunice e Mabel, porém mais insalubre, com poluição o invadindo dia e noite. "Solitária", o título do livro, não se refere apenas ao sentimento de solidão, mas também aos quartinhos destinados às classes mais pobres, que são como prisões. Jurandir é viúvo e pai de João Paulo e Cacau. Enquanto o segundo decide, assim como Mabel, focar nos estudos para a possibilidade de uma vida melhor, João Paulo é um jovem revoltado contra o sistema, mas que não sabe para onde direcionar sua revolta, ocupando, na visão social, o papel do homem negro "marginal", apesar de estar muito longe de sê-lo: João Paulo também trabalha desde muito novo e teve sua infância tolhida pelo racismo.
Solitária é um livro curto, mas que abarca muitas coisas. Na minha opinião, não precisava ser tão curto. A autora poderia ter acrescentado mais camadas para alguns dos personagens secundários, poderia ter criado mais cenas e ter marcado melhor o espaço entre as fases que transcorrem ao longo de 20 anos, para dar mais profundidade aos acontecimentos. Algumas situações são colocadas de maneira muito abrupta. Ainda assim, com "Solitária", Eliana Alves Cruz cumpre bem a função de desenhar vários aspectos de uma sociedade racista e elitista, nos mostrando diferentes perspectivas e reações a essa estrutura que se perpetua há séculos. Esse livro fala sobre a infância roubada de crianças negras, sobre a eterna criancice de pessoas brancas, sobre mulheres negras que precisam abrir mão de cuidar de seus filhos para cuidar dos filhos de pessoas brancas, sobre homens negros em situação de rua e muitos outros resultados do racismo estrutural. De forma direta ou mais sutil, esse livro tem muito a dizer.  Muito atual e trazendo eventos reais, ele é um registro do cenário social e político dos  últimos 20 anos do Brasil, retratando uma elite não só acostumada a escravizar pessoas negras e pobres, mas também ressentida dessas pessoas finalmente estarem ocupando espaços até então exclusivos a ela. Uma elite sem vergonha de dizer coisas como: "esse vaso vale mais do que vinte anos do seu salário" e que apoia um governo golpista para tentar manter seus privilégios.
O que me chama mais atenção, porém, para além da abordagem sobre o impacto do racismo sobre a infância de crianças negras, é a demarcação das diferenças psíquicas e estruturais do racismo entre homens e mulheres, já que além do racismo, mulheres enfrentam também a carga do machismo e da maternidade compulsória (muitas vezes fruto da falta de educação sexual): mulheres negras não podem se dar ao luxo de se abandonar, não podem esmorecer, elas têm que se manter fortes, dentro de quartinhos solitários, para ser a base da próxima geração de pessoas negras. Afinal, por trás de cada pessoa negra, especialmente mulheres negras, têm outras mulheres negras que lutaram muito e deram o sangue para um futuro melhor para os seus. Mesmo que de formas diferentes, mulheres negras estão sempre sustentando umas às outras.

Livro recomendado.

sábado, 11 de novembro de 2023

leitura: pequena coreografia do adeus


Título: Pequena Coreografia do Adeus
Autora: Aline Bei
Editora: Companhia das Letras
Ano de lançamento: 2021
Número de páginas: 282
Lido em: novembro de 2023
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"A queda ensina mais do que o voo"...

Essa é uma das muitas frases impactantes desse livro tão inovador de Aline Bei, que de forma magistral lapida um romance em formato de poesia. Quem não gosta da estrutura da poesia e está preso à prosa, seja pelo aspecto visual ou pela diferença de ritmo, pode estranhar ou até mesmo não dar uma chance à obra de Bei, mas qualquer pessoa com um pingo de sensibilidade que se permitir ler este livro vai ficar extasiada por seu talento e por sua força narrativa.
"Pequena Coreografia do Adeus" nos apresenta, em primeira pessoa, a história de Júlia, desde sua infância, à sua adolescência e começo da vida adulta. Enquanto criança, Júlia vive com sua mãe, Vera, e seu pai, Sérgio, que arrastam uma relação infeliz e por vezes psicologicamente violenta. Vera é uma mulher que veio de um contexto de violência e abandono familiar e carrega um enorme descontentamento pelo rumo que sua vida tomou. Ao longo dos anos, levando consigo as mágoas pela própria mãe e pelo casamento miserável, Vera teve seus sonhos aniquilados e desconta suas frustrações e rancores agredindo a filha, Júlia, tanto fisicamente, quanto psicologicamente. Ela se justifica repetidamente dizendo que sua mãe "era muito pior do que ela", mas Júlia sabe que ser "menos pior" do que alguém ruim não é o suficiente, e logo surge a dúvida, para nós, leitores: será Júlia capaz de quebrar esse ciclo e ser MELHOR do que sua mãe?
Todos os dias a menina leva surras cada vez mais pesadas, enquanto seu pai assiste em silêncio, omisso ao que acontece dentro de sua casa. Seu pai é um homem órfão, que também tem pouco repertório afetivo e não sabe expressar seus sentimentos. Até que um dia ele decide, sem muitos rodeios, abandonar a esposa, dizendo que "ninguém a aguenta". Porém, ao abandonar Vera, Sérgio acaba, por tabela, abandonando Júlia à própria sorte em uma casa onde ela é abertamente vitimizada. A filha até pede para morar com o pai, mas ele rejeita veementemente a ideia. Júlia entende que enquanto seu pai abandonou sua mãe de uma vez, a abandona em pequenas doses.
Pessoalmente, acredito que uma pessoa que se omite nessas situações, é tão ruim quanto quem pratica as agressões, mas é muito comum, na nossa sociedade, em casos de divórcio, a integridade da criança não ser levada em consideração, como se um casamento fosse apenas sobre um casal. Um casamento que gera filhos, é sobre eles também! Como um pai ou uma mãe pode virar as costas e deixar para trás um filho ou uma filha sofrendo abusos? Como em muitos momentos desse livro, eu me identifiquei profundamente com Júlia. Senti isso na pele. Meu pai "não suportava a minha mãe", falava que ela era a pior pessoa do mundo, mas me deixou com ela. Como meu pai, o pai de Júlia pensou apenas nos próprios incomodos e problemas.
Com o abandono do marido, Vera se torna mais amargurada e mais agressiva, exceto a noite, quando busca afeto na filha para silenciar sua solidão. Júlia aproveita o que pode quando sua mãe abaixa a guarda, porém, na maior parte do tempo, a menina fica sozinha com suas dores e só tem seu diário e um pouco de música para lhe acolher. Júlia não consegue se ajustar na escola, especialmente após o divórcio dos pais, pois além de ser "diferente", passa a reproduzir a violência que sofre, agredindo suas colegas. Em uma ocasião, chega a quebrar o nariz de uma menina. Para "ensinar" à Júlia que "quebrar coisas tem consequências", Vera lhe dá uma surra e quebra todos seus pertences. A lição que Júlia tira disso, é que "quebrar coisas tem suas consequências apenas dependendo de quem você é". 
Apesar da agressividade, Júlia é querida por professores, que diferente de seus pais veem seu potencial criativo, sua sensibilidade e sua inteligência. A diretora então sugere que Júlia comece a praticar balé para ter onde alocar suas emoções e energias. A garota fica muito feliz com a ideia, pois ama música e vê muita beleza na dança, mas não é bem aceita pelas outras meninas e nem pela professora de dança e novamente é rejeitada, recebendo o rótulo de inadequada e sendo jogada na solidão.
A história de Júlia é pesada e triste. É, por fim, um perfeito retrato de filhos de pais disfuncionais, de pais divorciados e de famílias presas em ciclos de violência; pinta fielmente a solidão e a impotência de algumas crianças frente a pais que abusam de "autoridade". Contudo, Aline Bei consegue contar essa história de forma quase leve. Não é uma leitura que gera agonia, apesar de gerar revolta e muito impacto com frases muito marcantes e análises sociais certeiras. É realmente como assistir ao mais sensível balé de palavras. O que me impressiona e me encanta, é que apesar de toda a violência e solidão a qual foi exposta, o que gerou muita revolta justificada, uma inadequação e sentimento de desconfiança natural, Júlia consegue, SIM, se tornar uma pessoa boa, empática e sensível. Uma pessoa que oferece muito mais aos pais do que eles merecem.
Eu me identifico muito com a Júlia em diversas questões. São tantos detalhes que a autora inseriu nessa história que eu também vivi, tantas situações que eu jamais pensei que outras pessoas tivessem passado, que me senti até mesmo invadida, como se ela tivesse tirado confissões de mim e usado em sua obra. Fico pensando se essa é a vivência da autora, apesar de haver uma afirmação de praxe de que tudo aquilo é ficção. Para mim é muito estranho alguém relatar tudo isso de forma tão precisa sem ter vivido isso. Talvez porque minha escrita é muito focada em mim mesma... 
Eu só não gostei do final. Queria ter visto mais essa pessoa que a Júlia se tornou e quem ela ainda poderia se tornar... mas isso não importa. A trajetória é o que importa. Foi uma experiência incrível ler esse livro, foi muito enriquecedor para mim, não só enquanto leitora, mas também enquanto escritora. Confesso que senti um pouco de inveja da genialidade de Aline Bei! Para algumas pessoas isso pode soar horrível, mas na minha linguagem, isso é uma forma de expressar minha admiração. Espero um dia conseguir escrever tão bem, criar uma história tão boa e inteligente (e ir além das minhas próprias vivências). 

Leitura recomendada!

sábado, 23 de setembro de 2017

o livro

   Sabe aquele livro que você me recomendou? Eu o comprei. Não foi barato, não. E tem a crise. Mas comprei, e comecei a ler assim que chegou...  até os Correios colaborou, chegou em 2 dias! 
   Eu sei que você já sabe disso, mas não consegui pensar em melhor forma de começar a escrever isso aqui (vamos fingir que você não sabia).
  Alguns diriam que só comprei para te impressionar, mas a verdade é que o seu intelecto (ou curiosidade ou esforço ou como você queira chamar) me instiga. Eu ainda vou lamber o seu cérebro. ...
   Você fala algumas coisas extraordinárias e referencia clássicos que não li (por preguiça ideológica) e filósofos que não conheço (estava ocupada durante as aulas, escrevendo poesia ruim) — mas até que te acompanho bem, não acha? Talvez um dia eu chegue lá.
   O livro me incomoda em alguns pontos, você já sabe. Mas notei que às vezes o que me incomoda é justamente o que tenho em comum com o autor. Quando eu o odeio, estou odiando meu próprio comportamento. Você estava certo quando disse que esse livro tem a ver com aquela crônica sobre minhas "aventuras amorosas". Por outro lado, devo admitir que apesar das torcidas de nariz ocasionais diante das muitas colocações altamente machistas, que eu concordei em contextualizar, me pego rindo de verdade em algumas partes, e sentindo um nó no estômago em outras. Ele sabia dar umas porretadas bem dadas. O filho da puta era bom no que fazia.
   Fiz orelhas bem pequenininhas — tenho essa mania — nas beiradas dos meus poemas preferidos, para comentar com você depois, um dia, de preferência pessoalmente. Te imagino sentado, analisando as páginas marcadas, e eu espiando sobre o seu ombro, para ver em qual página você está. Você os leria, por indulgência, e poderíamos comentar algo sobre esse e aquele poema. Você poderia me perguntar por quê gostei desse e não daquele. Poderia me mostrar os seus preferidos.
   Sei que se eu for ali na nossa janelinha, que por sinal acabou de apitar, e te disser o nome dos meus preferidos, você não lembrará deles, não de cor, e poderá até procurar no google, como numa missão de reconhecimento, mas não seria a mesma coisa. Deve ser essa minha fase, em que o virtual anda alterando o sabor (ou a cor?) das coisas.
   Esse livro tem tanto do que nós já conversamos, e algumas coisas que não conversamos ainda, mas que soa como coisas que diríamos — diremos. Esse tipo de sincronicidade me atordoa!
   Por que começamos a falar desse velho safado, mesmo?... Seja pelo que for, agora eu fico aqui lendo e te vendo, também, em muitos dos poemas. Os que têm mais humor do que safadeza. Tiago, sinto te informar, mas eu acho que ele não gostaria de você. Você ouve Bob Dylan alto.
   Eu sempre fui mais Baez do que Dylan, para ser sincera. Afora o machismo (você deve estar cansado das minhas acusações de machismo nas artes, mas podemos concordar com a inevitabilidade de tal hábito?), uma vez meu avô, que tem uma coleção extensa de VINIS, me prometeu a discografia do Dylan, o que me empolgou muito. Me imaginei com vários discos de vinil, e estava pronta para comprar um toca disco. E no fim, o que recebi? Não, ele não me deu discos de vinil, e sim um CD pirata com músicas do Dylan! Que afronta! Que broxante! Desde então eu não quis mais ouvir Bob fucking Dylan. Isso faz uns 4 anos.
   E agora estou aqui, com o livro que você recomendou na minha frente, escrevendo para você, e ouvindo Bob Dylan. One More Cup of Coffee. Eu não tomo café. Você não toma cerveja. Eu acho que quando nos encontrarmos, teremos que nos contentar com chá. Você gosta de chá, Tiago?
  ... Você fica me perguntando se gostei ou não do livro, como quem teme ter feito uma recomendação que não agradou. E eu digo que quero terminar de ler antes de opinar.
   É que hoje em dia eu leio mais devagar. O tempo é curto, e além de ler, eu tenho que dividi-lo entre ouvir as mesmas músicas repetidamente, reassistir seriados velhos que ainda me causam sensações oportunas, e lavar meus cabelos.
   Aliás, eu também deveria usar um pouco do meu tempo para ir ao mercado e riscar os itens da minha lista de compras. Só que a lista está me servindo de marca-página sempre que eu sou forçada a deixar o livro de lado.
   E talvez esse tipo de livro seja melhor apreciado em pequenas doses, de qualquer forma.
   Se você quer tanto saber: sim, eu gostei do livro! Gostei, porque às vezes não gostei. Gostei porque às vezes ele foi completamente indigesto e grotesco. Gostei porque ele socou minha cara e espremeu meu coração entre suas pequenas páginas. Essas reações adversas são a prova de que algo presta. Por alguns momentos a indignação e repulsa nos balançam e nutrem dentro de nós essa coisinha chamada vida.
   

   Eu sempre tenho perguntas para te fazer, então aqui vai mais uma, para encerrar: você acha que eu me excedo no uso dos travessões?

domingo, 4 de dezembro de 2016

CAPÍTULO 2: THE GROWNUP


Título: The Grownup 
Título alternativo: What Do You Do? | Título nacional: O Adulto
Autora: Gillian Flynn
Gênero: Suspense/Terror
Editora: W&N 
Ano: 2015
Número de páginas: 79
Onde comprei: Book Depository

Preço: US$3.75



   Sharp Objects, da Gillian Flynn, me fez valorizar um gênero literário que nunca dei muita atenção, o thriller, e me fez recuperar a vontade de ler. Me fez lembrar o que é pegar um livro e não conseguir deixá-lo de lado nem para comer ou dormir. O que é ficar lendo uma páginas após a outra de forma frenética, louca para saber o final (louca para ler a página final antes de chegar lá!).
   Assim sendo, logo fui atrás de outros livros dela. Li os outros dois publicados até o momento, e quando, tristonha, pensei que era isso, descobri The Grownup, que não é realmente um "livro", e sim um conto, que foi publicado anteriormente em uma coletânea organizada pelo George R. R. Martin, com o título "What do You Do?" ("o que você faz?".  Essa é uma questão que a narradora se coloca diversas vezes ao longo da leitura).
   Mesmo o conto tendo sido publicado solo por motivos comerciais (tem muita gente esperando um novo livro dessa mulher!), eu estou satisfeita, pois assim soube dele. 
   A história é narrada por uma mulher, cujo nome não é relevado, que é uma batedora de punheta profissional. Ao longo de três anos, segundo seus cálculos, ela bateu cerca de 23.546 punhetas. E não qualquer punheta, A Punheta. Uma punheta boa o bastante para que ela tivesse uma agenda cheia o ano inteiro, exceto pelas duas semanas na qual saía de férias.
   Até que ela começa a sofrer com a síndrome do túnel carpal, o que a obriga a deixar a profissão. É aí que ela recebe a proposta de trabalhar como leitora de auras no mesmo estabelecimento onde bateu punheta por 3 anos. 
   Graças a sua mãe, que nas palavras da própria narrada, era uma mulher preguiçosa, que mendigava na rua o suficiente para sobreviver, ela ganhou a habilidade de ler pessoas, saber o que elas querem, e o que dizer para conseguir o que quiser delas. Nas ruas ela conseguia distinguir os "Tonys", que são pessoas que não sabem dizer não. O título é dado por causa de seu pai, que se chamava Tony e não sabia dizer não, "exceto, é claro, quando a esposa pediu que ele não fosse embora".
   A narradora, apelidada de Nerdy, é uma mulher que gosta de se gabar de sua inteligência, perspicácia e apetite por livros. Ela reconhece, e aqui entra a identificação, que não é tão inteligente, simplesmente convive com pessoas que são menos inteligentes do que ela, e se preocupa com o dia em que tiver que conversar com pessoas realmente inteligentes, que saberão que ela é entediante, uma farsa.
   Mesmo após se aposentar ela mantém alguns clientes favoritos, entre eles um homem que também gosta de ler, e que lhe recomenda livros toda a vez que aparece para uma punheta. Ela chama isso de uma espécie de "clube do livro". 
   Um dia, após bater uma punheta, Nerdy conhece Susan, uma mulher que está visivelmente sob alguma espécie de sofrimento emocional. Nerdy, de forma cautelosa, tenta arrancar da mulher o que lhe aflige. Após uma breve leitura da mulher, aposta que há algum problema na casa, mais especificamente com o marido ou um filho. Cética, Susan se recompõe e vai embora, mas volta dias depois, revelando que realmente tem um problema em casa: Miles, seu enteado, que cria desde os 4 anos de idade, e que agora tem 15, a assusta. Ele é violento, ela diz, e obscuro. O pai do garoto, um homem ausente, não quer nem ouvir falar sobre isso, pois acha que é implicância de sua esposa.  Nerdy internamente atribui o comportamento de Miles à idade e a mudança repentina, já que a família de Susan acaba de comprar uma nova casa. Porém, vê na situação a oportunidade perfeita de carreira, e se dispõe a fazer uma limpeza espiritual na casa de Susan. 
 Ela propõe um total de 12 visitas, a 2.000 dólares cada, contando que com o tempo o comportamento de Miles amenizará, e Susan pensará que foi graças às limpezas. Entretanto, Susan quer uma solução mais rápida.
   Nerdy visita a casa pela primeira vez, e aqui o livro se transforma em outra coisa, um terror gótico. A casa, por fora, é uma construção vitoriana, e a narração de Nerdy, abalada pela estética do local, é de causar arrepios. Por dentro, no entanto, a casa foi completamente renovada, o que a tranquiliza um pouco.
   Nerdy passa a maior parte das visitas, nas quais não tem ninguém na casa, lendo na enorme biblioteca da família, mas também faz minuciosa limpeza a base de ervas, sonhando que em breve Susan a recomendará para diversas amigas ricas, que também contratarão seus serviços, e ela será uma leitora de auras de luxo.
   Até que coisas bizarras começam a acontecer. Primeiro, ao limpar o chão, Nerdy corta o dedo, apesar de não ter nada afiado ali para explicar isso. Um dia, enquanto ferve água para a limpeza, Miles chega às suas costas e lhe diz que ela deve deixar de ir à casa, ou morrerá. Ela logo descobre que uma das babás da família sofreu um terrível acidente e foi hospitalizada. Susan indica que o responsável pelo acidente foi Miles. Ela passa a temer o garoto, que vomita em sua bolsa. 
   Intrigada, Nerdy decide verificar na internet se há algum histórico da casa, e descobre que o dono original da mansão, Patrick Carterhook, tinha um filho, que assim como Miles, defecava e vomitava nos pertences da família, e inclusive mandou uma babá para o hospital após um incidente. E, pior, descobre que esse jovem assassinou toda a família enquanto eles dormiam, e se matou em seguida.
   Agora crente de que a mansão é assombrada e que a história está sendo reencenada, Nerdy, apesar de seu espírito vigarista, decide alertar Susan e dizer que não pode ajudá-la no fim das contas, e que ela deveria ir embora da casa.
   Temos, então, um bom plot twist, mas o final, em si, deixou muito a desejar. A história tem basicamente três partes, a primeira é divertida, aborda a vida de trapaças da narradora, e a escrita da Flynn é no mínimo instigante. A forma como ela descreve as coisas são divertidamente absurdas, algo que me agrada, pois acaba me tirando da zona de  conforto que a maioria dos autores me joga, quando tentam se levar muito a sério. A segunda parte é o verdadeiro suspense, na qual eu comecei a analisar os personagens para tentar descobrir o que de fato estava acontecendo. Muitos suspeitos e um clima de terror que me empolgou bastante, já que não sou facilmente amedrontada. E a terceira, após o plot twist, na qual acredito que a autora se perdeu tentando criar um final que não fosse clichê. O tiro saiu pela culatra, e ele soou simplesmente broxante, embora tenha conseguido desfazer minha visão da personagem central, por quem eu estava nutrindo respeito. Ela não é, afinal, tão esperta.
  Por se tratar de um conto, os personagens não se desenvolvem tanto quanto poderiam, e algumas situações em potencial são desperdiçadas, bem como personagens são citados e não têm utilidade alguma para a história. OK, a autora consegue brincar com as sensações e o raciocínio do leitor, mas no fim não nos serve de nada, porque não chegamos a lugar nenhum. 
   Entendo que essa provavelmente foi a intenção. No fim o leitor É a narradora, nos sentimos como ela.
    O ponto positivo, ao menos para mim, é que a Flynn conseguiu, nas duas primeiras partes, criar o tipo de clima que me fez me apaixonar por ela em primeiro lugar. Ela é uma excelente escritora, sabe brincar com as palavras como ninguém. 
   Agradeço por mais uma personagem feminina escrachada, boca suja, provavelmente beberrona, e completamente viciante. O que mais me prende a um livro é conseguir me identificar com ao menos um personagem, e ela sempre consegue criar mulheres que cheguem mais perto de quem eu sou.
   Também adoro a capacidade dela de criar crianças bizarras. É algo totalmente King, mas com uma abordagem mais crua.
   Se a história fosse mais longa, teria sido fantástica. Quem sabe um dia...


   Leria de novo? SIM
   Nota 4 (de 5)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Capítulo 1: DON'T LOOK BACK



Título: Don't Look Back (alternativo: Justice for Sara)
Autora: Erica Spindler
Gênero: Suspense/Drama/Romance
Editora: Sphere
Ano: 2013
Número de páginas: 444
Onde comprei: Book Depository


  Há um tempo venho criando coragem para começar a escrever sobre os livros que leio. Não tenho um propósito específico, mas isso é algo que eu fazia quando era mais nova, e acho um exercício interessante. É improvável que alguém leia, mas vamos lá.

  Embora muitos títulos constem na lista de livros para comprar (e ler), às vezes tenho dinheiro e não quero comprar nenhum deles (não me pergunte por quê). Nesses momentos fico vagando pela Estante Virtual, Saraiva, Submarino e afins, analisando os livros que estão baratos. Porém, esse ano decidi que não irei mais comprar livros traduzidos do inglês, porque já me sinto à vontade com o idioma, e quero expandir meu vocabulário. O Book Depository caiu como uma luva nessa missão. Apesar da alta do dólar, às vezes compensa mais comprar lá, que vem do Reino Unido, do que na Estante Virtual — por conta do frete.
   Pra mim o único problema do Book Depository é que justamente pelo frete ser gratuito, os livros não têm código de rastreio, o que pode gerar alguma apreensão. Esse demorou cerca de 3 meses para chegar. Tirando a ansiedade, o site é completamente confiável. Eles dão todo o suporte necessário, e até enviam uma nova cópia caso a original seja extraviada.
   Don't Look Back foi comprado em uma dessas ocasiões em que nenhum dos livros na minha lista me atraíam o suficiente. Após navegar por algumas horas na aba de thrillers em desconto no Book Depository, o encontrei, e a sinopse me lembrou muito Sharp Objects da Gillian Flynn, que li ano passado e me deixou sedenta por mais. Verifiquei a nota no Good Reads  e constava um surpreendente 4.1, mas diante da incerteza se ele valeria a pena ou não, acabei não comprando. Passados alguns dias, me arrependi, e fui ao site, só para descobrir que ele tinha esgotado. Fiquei me martirizando, mas não desisti, e entrei no site religiosamente até que ele voltou ao catálogo. Estava pouco menos de 5 dólares, o que, no dia, se traduziu em míseros 16 reais. 
   O livro conta a história de Kat McCall, uma garota rebelde que perdeu os pais e vive com a irmã mais velha, Sara. O relacionamento das duas é extremamente conturbado, porque  a Kat vive mentindo, e constantemente tem explosões de raiva, que resulta em agressões verbais. Quando Sara descobre que a irmã fingiu estar no time de softball para ter tempo livre com o namorado, — o típico bad boy de cidadezinha — Kat é castigada. Sem computador, sem telefone, sem sair de casa. Inconformada, ela grita para quem quiser ouvir que queria que Sara estivesse morta.
   Para seu azar, seu pedido se realiza, e pouco após esse episódio público sua irmã é brutalmente assassinada em sua própria casa. Não apenas isso, o crime se dá através de pancadas violentas com o mesmo taco de baseball que Kat usava, e que foi um dos motivos da briga.
   Kat, que permanecera em seu quarto, já que estava de castigo, acorda para encontrar a cena e chama a polícia. Quando Stephen Tanner, o chefe de polícia da cidade chega para averiguar o crime, encontra Kat agindo como se nada estivesse acontecendo, e até mesmo dando risadinhas, o que o deixa com os cabelos em pé. Aqui um fato interessante: segundo entrevista que a Erica Spindler deu, a reação de Kat é baseada na reação de um pessoa real: Amanda Knox.
   A cena do crime é tão gore que o durão chefe de polícia, um alcoólatra em luto pelo filho, acaba botando as tripas para fora. Ele logo fica obcecado com a reação de Kat. Todas as suspeitas recaem sobre ela, já que o crime foi obviamente passional, e a cidade inteira, incluindo seus amigos, testemunham que ela odiava a irmã e queria vê-la morta para botar as mãos na fortuna, a qual ela só teria direito ao atingir a maioridade. 
    Acobertando o namorado, que tem 20 anos e poderia se encrencar se viesse a tona que eles mantinham um relacionamento (que incluía sexo, maconha e planos homicidas), Kat muda repetidamente sua história, perdendo mais e mais a pouca credibilidade que tem.
    Apesar das mais variadas provas circunstanciais, Kat é inocentada pelo crime e decide deixar a cidade, já que é abandonada por todos seus amigos, seu namorado, e basicamente não tem mais família além de um primo, Jeremy (que também administra a fortuna da família).
  O livro começa de fato 10 anos após o crime, quando Kat retorna a Liberty, para descobrir quem é o verdadeiro assassino de sua irmã. Ela logo recebe a visita do novo chefe de polícia, Luke Tanner, filho do homem que destruiu sua vida. Stephen ainda nutre amargura por Kat ter "ficado impune pelo assassinato que cometeu".
  Luke costumava ser um jovem rebelde, mas agora é um cara "de boa", ou assim tenta se convencer, pois isso é irritantemente afirmado o tempo todo, tanto pelo personagem quanto pela autora. Apesar disso, ele contraria o pai em diversos momentos, e mais tarde é revelado que ele sofre de uma carência massiva, já que após a morte do irmão, o relacionamento dele com seu pai se fragmentou.
  Atraídos à primeira vista, Luke e Kat flertam diante dos olhos da cidade inteira, embora ela resista à ideia de namorar um policial. 
   Relutantemente, Luke aceita ajudar Kat a descobrir o verdadeiro assassino de sua irmã, e reabre o caso. De pano de fundo, no mesmo dia que Sara foi assassinada, um policial, Wally Clark, também foi baleado. Luke decide reabrir esse caso também, pois acredita que os dois estão conectados.
  Vítima de vandalismo e ódio por parte dos moradores da cidade, Kat logo descobre que seu antigo namorado, Ryan, está noivo de sua ex-melhor amiga, a rica e insegura Betsy.
  À partir daí se desenrola a investigação de Kat, que a despeito do pedido de Luke, se envolve em situações perigosas em busca de JUSTIÇA PARA SARA.
  Essa questão consegue ser bastante interessante, pois o livro tem personagens o suficiente para entreter várias possibilidades: agora o ex-namorado de Kat e o ex-namorado de Sara são os principais suspeitos. Ambos tinham o mesmo motivo: estavam interessados na herança das McCall, e os mesmos meios. 
  Confesso que a certo ponto cheguei a pensar que Kat fosse realmente culpada, e não sei se isso ocorreu por minha pouca confiança nos seres humanos (mesmo os fictícios) ou se a autora quis causar no leitor a mesma suspeita que a cidade inteira nutria. Teria sido um plot twist interessante.
  A leitura é fácil, rápida, mas isso só ocorre porque a Erica Splinder é uma escritora bem meia-boca. Não é de se admirar que ela tenha publicado mais de 30 livros — o público geral adoooora uma trama fácil! Ela repete muito as ideias e os termos utilizados. Eu não aguentava mais os personagens "laying their hands on their laps" ou "shifting their gaze". O excesso de drama e tragédias e culpados é o mesmo tipo de baboseira que eu escrevia quando tinha 15, 16 anos... 
   Eu não sei como meus olhos não ficaram permanentemente prejudicados de tanto que eu os revirei lendo certos diálogos (e a vergonha alheia me fazendo corar loucamente). Em alguns momentos me senti como quando era adolescente e lia romances de banca, especialmente no que diz respeito ao relacionamento da Kat e do Luke. Eu adoro um bom flerte entre personagens, e o Luke é super galante, em alguns pontos fofos, mas a maneira como eles foram abordados soou bem brega. Eles se conheciam há menos de um mês e estavam pensando em casamento, em amor... Em thrillers eu só quero uns beijos e uma foda, esse papo de amor pode ficar para romances (que não leio). 
   [spoiler]"when he entered her, she cried out. It was as if she had been waiting all her life for this moment. For this man."[/spoiler]
  Alguém me mate, por favor!
  Isso sem contar o conflito de interesse. Os motivos de Luke para reabrir o caso chega a ser questionado por alguns personagens durante interrogatórios pifiamente conduzidos. Enquanto eu lia, fiquei pensando o que aconteceria se aquilo chegasse a corte. A forma que eles seriam destroçados no tribunal! Os advogados estavam ali só para constar: a lógica da autora é assustadoramente burra. E ela teve consultores!
  Eu aprendi, nos últimos anos, a esperar mais de personagens femininas (obrigada Gillian Flynn!), por isso a Kat é extremamente frustrante para mim. Sempre toma as piores decisões possíveis, se colocando em risco desnecessariamente, impulsiva, e dependente do "galã" para salvá-la (o que ocorre vezes demais para o meu gosto!). Ela é patética. Por ter sido escrito por uma mulher, poderia ter fugido desse padrão hollywoodiano. 
  Apesar disso, não posso dizer que não gostei do livro, caso contrário não o teria terminado. Fiquei grudada a ele pelo suspense, lendo páginas após página, louca para descobrir o final (e dando uns sorrisinhos quando o Luke era fofo......... também sou patética).
  Eu saquei quem era o verdadeiro assassino bem antes do final, só errei o motivo (mais ou menos). O livro tem um final felizinho, o que para mim é um ponto negativo. Gosto de finais realistas, arrebatadores, não desses clichês! No geral, o livro todo poderia ser mais realista. Me tira do sério quando os personagens ficam dias acordados e sem comer! Os pequenos detalhes importam sim! Se até 24 Horas mostrava o Jack Bauer tirando um cochilo e comendo, porque um livro de 444 páginas não pode?
  Definitivamente não chegou nem aos pés de Sharp Objects. Mas é um bom livro para entreter, tem uma boa história, apenas um pouco mal executada. 
  Já fiz o pedido de outro livro da autora para ver se mudo essas impressões sobre sua escrita (porém, pelo que li por aí, não vai acontecer). 

  Uma ressalva: eu QUASE NUNCA imagino os personagens da forma que eles são descritos. A imagem vem na minha cabeça mais pela personalidade dos mesmos do que pelas descrições dos autores. Inclusive as dispenso! Não adianta o autor dizer que a mulher tem 1,65, olhos azuis e pele branca.... se eu imaginá-la uma negra de 1,80 não vou me forçar a vê-la de outra forma!

  + eu comecei a ler o livro imaginando o Luke como o Daniel Bess, e lá pro fim, por algum motivo, passei a vê-lo como o Andrew Lincoln. Talvez porque o livro começa muito bem e vai decaindo e se tornando outra coisa da metade para o fim. 

  Leria de novo? Provavelmente não.
  Nota: 3 (de 5)